Eleições 2026 · 18 respostas sobre a imprensa

Quando defender matar vira manchete

Em seis meses, 108 manchetes trouxeram um candidato a presidente defendendo a morte de alguém. Em 53, o título só repassa a fala. Em 44, noticia a reação de um adversário. Em 11, o próprio veículo confronta o que foi dito.

Leonardo Fontes de Sales 14 min
18 respostas sobre a imprensa07 / 18
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das manchetes com um candidato defendendo matar foram confrontadas pelo jornal.Em 53 das 108, o título só repassa a fala. Em 44, noticia a reação de um adversário. Em 11, o próprio veículo confronta.
O veículo confronta · 11Reação de adversário · 44Só a fala · 53
Painel Eleições 2026 · SapiensLabs108 manchetes · 25 mar a 20 set

Ontem, a peça 6 mostrou quem tem a palavra na imprensa: Renan Santos fala em quase metade das matérias que o citam. Hoje a pergunta é o que acontece quando a fala reproduzida é a defesa de matar.

Esta pauta ficou guardada desde 1º de setembro com um nome só, o de Renan Santos, candidato do Missão. Refizemos a apuração pela pergunta, e não pelo nome, e o banco devolveu dois casos grandes com resultados opostos. O segundo é de Lula. A resposta de hoje está na diferença entre os dois.

Primeiro, o que contamos. Procuramos o vocabulário da morte nos títulos das 82.169 matérias de imprensa que citam algum candidato, de 25 de março a 20 de setembro: matar, atirar, exterminar, enforcar, pena de morte, "tem que morrer". A busca devolveu 228 manchetes, e lemos todas. A maior parte não era o que procurávamos: "bala de prata", "abater dívidas", "matar a eleição no primeiro turno", uma emissora chamada Rádio da Mata. Outras 24 tratam de violência contra candidatos, e voltamos a elas no fim. Sobraram 108 manchetes, de 47 veículos, em que um candidato em disputa defende, promete ou trata como natural a morte de alguém: como política de segurança, como pena ou contra um adversário. Não fazemos juízo jurídico. Não dizemos que a fala é crime; dizemos que ela está no título.

Depois, a régua, que precisa vir antes do primeiro número. No painel, cobertura "positiva" não quer dizer que o veículo aprovou o que foi dito. Quer dizer que a matéria deu espaço a quem fala sem apurar nem confrontar no trecho que lemos, o que chamamos de declaratório. Vale para qualquer fala, de qualquer candidato, sobre qualquer assunto. O tom é sempre medido para quem fala: a matéria em que um candidato defende matar e ataca outro tem um tom para o primeiro e outro para o segundo.

Renan Santos: a fala, quase sempre sozinha

São 50 manchetes em 36 veículos. "Pré-candidato à Presidência diz que Flávio Bolsonaro 'tem de morrer'", publicou o Metrópoles em abril. "'Assaltante tem que morrer', diz Renan Santos sobre combate à violência", no Correio da Manhã, em junho. Na convenção de 1º de agosto, "'Vamos matar quem roubar', diz Renan Santos ao lançar candidatura", na CNN Brasil, e a mesma frase nos títulos de G1, Folha, Estadão, Poder360, Band, InfoMoney e Correio Braziliense. Duas semanas depois, no primeiro ato de campanha em São Paulo, o Estadão: "Renan Santos ataca Lula e Flávio e promete 'exterminar' facções: 'Vamos tingir o chão com sangue'". No fim de agosto, o UOL: "Na Globo, Renan Santos elogia Bukele: 'Polícia tem que atirar para matar'".

Das 50, 37 saíram positivas para ele, o que dá 74%. Sete saíram neutras e seis, negativas. Para comparar: nas 3.267 matérias que levam o nome de Renan Santos no título, de qualquer assunto, a cobertura positiva é de 49,1%. A defesa de matar rendeu a ele tratamento mais favorável do que a média dos próprios títulos.

O motivo está no que o título faz com a fala. Em 46 das 50 manchetes, ele só a carrega, inclusive quando o candidato é chamado a se explicar: "Renan Santos defende fala sobre prender ou 'matar bandido' em sabatina: 'Não tem outro caminho'", no Terra. Nenhuma das 50 noticia a reação de um adversário. E em 4 o próprio veículo confronta. O Brasil 247 chamou a promessa de inconstitucional. A Alma Preta deu nome ao que ele defendia: violência letal. O Agora RN pôs ao lado da promessa os 6.602 mortos pela polícia brasileira em 2025, número do Anuário de Segurança Pública. O Metrópoles ouviu especialistas. As quatro saíram negativas para o candidato. A Constituição proíbe a pena de morte, salvo em caso de guerra declarada. Entre os 50 títulos, um usa a palavra "inconstitucional".

Duas ressalvas de tamanho. Esse conjunto é 1,4% dos títulos com o nome de Renan Santos: não é o que a imprensa escreve sobre ele, é o que acontece quando ele diz isso. E 39 das 50 manchetes são de agosto, o mês da convenção e do início da campanha.

Lula: a mesma régua, o resultado oposto

Em 2 de junho, num evento em Goiás, Lula reclamou da tarifa de 25% anunciada pelos Estados Unidos e chamou os filhos de Jair Bolsonaro de traidores. "Por menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado. O que merece os traidores?", perguntou, como registrou a CNN Brasil. Voltou ao assunto em 20 de julho. São 53 manchetes em 29 veículos, e 46 delas saíram negativas para ele: 87%.

Quase todas são a mesma notícia. Em 43 das 53, o título é a reação: "Flávio Bolsonaro aciona STF contra Lula por fala sobre enforcamento", no G1, e as variações disso: a notícia-crime, o pedido à Procuradoria-Geral, a moção de repúdio aprovada numa comissão, a escolha do relator, a segunda ação, em 28 de julho. Em 5, o veículo confrontou por conta própria, e 3 dessas apontam um erro de história: Joaquim Silvério dos Reis, o delator de Tiradentes, não foi enforcado. "Lula tropeça na História e 'enforca' Joaquim Silvério dos Reis", no blog de Bernardo Mello Franco, no Globo.

O que torna o caso útil é o que aconteceu no primeiro dia. Em 2 e 3 de junho, a fala rendeu dois conjuntos de manchetes. Um com a forca, de 25 títulos: 20 são a reação de Flávio, 3 apontam o erro, 2 só repassam. E outro sem ela, de 28 títulos, do tipo "Lula diz que 'filhos são piores que Bolsonaro' ao associar taxação dos EUA à família do ex-presidente: 'Traidores da pátria'". Desses 28, 22 saíram positivos para Lula: 79%. A fala era uma só. A parte violenta chegou ao título quase sempre pela mão de quem reagiu a ela.

E há as duas manchetes com a forca que saíram positivas para Lula. São as que ninguém respondeu. Uma é do Estado de Minas, em julho: "'Antigamente, traidor era enforcado', diz Lula sobre Flávio".

A Renan Santos, nenhum adversário respondeu em manchete. A Lula, quase só o adversário

As mesmas 108 manchetes, por candidato que falou e pelo que o título faz com a fala. 25 de março a 20 de setembro de 2026.

A Renan Santos, nenhum adversário respondeu em manchete. A Lula, quase só o adversárioRenan Santos 36 veículos: 46 só a fala, 0 reação de adversário, 4 o veículo confronta (total 50); Lula 29 veículos: 5 só a fala, 43 reação de adversário, 5 o veículo confronta (total 53); Flávio Bolsonaro 4 veículos: 2 só a fala, 1 reação de adversário, 2 o veículo confronta (total 5).Renan Santos36 veículos46450Lula29 veículos543553Flávio Bolsonaro4 veículos5

o título só repassa a falanoticia a reação de adversário ou instituiçãoo próprio veículo confronta

Fonte: painel Eleições 2026, títulos de matérias de veículos de imprensa, 25 de março a 20 de setembro de 2026, lidos um a um em 21/09/2026. Entram as manchetes em que um candidato em disputa defende, promete ou trata como natural a morte de alguém; o tom é o da cobertura para quem falou. A leitura do título é humana, manchete a manchete, não do classificador. Método.

Três tipos de manchete

Juntando os três candidatos que aparecem nessas 108 manchetes, o desenho é este.

Em 53, o título só carrega a fala. Para quem falou, 41 saíram positivas, 8 neutras e 4 negativas.

Em 44, o título noticia a reação de um adversário ou de uma instituição. Nenhuma saiu positiva. Duas saíram neutras e 42, negativas.

Em 11, o próprio veículo confronta: com um dado, com a lei, com um especialista, ou apontando um erro. Nenhuma saiu positiva. Duas saíram neutras e 9, negativas.

Quando o título só repassa a fala, a cobertura sai a favor de quem falou. Quando alguém responde, sai contra

As 108 manchetes em que um candidato a presidente defende a morte de alguém, pelo que o título faz com a fala. Em cada barra, o tom da cobertura para quem falou. 47 veículos, 25 de março a 20 de setembro de 2026.

Quando o título só repassa a fala, a cobertura sai a favor de quem falou. Quando alguém responde, sai contraO título só repassa a fala: 41 positivas, 8 neutras, 4 negativas (total 53); Noticia a reação de um adversário ou de uma instituição: 0 positivas, 2 neutras, 42 negativas (total 44); O próprio veículo confronta dado, lei, especialista, erro apontado: 0 positivas, 2 neutras, 9 negativas (total 11).O título só repassa a fala418453Noticia a reação de um adversárioou de uma instituição4244O próprio veículo confrontadado, lei, especialista, erro apontado911

positiva para quem falouneutranegativa

Fonte: painel Eleições 2026, títulos de matérias de veículos de imprensa, 25 de março a 20 de setembro de 2026, lidos um a um em 21/09/2026. Entram as manchetes em que um candidato em disputa defende, promete ou trata como natural a morte de alguém; o tom é o da cobertura para quem falou. Positiva não é aprovação: é a matéria que reproduz a fala sem apurar nem confrontar no trecho lido. Método.

O tom não acompanha o que foi dito. Acompanha quem respondeu. E em nove de cada dez dessas manchetes quem respondeu não foi o jornal: ou ninguém respondeu, ou respondeu o adversário. A diferença entre o caso de Renan Santos e o de Lula não esteve na imprensa. Esteve em Flávio Bolsonaro, que foi ao Supremo contra um e não reagiu em manchete ao outro, que em abril tinha dito que ele "tem de morrer".

As 5 manchetes de Flávio cabem no mesmo desenho. "Flávio Bolsonaro quer 'neutralizar' integrantes do PCC e CV", no Estado de Minas, saiu positiva para ele, como a outra que só repassa a promessa. Quando a Coluna do Estadão lembrou que ele tinha prometido "abater bandido" que porta fuzil, semanas antes de um aliado ser preso com um, saiu negativa. Contamos "neutralizar" porque é eufemismo policial e vem entre aspas no próprio título; pesa 2 manchetes.

A régua também não condena a fala contrária. Quando Lula disse que "o governo não vai 'matar 100 ou 200', mas vai 'prender'", as 3 manchetes desse tipo saíram positivas para ele. O que a cobertura premia, nos dois sentidos, é a fala que ninguém respondeu.

Dentro da matéria

O título não é a matéria inteira, e fomos ver o resto com duas medidas de alcance limitado. A escada de voz de ontem só existe desde 10 de agosto. Das 16 manchetes de Renan Santos nesse período, ele fala em todas, e outra pessoa fala sobre ele em 2. A segunda medida é mais crua: nas 49 matérias dele em que lemos o corpo, procuramos palavras de contraponto, como Constituição, inconstitucional, direitos humanos, Anuário, letalidade policial, especialista, jurista. Ao menos uma delas aparece em 11. É presença de palavra, não leitura de argumento, mas a direção é a mesma do título: abrindo a matéria, o contraponto continua minoria.

A mesma fala de Lula em dois títulos: com a forca, sai contra ele; sem a forca, a favor

Manchetes de 2 e 3 de junho de 2026 sobre a fala em que Lula chamou os filhos de Bolsonaro de traidores e citou o enforcamento do delator de Tiradentes. Tom da cobertura para Lula.

A mesma fala de Lula em dois títulos: com a forca, sai contra ele; sem a forca, a favorTítulos com a forca enforcar, forca, Tiradentes, incitação: 1 positivas, 0 neutras, 24 negativas (total 25); Títulos sem a forca “traidores da pátria”: 22 positivas, 2 neutras, 4 negativas (total 28).Títulos com a forcaenforcar, forca, Tiradentes, incitação2425Títulos sem a forca“traidores da pátria”222428

positiva para quem falouneutranegativa

Fonte: painel Eleições 2026, títulos de matérias de veículos de imprensa, 25 de março a 20 de setembro de 2026, lidos um a um em 21/09/2026. Entram as manchetes em que um candidato em disputa defende, promete ou trata como natural a morte de alguém; o tom é o da cobertura para quem falou. Dos 25 títulos com a forca, 20 noticiam a reação de Flávio Bolsonaro. Método.

O que isto não diz

Não diz que a imprensa apoiou ninguém. Registrar o que um candidato a presidente diz é trabalho dela, e a fala de um candidato que promete matar é notícia. O que medimos é o que veio junto com o registro.

Também não é descoberta independente, e a ressalva é a mesma de ontem. A régua de tom do painel já parte do declaratório: fala reproduzida sem resposta sai a favor de quem fala. Que as 53 manchetes do primeiro tipo sejam na maioria positivas é a régua funcionando. O que a apuração acrescenta é o que a régua não mede: quantas vezes houve resposta, e de quem ela veio. Isso saiu de leitura nossa, título por título, não do classificador. E o classificador erra: a mesma manchete, "Renan Santos mira ataques a Flávio em evento do Missão e defende 'matar quem roubar'", saiu positiva na Folha e no Jornal de Brasília e negativa no Estado de Minas, que a republicou.

Não equiparamos as falas. Uma é proposta de governo repetida por meses; a outra é uma frase sobre adversários, dita duas vezes. Esta peça mede o tratamento que receberam, não a gravidade de cada uma. Não sabemos por que ninguém reagiu em manchete a Renan Santos: pode ser cálculo de quem não quis dar palco, e não medimos. Duas coisas ficam fora da conta. A primeira é a fala de aliados, que nas manchetes que lemos é toda do campo de Lula: quatro do deputado André Janones, que falou em "matar ou morrer" e em "exterminar o bolsonarismo", e uma de Lindbergh Farias, que repetiu contra Flávio a comparação com Tiradentes. Contamos o que o candidato diz, não o que dizem por ele. A segunda são as sete manchetes sobre Cabo Daciolo e pena de morte: ele saiu da disputa.

Fica fora, por fim, o outro lado do assunto. No mesmo período, 24 manchetes trataram de violência contra candidatos: neonazistas que planejavam matar Lula e atacar o debate do segundo turno, as ameaças de morte a Caiado e a Renan Santos, o boneco de petista enforcado em Barretos. Não é o tema de hoje. Mas é o ambiente em que aquelas 108 manchetes foram publicadas.

Amanhã

Amanhã, a peça 8 sai das falas e vai aos fatos: quais foram os doze acontecimentos que mais renderam cobertura nesta campanha.

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Como este texto foi feito

Esta é a sétima resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, na janela de 25 de março a 20 de setembro de 2026, e todos foram conferidos antes da escrita. O tom de cada matéria é lido por um modelo de linguagem, com a mesma regra para todos. A separação das manchetes pelo que o título faz com a fala foi feita por leitura humana, uma a uma, sobre 228 títulos; as manchetes citadas foram abertas na fonte em 21 de setembro. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.