Ontem, a peça 17 mediu os doze assuntos que mais renderam na cobertura da eleição desde março. Hoje a série fecha, com as dezessete respostas lidas juntas.
Parte do que a imprensa publicou sobre a eleição desde março foi escolha de redação, do confronto na manchete ao tamanho de cada assunto. Outra parte ela só refletiu, porque outros decidiram antes: as chapas mais cobertas não têm mulher por decisão dos partidos. E há o que a série não consegue separar, como a concentração da cobertura em Lula e Flávio Bolsonaro.
Esta peça não traz achado novo: os únicos números novos estão no fim e medem um erro nosso. Cada resposta tem a própria base e o próprio período, e não somamos uma com a outra. A abertura avisou o que a contagem não alcança. A dois dias do primeiro turno, nada abaixo diz quem lidera, quem cresce ou quem tem chance.
Duas linhas acesas de ponta a ponta
Lula e Flávio em todas as semanas; os outros doze acendem por acontecimento
Matérias de imprensa por candidato e por semana, de 25 de março a 27 de setembro de 2026, 27 semanas de segunda a domingo, rotuladas pela segunda (a primeira tem cinco dias). A cor segue o número de matérias da semana, em cinco faixas; a fatia à direita é a parte das matérias do período em que cada nome aparece (somam mais de 100%, porque uma matéria pode citar vários candidatos). Linhas na ordem do volume. A linha tracejada marca 10 de agosto, quando a rede de coleta ficou igual para todos. Pablo Marçal, que concorreu até o TSE barrar a candidatura, fica como ex-candidato, pela regra das peças 11 e 17; Leonardo Avalanche, lançado em julho, saiu da chapa em agosto e voltou em setembro; a linha dele apaga no meio por um buraco da nossa coleta. Os números marcam achados da série e um erro nosso
O gráfico é o da peça 1, estendido até 27 de setembro, e o que ele mostrava continua valendo. As linhas de Lula e Flávio Bolsonaro ficam acesas de ponta a ponta; as outras doze acendem quando um acontecimento as toca. De março a 13 de setembro, pela conta da mesma peça, Lula ou Flávio estava em 78% das matérias. A linha de Leonardo Avalanche apaga entre meados de agosto e meados de setembro, por um buraco na nossa coleta, explicado adiante.
O que foi escolha da imprensa
Escolha, aqui, é decisão de redação que a série conseguiu medir; nenhuma é apoio a candidato.
Uma escolha é confrontar ou não a fala que vira manchete. A peça 7 leu as 108 manchetes em que um candidato a presidente defende a morte de alguém, e em 11 o próprio veículo confronta o que foi dito. Nas outras, quem respondeu não foi o jornal: o título só repassa a fala ou noticia a reação de um adversário.
O gênero da matéria, notícia ou opinião, também é escolha. Para os seis candidatos mais comentados, a opinião é mais negativa que a notícia (peça 14). A diferença é de 11 a 33 pontos pela leitura do classificador e de 5 a 13 pelo endereço da matéria, e a ordem entre os candidatos muda conforme a medida.
A linha editorial aparece no tom. Na peça 8, 54% das matérias da imprensa de esquerda sobre Flávio Bolsonaro saem negativas, contra 12% na de extrema-direita; com Lula, o espelho. A peça não mede a intenção de quem publica.
Repetir o despacho é escolha de quem republica. Uma matéria em dez do acervo tem manchete repetida em outro veículo; para os menos cobertos, uma em quatro (peça 9). O maior grupo de manchetes iguais do acervo, com 45 veículos, é um despacho da Agência Brasil: serviço de agência, não plágio. É na imprensa dos estados, muitas vezes por esse despacho, que os menos cobertos ganham quase metade da cobertura que têm (peça 10).
Quem é chamado para explicar a eleição também é escolha. Em 95,5% das matérias, ninguém é chamado (peça 12). Quando alguém é, o mais chamado é quem faz pesquisa: Felipe Nunes, da Quaest, com quase o triplo do segundo.
Resta o tamanho de cada assunto. Na peça 17, o tarifaço de Trump e o caso Banco Master ficaram lado a lado, e cada um rendeu mais que o dobro de qualquer outro assunto. O assunto pode chegar pelo governo, como o tarifaço; o espaço que ele ocupou foi a imprensa que deu.
O que a imprensa só refletiu
O caso mais claro é o das mulheres. As seis chapas presidenciais mais cobertas não têm uma mulher, e a peça 4 disse de quem foi a decisão: dos partidos, em convenção. Foram eles que puseram as oito mulheres das 26 vagas nas chapas que já nasciam pequenas. "A imprensa não escolheu deixar as mulheres fora do topo", escreveu a peça. A parte da imprensa está no tratamento: quando o tema é a mulher, "trata dela como eleitorado dos homens e como assunto das candidatas".
O volume de cobertura também é reflexo. As peças 4 e 5 leram na peça 1 que ele segue o tamanho da candidatura, e nenhuma resposta seguinte mediu o contrário. Também é reflexo o retrato das chapas. A peça 3 não contou matérias: leu no registro do TSE quem são os candidatos, e ali a imprensa não decidiu nada.
Por último, o cargo de Lula. Para a peça 2, a palavra de Lula é o cargo: a relação entre Executivo e Legislativo, a indicação política, a inflação. As peças 15, 16 e 17 repetiram a advertência: como Lula é presidente e candidato, a cobertura do governo entra na conta. Foi pela porta do governo que Trump entrou na eleição (peça 15). No clima, a fala de Lula é quase toda de presidente: na ONU, no Planalto (peça 16).
O que a série não consegue separar
Quem fala nas matérias é um desses casos. Na peça 6, quatro candidatos falam em mais de um terço das matérias que os citam; Lula, em uma de cada cinco. A peça não diz que os quatro falam mais porque a imprensa os prefere. Diz que "pode ser o caminho inverso": o candidato que precisa ser conhecido dá entrevista e vai a sabatina.
A lista é outro caso. Para seis candidatos, quase metade da cobertura é matéria que enfileira cinco nomes ou mais (peça 5). A ressalva é da própria peça: "Não diz que os seis mereciam mais, nem que a imprensa os esconde." Estar na lista é presença e conta como cobertura; só não é a mesma coisa que ser assunto.
O mesmo vale para a concentração em Lula e Flávio. A peça 11 encontrou uma rede que se parte em duas. De um lado estão Lula e Flávio, com o STF, o Master e Trump. Do outro, os onze candidatos restantes, em matérias que, diz a peça, são de agenda e de lista. A imprensa escreve duas eleições. Quanto disso espelha a disputa e quanto é obra da cobertura, a série não mede: mede o tamanho, não a causa.
Por fim, há o que ficou pequeno. Saúde e educação, dois dos temas que mais aparecem nos planos de governo, quase não aparecem na cobertura (peça 13). A peça avisa que isso não quer dizer que a imprensa ignore os planos: "matéria sobre crise não é matéria sobre programa de governo". Clima, inteligência artificial e bioeconomia couberam em 930 das 25.931 matérias da campanha (peça 16). O que é escolha da redação e o que é pauta dos próprios candidatos, a série não separa.
O que o painel não mede
Cobertura não é voto: o painel mede o que a imprensa publicou, não o que o eleitor pensa nem quem vence. Só entra imprensa com texto na internet; TV, rádio e redes sociais só contam quando viram texto num site. Imprensa partidária e oficial fica na coleta e fora da conta, quando o veículo foi revisado por uma pessoa.
A leitura de cada matéria é de um modelo de linguagem, conferida por amostra. Nas pessoas citadas, ele acertou 51 de 60 matérias (peça 11); nos acontecimentos, 55 de 60 (peça 17); nos planos de governo, tema e grau juntos em 47 de 60 parágrafos, abaixo do piso da rubrica (peça 13). O gênero, notícia ou opinião, não tem gabarito (peça 14). O tom mede o enquadramento, não o fato: fala sem resposta conta a favor de quem fala. E o classificador dá tons diferentes a textos iguais em um de cada seis títulos repetidos (peça 8). A coleta também tem limites: a rede só ficou igual para todos os candidatos em 10 de agosto (peça 1), e ausência no acervo não é ausência no mundo.
O que erramos fazendo a série
A peça 4 saiu em 18 de setembro dizendo que as sete chapas mais cobertas não tinham mulher; eram seis. A apuração contou como imprensa o Causa Operária, jornal do PCO, que o painel já não contava, e a peça foi refeita no dia seguinte. Hoje, três notas corrigem incoerências menores. A peça 9 chamava de "maior grupo da campanha" o maior do acervo, anterior à campanha. A peça 10 dizia 7% de matérias de veículos sem sede, quando são 6%, e a peça 13, doze temas, quando são treze. Nenhum outro número mudou.
O erro maior envolve Leonardo Avalanche. Ele saiu da chapa do PRTB em agosto, quando o partido inscreveu Pablo Marçal, e voltou em setembro, depois de o TSE barrar Marçal. No mês em que ficou fora, as buscas dedicadas ao nome dele estavam desligadas. O changelog do painel declarou o buraco em 16 de setembro, com uma promessa: "de 16/09 em diante ele é coletado como todos os outros". No Google News, não foi assim: a busca dele só voltou em 28 de setembro, o que contamos aqui pela primeira vez. Em cada uma das janelas das peças 9, 11, 15 e 16, entre 39 e 41 matérias dele só chegaram depois do conserto. Nenhum achado central muda. Na peça 11, Avalanche iria de 702 para no máximo 724 matérias, ainda atrás de Geraldo Alckmin, com 731. Na peça 15, ele passaria de 145 para até 183 títulos na campanha, à frente de Hertz Dias, com 168, e de Rui Costa Pimenta, com 177. Muda a ordem entre os menos cobertos, não o achado da peça.
O painel também errou, e cada erro ficou registrado. A API pública contou por nove dias matérias de porta-vozes e canais oficiais, que ficam fora da conta. O verbete "matéria-lista" do glossário dizia "a maior parte" da cobertura dos menores, quando a peça 5 achou de 40% a 49%. E a página de método, corrigida hoje, ficou para trás: ainda dava como titular da classificação um modelo trocado em setembro e dizia que a acurácia não fora validada, quando ela mesma registrava 89% de concordância às cegas.
Outros erros a apuração pegou a tempo. Em 1º de setembro, a pauta dizia que Hertz Dias ficara 73 dias sem aparecer na imprensa. O número media a nossa rede de coleta, que só o buscava no Google News desde 10 de agosto. No mesmo dia, a pauta trazia "30 contra 184": as cinco vices mulheres somavam 30 manchetes, e um vice homem, Alfredo Gaspar, 184. A checagem mostrou que pesava a posição da chapa, não o sexo.
O que isto não diz
Não diz quem vence, o que o eleitor pensa, nem se a imprensa acertou no que escolheu. Diz o que a imprensa publicou sobre a eleição desde março e, quando a série consegue separar, de quem foi a escolha. Cobertura não é voto.
Daqui em diante
O painel segue no ar. Se houver segundo turno, a coleta continua até 25 de outubro, com os dois finalistas; se não houver, segue mais uma semana e encerra. O resumo semanal de 5 de outubro é o último com os treze candidatos. Depois dele, quem sair da disputa sai também do painel, e os números da série sobre quem saiu ficam nas peças. A série fica publicada como retrato da cobertura antes do voto. Amanhã, 3 de outubro, sai uma edição extra sobre a crise do STF, assunto que as peças 16 e 17 deixaram para ela.
A série termina aqui; o painel continua. Quem assina a newsletter do SapiensLabs recebe, toda terça, o resumo da semana da eleição. Sem anúncio, sem afiliado; cancela com um clique.
Como este texto foi feito
Esta é a décima oitava e última resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Não traz número novo: os números citados são os das 17 respostas publicadas, cada um com o link da peça de onde vem, e o período de cada peça é o dela. O gráfico repete a medida da peça 1 no banco do painel, de 25 de março a 27 de setembro de 2026, a última semana completa antes da escrita. O que a seção "O que erramos" mede sobre a coleta do Leonardo Avalanche foi medido em 2 de outubro. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 e revisto por Claude Opus 5.5 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.