Ontem, a peça 12 contou quem a imprensa chama para explicar a eleição. Hoje a peça fica quase toda fora da imprensa: entra no único texto que todo candidato é obrigado a entregar ao TSE, o plano de governo.
Todo candidato a presidente entrega ao TSE, junto com o registro, um plano de governo. Baixamos os 13 planos das chapas em disputa (o de Pablo Marçal, cujo registro foi indeferido em 11 de setembro, fica de fora da conta e entra numa nota ao fim) e uma passada de classificação leu cada um por inteiro, parágrafo por parágrafo: 5.171 parágrafos e itens de lista, de 7 páginas (Rui Costa Pimenta) a 200 (Augusto Cury). Conferimos 60 parágrafos à mão; o método diz onde a máquina e a leitura humana concordaram e onde não.
Cada parágrafo recebeu um tema, entre treze, e um grau. Menção, quando o assunto aparece como diagnóstico ou compromisso sem instrumento. Proposta concreta, quando diz o que será feito com pelo menos um elemento verificável: um programa, uma lei, um órgão, um número com objeto, um mecanismo. E, para as concretas, duas perguntas que os planos costumam esquecer e que se respondem lendo o texto: por que via se faz (decreto, lei, PEC, acordo com estados) e com que dinheiro (custo, fonte, ou ao menos admitir que vai precisar dele). Uma proposta que responde às duas tem lastro; a que responde a uma delas tem meio lastro. Havia uma terceira pergunta na rubrica, se a proposta cabe na lei como está; deixamos de fora, e o motivo está no fim. Um em cada doze parágrafos (429) fica fora dos treze temas: apresentação, biografia, retórica, religião e costumes. Os outros 4.742 são a matéria desta peça.
Muita promessa, quase nenhum lastro
Dos 4.742 parágrafos com tema, 2.937 (62%) são menção. São frases do tipo "incentivos especiais para a agricultura familiar" (Cury), "o objetivo será atacar o patrimônio do crime, bloquear recursos ilícitos e desarticular organizações criminosas" (Cury de novo) ou "articular segurança com emprego, educação, cultura, esporte, assistência social, moradia e urbanização das periferias" (Samara Martins): o assunto está lá, o que fazer não está. Outros 1.805 (38%) fazem uma proposta concreta. Dessas, 1.280 não dizem nem a via nem o dinheiro; 477 dizem uma das duas coisas; e 48 dizem as duas. Em 4.742 parágrafos com tema, 48 têm lastro inteiro: um em cem.
Com que lastro: 11,1% dos parágrafos com tema dos treze planos dizem por que via ou com que dinheiro, e 1,0% dizem os dois; Wilson Grassi tem a maior fatia (23,8%) e Clariana Barão, a menor (2,7%)
Fatia dos parágrafos com tema de cada plano em cada grau. Concreta = diz o que fará com instrumento, número ou mecanismo; o lastro é o que o texto diz sobre a via (decreto, lei, PEC, estados) e o dinheiro (custo, fonte ou ao menos a necessidade). O rótulo é a soma das duas fatias douradas. 5 planos não têm nenhum parágrafo que diga via e dinheiro. À direita, o número de parágrafos com tema.
diz a via e o dinheirodiz a via ou o dinheiroproposta concreta, sem via nem dinheirosó menção
Fonte: os 13 planos de governo registrados no TSE (DivulgaCandContas, baixados em 27/09/2026), 5.171 parágrafos e itens de lista classificados por tema e grau de concretude (DeepSeek V4.1 Flash, rubrica da série). O lastro é só o que o plano diz: por que via e com que dinheiro; a leitura da máquina sobre a lei ficou fora da régua. Método.
O lastro falha quase sempre no mesmo lugar. Das 1.805 propostas concretas, 76% não dizem por que via seriam feitas, e 92% não dizem nada sobre dinheiro: 5,5% indicam custo ou fonte, e outras 2,0% admitem que vão precisar dele. Sete em cada dez (71%) não respondem a nenhuma das duas perguntas. Quando a via aparece, é quase sempre o próprio governo ("criaremos um programa", "por decreto"), os estados e municípios ("com os governadores") ou o Congresso ("enviaremos projeto de lei"); a PEC aparece em 32 propostas.
Quem lastreia, e quem só promete
Quem mais lastreia é um dos candidatos menos cobertos. No plano do Wilson Grassi, do Democrata, 23,8% dos parágrafos com tema dizem a via ou o dinheiro, e 2,9% dizem os dois, a maior fatia dos treze: cada seção traz o instrumento, o prazo e "como medir", e é o plano que mais nomeia a via (40% das propostas concretas). Logo atrás vêm o do Edmilson Costa, do PCB (22,6%, nenhum com as duas), o do Renan Santos (20,8%, o que mais diz qual lei ou PEC precisaria) e o do Lula (18,8%). Entre os seis candidatos com mais matérias na campanha, Renan e Lula ficam no alto; o Caiado tem 13,9%, o Flávio Bolsonaro 7,8%, o Zema 7,7% e o Cury 4,2%. Cinco planos não têm nenhum parágrafo que diga a via e o dinheiro ao mesmo tempo: os de Edmilson, Flávio, Hertz Dias, Rui Costa Pimenta e Clariana Barão. O plano do Flávio tem propostas concretas em 43,3% dos parágrafos com tema, tanto quanto os outros grandes, exceto o Cury; mas 1,7% delas dizem o dinheiro, e nenhuma diz o dinheiro e a via.
O tamanho não decide nada. O plano mais longo, o do Cury, com 200 páginas e 1.100 parágrafos e itens, é o mais vago entre os seis mais cobertos: 78% de menção. O segundo mais longo, o do Caiado, com 100 páginas e 1.060 parágrafos e itens (763 são itens de lista), tem 43,9% de propostas concretas, perto do Flávio e um pouco abaixo do Lula (49,0%), com 258 parágrafos só de saúde. E o de menos parágrafos, o do Edmilson, com 73 em 16 páginas, é o mais concreto de todos (80,6%): uma lista de medidas que às vezes diz a via (10 de 50) e quase nunca o dinheiro (4).
Quase todo mundo toca em quase tudo
Cruzamos os 13 planos com os 13 temas. Em 145 das 169 células há pelo menos uma proposta concreta; em 105, uma que diz a via ou o dinheiro; em 29, uma que diz os dois. Só 12 células ficaram vazias na leitura, e cinco delas são do plano de 15 páginas da Clariana Barão. Clima e meio ambiente fica vazio em três planos (Avalanche, Pimenta, Clariana); cultura, esporte e turismo, em dois (Hertz e Clariana).
Treze planos, treze temas: em 29 dos 169 cruzamentos há proposta que diz por que via e com que dinheiro; em 76, proposta que diz uma das duas; em 40, só proposta concreta; em 12, só menção; 12 ficaram sem parágrafo do tema na leitura
O maior grau que cada tema alcança em cada plano. Ao lado do ponto, o número de parágrafos do tema; sob o nome do tema, quantos dos 13 planos o tratam. Ordenado pelo número de temas com proposta que diz via e dinheiro, depois com via ou dinheiro.
proposta que diz a via e o dinheiroproposta que diz a via ou o dinheiroproposta concretasó mençãoausenteao lado do ponto, o número de parágrafos do tema
Fonte: os 13 planos de governo registrados no TSE (DivulgaCandContas, baixados em 27/09/2026), 5.171 parágrafos e itens de lista classificados por tema e grau de concretude (DeepSeek V4.1 Flash, rubrica da série). O lastro é só o que o plano diz: por que via e com que dinheiro; a leitura da máquina sobre a lei ficou fora da régua. Método.
Economia e contas públicas é o tema de todos: 21,8% dos parágrafos com tema, bem à frente do segundo, saúde (12,3%). Trabalho e renda (10,5%), educação (9,6%) e segurança pública (9,2%) fecham o bloco dos grandes temas. Cultura, esporte e turismo, o tema que entrou na régua por último, tem 4,8%, mais que inteligência artificial (3,8%), energia (3,7%), clima (3,1%) e bioeconomia (2,8%). O lastro também tem endereço: Estado e gestão é o tema em que mais se diz a via ou o dinheiro (22,6% dos parágrafos do tema), seguido de segurança pública (17,6%) e cultura, esporte e turismo (14,8%). Saúde é um dos temas com mais propostas concretas (46,0%) e um dos que menos dizem como pagar ou por que via (8,4%). Democracia e instituições não tem uma proposta sequer que diga via e dinheiro. Relações exteriores é o tema em que menos se propõe alguma coisa concreta (24,7%): três em cada quatro parágrafos são princípio ou diagnóstico.
Os planos falam de saúde e educação; a cobertura fala de democracia e instituições
Comparamos a fatia de cada tema nos planos com a fatia das 25.464 matérias sobre os 13 candidatos, entre 16 de agosto e 26 de setembro, em que o mesmo tema aparece. Não são a mesma coisa, e a régua é diferente: uma matéria pode ter vários temas, o parágrafo tem um só; nos seis primeiros temas a régua é a matéria inteira, pelo zeitgeist do painel, e nos outros sete é o tópico ligado ao candidato, o que tende a inflar um pouco os seis primeiros. Mesmo assim, a ordem conta.
Saúde é 12,3% dos parágrafos dos planos e 2,8% das matérias; educação, 9,6% e 1,9%; democracia e instituições, 5,2% e 14,1%
Fatia de cada tema nos parágrafos com tema dos 13 planos (dourado) e fatia das 25.464 matérias sobre os candidatos, de 16 de agosto a 26 de setembro de 2026, em que o tema aparece (tinta). Uma matéria pode ter mais de um tema; nos seis primeiros temas a régua é a matéria inteira (zeitgeist do painel), nos outros sete é o tópico ligado ao candidato.
fatia do tema nos planos (parágrafos com tema)fatia das matérias sobre os candidatos em que o tema aparece
Fonte: os 13 planos de governo registrados no TSE (DivulgaCandContas, baixados em 27/09/2026), 5.171 parágrafos e itens de lista classificados por tema e grau de concretude (DeepSeek V4.1 Flash, rubrica da série). O lastro é só o que o plano diz: por que via e com que dinheiro; a leitura da máquina sobre a lei ficou fora da régua. Cobertura: painel Eleições 2026, matérias de imprensa com par verificado com um dos 13 candidatos; temas 1 a 6 pelo zeitgeist do painel, 7 a 13 pelos tópicos. Método.
Saúde é 12,3% dos parágrafos dos planos e 2,8% das matérias. Educação, 9,6% e 1,9%. Economia, 21,8% e 11,5%. Cultura, esporte e turismo, 4,8% e 1,4%. No sentido contrário, democracia e instituições é 5,2% dos planos e 14,1% das matérias. Os dois lados se encontram em dois temas: segurança pública (9,2% e 9,0%) e relações exteriores (6,7% e 6,9%). Candidato por candidato, o Lula é o de menor coincidência entre o que o plano diz e o que a cobertura dele traz: no plano, economia é 17,1% e democracia e instituições 3,4%; na cobertura, os dois empatam (11,6% e 11,8%). No plano do Flávio, economia é 26,1% dos parágrafos; nas matérias sobre ele, 6,1%.
O que isto não diz
Não medimos qualidade, viabilidade nem custo de proposta nenhuma; plano vago é dado, não defeito do método. A rubrica desta peça tinha uma terceira pergunta, se a proposta cabe na Constituição e nas leis como estão ou o que precisaria mudar, e nós a tiramos da régua: responder a isso exige conhecer as inúmeras legislações de cada tema, e não temos um modelo especializado na legislação brasileira; a máquina até respondeu, mas a chance de erro não se mede, e preferimos publicar só o que dá para conferir lendo o plano. A leitura que ela fez fica registrada no pacote, como descrição, e os pontos em que ela viu conflito com a lei ficaram para revisão humana, fora desta peça. A régua de temas também mudou no dia: a primeira leitura, com doze temas, deixava propostas de cultura, esporte e turismo no "fora dos temas"; o décimo terceiro tema entrou e a leitura foi refeita inteira. O cruzamento com a cobertura diz de que cada lado fala mais, não que a imprensa ignora os planos: matéria sobre crise não é matéria sobre programa de governo, e ninguém esperaria o contrário. E o plano de Pablo Marçal, lido à parte, tem 137 parágrafos, 37% de propostas concretas, uma que diz o dinheiro, uma que diz a via e nenhuma que diga as duas.
Amanhã
Amanhã, de volta à imprensa: a peça 14 compara o que a notícia diz de cada candidato com o que a opinião diz, e mede de quem a opinião cobra o que a notícia poupa.
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Como este texto foi feito
Esta é a décima terceira resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os planos de governo são os registrados no TSE (DivulgaCandContas), baixados em 27 de setembro de 2026 e lidos por inteiro: 5.171 parágrafos e itens de lista nos 13 planos das chapas em disputa. Cada parágrafo recebeu um tema, entre doze, e as marcações de proposta, concretude, via, dinheiro e legalidade por uma passada de classificação (DeepSeek V4.1 Flash) com a rubrica da série como instrução; o grau (menção, concreta, com lastro) sai em código, das marcações. O lastro mede só o que o texto do plano diz: por que via e com que dinheiro. A rubrica previa uma terceira pergunta, se a proposta cabe na lei como está; ela ficou fora da régua porque não temos um modelo especializado na legislação brasileira e a chance de erro não se mede; a leitura que a máquina fez disso está no pacote, como descrição. Num gabarito de 60 parágrafos julgados à mão antes de ler a máquina, a passada concordou com a leitura humana no tema em 51, no grau em 53 e nos dois juntos em 47 (78%, abaixo do piso de 80% da rubrica); as marcações de via e dinheiro não passaram por gabarito. A cobertura é a do banco do painel, de 16 de agosto a 26 de setembro de 2026. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.