Ontem, a peça 3 fez o retrato dos 26 nomes das chapas e parou na porta de uma pergunta; hoje entramos: onde estão as mulheres, e quem decidiu que ficariam ali.
Até a noite de terça-feira, 15 de setembro, eram sete. O registro de candidatura no TSE trazia sete mulheres nas 26 vagas das treze chapas presidenciais, e foi com esse número que esta peça entrou no calendário da série. Na manhã seguinte, o painel leu o arquivo do tribunal e a conta mudou: o registro de Pablo Marçal, indeferido, saiu da lista; no lugar dele entrou a chapa nova do PRTB, com Leonardo Avalanche, que era o vice, como titular, e Silvia Hellen da Silva Pereira, Silvia na urna, como vice. A chapa que caiu tinha dois homens. A que entrou tem uma mulher. São oito.
Vale dizer como a oitava chegou, porque diz muito sobre as outras sete. Ela não entrou por decisão de campanha, nem por pressão de ninguém: entrou porque a Justiça Eleitoral derrubou um registro e o partido refez a chapa às pressas. E entrou numa chapa que o TSE ainda não julgou, pendente até o fechamento deste texto. É a mulher mais recente das 26 vagas, e a que menos tempo teve para ser notada. Voltamos a ela adiante.
Antes, a régua. Esta peça, como a de ontem, começa fora da cobertura: o dado de partida é o registro de candidatura no TSE, lido do banco do painel em 17 de setembro, e o campo é o gênero que o tribunal registra para cada nome. Não passa por classificador. Depois a peça volta à imprensa, com duas medidas distintas que o texto não mistura: para os treze candidatos a presidente, os pares artigo × candidato do painel, os 13 de sempre; para os treze vices, que o painel não acompanha como candidatos, a passada que lê o corpo das matérias e anota as pessoas citadas, e que existe desde 10 de agosto. Toda conta de vice, aqui, é dessa janela.
Onde elas estão
Oito mulheres em 26 vagas são 30,8%. Duas são candidatas a presidente, Clariana Zacarkim Barão, do DC, e Samara Martins da Silva Feitosa, Samara na urna, da UP; seis são candidatas a vice: Fabiana Torquato (DC), Raquel Brício (UP), Cleusa Santos (PCB), Vanessa Portugal (PSTU), Suêd Haidar (Democrata) e Silvia (PRTB). Duas chapas são inteiramente femininas, as do DC e da UP. Sete chapas não têm mulher nenhuma: PT, PL, Missão, Avante, PSD, Novo e PCO.
Agora a cobertura. Desde 10 de agosto, quando os treze passaram a ter a mesma rede de coleta, a ordem das chapas por volume de matérias é esta: Lula, Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Zema, Rui Costa Pimenta; depois Edmilson Costa, Hertz Dias, Wilson Grassi, Clariana Barão, Samara e Leonardo Avalanche. Trace uma linha entre o sétimo e o oitavo nome. Acima dela, nenhuma mulher. Abaixo, todas as oito.
As sete chapas mais cobertas não têm uma mulher
As treze chapas presidenciais pela cobertura desde 10 de agosto. As seis que têm mulher são exatamente as seis menos cobertas — as oito mulheres estão escritas ao lado da barra da chapa de cada uma.
chapa com mulherchapa só de homens
Fonte: painel Eleições 2026, pares artigo × candidato desde 10 de agosto de 2026 (a janela em que os treze têm a mesma rede de coleta), lidos em 17/09/2026; gênero pelo registro de candidatura no TSE (consulta_cand_2026). A chapa do PRTB tem registro pendente de julgamento. Método.
Não há uma exceção, e a linha não depende da janela: no período inteiro do painel, desde março, a ordem dentro de cada bloco muda (Caiado e Zema sobem, Renan e Cury descem), mas a fronteira entre os blocos fica exatamente onde está. As sete chapas mais cobertas do país não têm uma mulher; as seis que têm são as seis menos cobertas. Juntas, as duas candidatas a presidente somam 3,1% de tudo o que a imprensa publicou sobre os treze desde agosto.
É preciso ler esse número com cuidado, porque ele convida a uma acusação que os dados não sustentam. A imprensa não escolheu deixar as mulheres fora do topo. A peça 1 mostrou que o volume de cobertura segue o tamanho da candidatura, e o tamanho da candidatura é decisão de partido: as treze chapas foram montadas em convenções entre julho e agosto, e as oito mulheres foram postas, uma a uma, nas chapas que já nasciam pequenas. A imprensa cobre o que os partidos montaram. O que sobra para ela, e é bastante, vem mais abaixo.
Quem decidiu
Não há cota. A regra dos 30% por sexo está no artigo 10 da Lei 9.504, e o artigo 10 trata das candidaturas à Câmara dos Deputados, às assembleias e às câmaras municipais, as eleições proporcionais. Chapa presidencial é eleição majoritária: cada partido registra quem quiser, homem ou mulher, sem mínimo a cumprir. Os 30,8% deste ano não atendem a nada; são a soma de treze decisões independentes. Fomos conferir na lei, não de memória, porque a coincidência com o número da cota é só isso, coincidência.
Para saber o que cada partido decidiu, lemos os arquivos do TSE de 2018 e de 2022, com a mesma régua: presidente e vice, primeiro turno, candidaturas aptas. Em 2018 eram sete mulheres em 26 vagas, 26,9%, duas delas titulares, Marina Silva e Vera Lúcia Pereira da Silva Salgado, Vera na urna. Em 2022, oito em 22, 36,4%, e quatro titulares: Simone Tebet, Sofia Manzano, Soraya Thronicke e Vera de novo. Em 2026, oito em 26, 30,8%, e duas titulares. Em fatia, este ano fica entre os dois anteriores. No topo da chapa, é o retrocesso: as candidatas a presidente caíram de quatro para duas, e as duas estão na 11ª e na 12ª posição da cobertura. Em 2022 havia uma chapa inteiramente feminina numa candidatura de porte, Tebet e Mara Gabrilli; em 2026 as duas chapas femininas são as do DC e da UP.
Uma ressalva de comparação, que devemos ao leitor: 2018 e 2022 são retratos finais, com tudo julgado; 2026 é o retrato de hoje, e inclui uma chapa que o tribunal ainda vai julgar.
O que os partidos fizeram, de uma eleição para a outra, é onde a pergunta do título encontra resposta. A UP subiu a mulher: Samara era vice de Léo Péricles em 2022 e é titular em 2026, com outra mulher na vice. O PSTU fez o caminho inverso: Vera foi a candidata a presidente em 2018 e em 2022; em 2026 o titular é Hertz Dias, que era o vice dela em 2018, e a mulher, Vanessa Portugal, ficou na vice. O PCB fez o mesmo movimento do PSTU: Sofia Manzano titular em 2022, Cleusa Santos vice em 2026. O DC trocou duas chapas de dois homens, as de Eymael em 2018 e 2022, por uma chapa de duas mulheres. Entre os partidos das maiores candidaturas, o Novo não registrou uma mulher em nenhuma das três eleições. O PL só teve chapa própria em 2022 e 2026, e nas duas registrou dois homens; em 2018 Jair Bolsonaro concorreu pelo PSL. O PT teve Manuela d'Ávila na vice em 2018 e, desde 2022, tem Geraldo Alckmin.
Há um detalhe de arquivo que merece registro. Em 2018, o TSE guarda a chapa do PT em duas versões: Lula titular e Fernando Haddad vice, os dois inaptos, e depois Haddad titular e Manuela vice, a que foi à urna. Manuela entrou pela mesma porta que Silvia entrou agora, a de uma substituição forçada. Em duas das três últimas eleições, uma das mulheres da disputa presidencial chegou porque um homem saiu.
O que a imprensa faz com os vices
Aqui a peça sai do registro e volta à cobertura, com uma pergunta que precisa de controle: a imprensa cita menos as vices por serem mulheres? A resposta é não, e o modo de saber é olhar os vices homens das chapas pequenas.
Quem é vice e não é notícia: o que decide é o tamanho da chapa, não o sexo
Os treze vices por menção no corpo das matérias. Os seis mais citados são homens das chapas mais cobertas; o vice homem da chapa do PCO fica atrás de cinco vices mulheres.
vice mulhervice homem
Fonte: painel Eleições 2026, passada de entidades (pessoas citadas no corpo das matérias), 10 de agosto a 17 de setembro de 2026, papel "candidato"; "no título" é a mesma menção com o nome na manchete. Gênero pelo registro no TSE. Silvia está na chapa desde 15/09: três dias de janela, não um mês. Método.
Entre 10 de agosto e 17 de setembro, os seis vices mais citados no corpo das matérias são homens, e são os vices das seis chapas mais cobertas: Alfredo Gaspar, 529 matérias; Geraldo Alckmin, 301; Gilberto Kassab, 269; Coronel Medina, 254; Eduardo Girão, 155; Júlio Delgado, 146. Depois vêm cinco mulheres, entre 127 e 80: Raquel Brício, Cleusa Santos, Fabiana Torquato, Vanessa Portugal, Suêd Haidar. E então Antônio Carlos Silva, vice de Rui Costa Pimenta, do PCO: homem, 78 matérias, atrás das cinco. O eixo que ordena a lista não é o sexo de quem ocupa a vaga. É o tamanho da chapa, e o capital político que a pessoa traz consigo: Kassab preside o PSD, Alckmin é vice-presidente da República, Gaspar é deputado, Girão é senador. As cinco vices mulheres estão onde estão porque as chapas delas estão onde estão.
Há uma diferença que o número não mostra e que fica registrada como exemplo, não como medida. Kassab é o vice mais manchetado dos treze, 102 matérias com o nome dele no título, e as manchetes são frases dele sobre a eleição: "Centrão apoia Lula e Flávio Bolsonaro não tem a menor chance", diz Kassab. Cleusa Santos tem sete manchetes, e elas a apresentam: "Conheça Cleusa Santos, candidata a vice-Presidência pelo PCB". Um fala; a outra é apresentada. Quem tem a palavra e quem é só assunto é a pergunta da peça 6, e lá isso vira número para os treze.
E Silvia. Ela tem 73 matérias no corpo, o que a colocaria perto de Suêd Haidar, mas as duas contas não se comparam: Suêd tem um mês de janela; Silvia, três dias. Das 73, 57 são de 15 de setembro, o dia em que a imprensa noticiou a chapa nova; 15 são do dia seguinte; três, do outro. Por dia, é a vice mais citada de todas, e o assunto das matérias não era ela: era a queda do registro de Marçal. É uma rajada de três dias, e o gráfico a desenha tracejada por isso. Nenhuma das 73 matérias tem o nome dela no título.
Mulher, na cobertura dos homens
Falta a parte que é da imprensa, e ela não está em quem a imprensa cita: está no que a imprensa chama de assunto. O painel rotula cada par artigo × candidato com os tópicos da matéria, e há um conjunto deles em que a mulher é o tema: eleitorado feminino, voto feminino, representatividade feminina, direitos das mulheres, violência contra a mulher, candidaturas femininas, chapa feminina. Separamos esses rótulos em dois grupos: os que tratam da mulher como quem vota e os que tratam da mulher como quem disputa.
Na cobertura dos homens, mulher é quem vota; na das candidatas, é o assunto
Pares artigo × candidato em que o tópico é a mulher como eleitorado ou como candidata, para os quatro homens mais cobertos e as duas candidatas.
mulher como eleitoradomulher como candidata
Fonte: painel Eleições 2026, rótulos de tópico dos pares artigo × candidato, período inteiro (25/03 a 17/09/2026). Eleitorado = "eleitorado feminino", "voto feminino", "mobilização feminina"; candidata = "representatividade feminina", "candidaturas femininas", "chapa feminina", "participação feminina na política", "gênero na política", "cota de gênero". Método.
Nos dois homens mais cobertos do país, a mulher aparece como eleitorado: Flávio Bolsonaro tem 414 pares em que o tema é a mulher que vota e 70 em que é a mulher que disputa; Lula, 179 e 81. Nas duas candidatas, inverte: Samara tem 82 pares em que o tema é a candidatura feminina e seis em que é o eleitorado; Clariana Barão, 67 e cinco. E o peso disso na cobertura de cada um é de outra ordem. Entre os onze homens, os tópicos de gênero ocupam de 1,1% a 2,2% do que sai sobre eles. Na cobertura de Samara, ocupam 14,4%; na de Clariana, 18,3%. Quando o candidato é homem, a mulher é quem vota nele. Quando a candidata é mulher, ela própria é o tema.
Uma última leitura, que cruza com o retrato de ontem. Das oito mulheres, quatro se declaram brancas ao TSE, metade; dos dezoito homens, catorze, 78%. Samara e Suêd Haidar se declaram pretas; Fabiana Torquato e Raquel Brício, pardas. Metade da diversidade racial declarada das treze chapas está em oito nomes que ocupam menos de um terço das vagas e ficam, todos, na metade de baixo da cobertura.
O que isto não diz
Registro não é representação: o gênero que o TSE anota é o que a pessoa declarou, e é só isso que contamos. Cobertura não é voto: o painel mede o que a imprensa publica, e nada aqui diz quem vence. E a chapa do PRTB, com a oitava mulher, segue pendente de julgamento; se cair, a conta volta a sete, e o painel anota a mudança como anotou esta.
Onde estão as mulheres de 2026: nas seis chapas que a imprensa menos cobre, sem exceção. Quem decidiu: os partidos, em convenção, com a UP subindo uma mulher, o PSTU e o PCB descendo, o DC estreando duas, o Novo sem registrar nenhuma em três eleições, o PL em duas, e o PT trocando Manuela por Alckmin. O que a imprensa faz com elas: cita as vices na proporção das chapas, homem ou mulher; e, quando o tema é a mulher, trata dela como eleitorado dos homens e como assunto das candidatas.
Amanhã
Amanhã, a peça 5 fica na cobertura e pergunta quem a imprensa só cita em lista: os candidatos que quase não aparecem fora das matérias que enfileiram cinco ou mais nomes.
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Como este texto foi feito
Esta é a quarta resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. O ponto de partida é o registro de candidatura no TSE, de 2018, 2022 e 2026; os números de cobertura vêm do banco do painel, e todos foram conferidos antes da escrita. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.