Ontem, a peça 14 separou o que a notícia diz de cada candidato do que a opinião diz. Hoje saímos das chapas para medir um nome que não está em nenhuma delas: Trump, e o que a imprensa fez com ele na cobertura da eleição.
Na manchete, Trump foi um candidato da pré-campanha. Entre 25 de março e 15 de agosto, o nome dele esteve no título de 3.137 matérias da eleição, mais que nove dos treze candidatos em disputa: só Lula (25.613), Flávio Bolsonaro (20.683), Ronaldo Caiado (3.583) e Romeu Zema (3.328) tiveram mais. Na semana da visita de Lula à Casa Branca, de 4 a 10 de maio, Trump estava no título de 824 das 3.202 matérias (25,7%), uma em cada quatro. Só Lula (1.870) ficou claramente à frente; Flávio empatou com Trump: entre 796 e 826, conforme se conta o nome dele no título. Com a campanha oficial, ele encolheu na manchete: de 16 de agosto a 27 de setembro, 514 títulos, 2,0% das 25.919 matérias, contra 5,5% das 56.708 da pré-campanha. A volta na semana da ONU foi modesta, 152 títulos, 3,2% das 4.711. As manchetes sobre interferência ficaram: em números absolutos, mantiveram o ritmo e explodiram na última semana.
Primeiro, a régua. A base é a matéria da eleição: 82.627 textos de 1.985 veículos, de 25 de março a 27 de setembro, cada um com ao menos um par matéria × candidato verificado de um dos treze candidatos. Como Lula é presidente e candidato, a base inclui a cobertura do governo. Contamos Trump pelo nome no título, não pelo corpo: o corpo que o painel guarda carrega restos de página, e uma leitura de conferência achou resto de página em 9 de 14 menções a Trump que só aparecem depois do lide. Quando falamos do eixo americano, somamos ao nome no título as matérias cujo acontecimento principal, como o painel o rotula, é um dos sete episódios da relação com os EUA, do tarifaço à designação do PCC e do CV como terroristas. O discurso de Lula na ONU fica na borda: só entra quando Trump está no título. O rótulo de acontecimento só existe dentro das rajadas; a fatia pelo assunto é um piso, e a série semanal abre pela manchete.
O candidato da pré-campanha
Trump encolheu nas manchetes da eleição com a campanha oficial; as manchetes sobre interferência, não
Em cima, a fatia das matérias da eleição de cada semana com Trump no título; embaixo, quantas manchetes da semana falam de interferência externa no Brasil, pela leitura dos títulos. Semanas de segunda a domingo, 25 de março a 27 de setembro de 2026 (a primeira tem cinco dias). Cada painel tem a sua escala.
Trump no títulomanchetes sobre interferência
1 caso Ramagem e tiros no jantar de Trump (20 a 26/4) · 2 Lula na Casa Branca (7/5) · 3 Flávio na Casa Branca (26/5); os EUA classificam PCC e CV como terroristas (28/5) · 4 nova ameaça de tarifas · 5 G7 · 6 novo tarifaço (16/7) · 7 telefonema de 21/8, o primeiro depois de meses de crise · 8 Lula na ONU (22/9)
Fonte: painel Eleições 2026, 82.627 matérias de imprensa sobre a eleição (com ao menos um dos 13 candidatos verificado), 25 de março a 27 de setembro de 2026, lidas em 29/09/2026. Trump no título: o nome no título da matéria. Interferência: título com "interferência", "interferir" ou "ingerência" e contexto externo, lido um a um (246 sobre o Brasil, negações incluídas). Método.
A onda tem picos com nome. Os três maiores são da pré-campanha: a semana de 4 de maio, a da visita de Lula à Casa Branca; a de 25 de maio, com Flávio na Casa Branca e a classificação do PCC e do CV como terroristas pelos EUA (388 de 2.597 matérias, 14,9%); e a de 1º de junho, a da nova ameaça de tarifas (309 de 2.432, 12,7%). Fora desses três, nenhuma semana da pré-campanha chegou a 10% das matérias. Na campanha, nenhuma passou de 3,2%, marca da semana do telefonema de 21 de agosto, o primeiro depois de meses de crise, e da semana da ONU. A queda não vem da coleta. Em 10 de agosto, o painel passou a buscar todos os candidatos na mesma rede de fontes, o que mudou a mistura de veículos; contando só os 69 veículos presentes antes e depois dessa data (82,2% das matérias), Trump esteve no título de 6,0% das matérias da pré-campanha e de 2,2% das da campanha.
Mais manchetes que nove candidatos
Na pré-campanha, só quatro candidatos estiveram em mais manchetes da eleição que Trump; na campanha oficial, seis
Matérias da eleição com o nome no título, em cada período. Para os candidatos, só conta a matéria em que o nome dele foi verificado. Cada painel tem a sua escala e a sua ordem; Lula e Flávio Bolsonaro ficam fora dela, com o número escrito no topo.
Donald Trumpcandidatos
Fonte: painel Eleições 2026, 82.627 matérias de imprensa sobre a eleição (com ao menos um dos 13 candidatos verificado), 25 de março a 27 de setembro de 2026, lidas em 29/09/2026. Nome no título: Lula; Flávio (sem Flávio Dino); Renan (sem Calheiros e Filho); os demais pelo sobrenome ou prenome com que a imprensa os chama. Método.
Na pré-campanha, Trump ficou em quinto na conta do nome no título: atrás de Lula, Flávio, Caiado e Zema, à frente de Renan Santos (1.572), Augusto Cury (653) e dos sete candidatos menos cobertos, nenhum deles com 200 títulos. Na campanha, caiu para sétimo, com 514: abaixo dos seis mais cobertos e acima dos sete menores.
Quem leu a peça 11 viu outro ranking. Ali contamos pelo corpo da matéria, de 10 de agosto a 24 de setembro, e Trump ficou abaixo de todos os candidatos, exceto Leonardo Avalanche, com 1.781 matérias. Na janela mais próxima, a da campanha, pelo título ele é o sétimo. As duas contas são verdadeiras ao mesmo tempo porque Trump é nome de título: pela 11, ele está no título de 30% das matérias que o citam. Os candidatos menores aparecem no corpo, em listas de candidatos e agendas, e pouco no título, de 4% a 12% das matérias que os citam.
Pela porta do governo
Trump entra na cobertura da eleição quase sempre como assunto de Lula, que está em 82,2% das manchetes de Trump na pré-campanha e em 89,1% das da campanha. Na pré-campanha, em 70,2% dessas manchetes (2.203 de 3.137) Lula é o único candidato da matéria; Flávio é o único em 16,8% (527) e os dois dividem 11,6% (364). Na campanha, a porta se estreita: Lula é o único candidato em 82,9% (426 de 514). É o presidente que negocia e viaja; Flávio entra pelo outro lado: a visita dele à Casa Branca, o tarifaço, o PCC e o CV.
O terreno de Lula
No eixo americano, a cobertura de Lula é mais favorável que fora dele; na campanha, a distância cai de 36 para 7 pontos quando se tiram as matérias em que ele fala
Saldo de tom (a fatia positiva menos a negativa, em pontos) dos pares matéria × candidato no eixo americano (Trump no título ou um episódio da relação com os EUA como acontecimento principal) e fora dele. Pré-campanha, 25/3 a 15/8; campanha oficial, 16/8 a 27/9. Quem fala na matéria só é medido de 10 de agosto em diante. À direita, os pares no eixo.
no eixo americanofora dele
Fonte: painel Eleições 2026, 113.729 pares matéria × candidato com tom, 82.627 matérias de imprensa sobre a eleição (com ao menos um dos 13 candidatos verificado), 25 de março a 27 de setembro de 2026, lidas em 29/09/2026. Tom do par pela régua do painel ("positivo" é espaço sem contraponto, não endosso; a fala do candidato conta a favor dele). Método.
No tom, o eixo americano foi mais favorável a Lula que o resto da cobertura. Medimos pelo saldo, a fatia de pares positivos menos a negativa, em pontos, e lembramos o que "positivo" quer dizer aqui: ganho de espaço sem contraponto, o declaratório de quem fala e é ouvido, não elogio. Na pré-campanha, os 4.918 pares de Lula no eixo tiveram 32,6% positivos e 14,8% negativos, saldo +17,8; fora dele (28.923 pares), 18,5% e 18,0%, saldo +0,5. Na campanha, +32,1 (614 pares; 40,4% positivos, 8,3% negativos) contra −3,9 (14.521). A direção não depende de como se desenha o eixo: na pré-campanha, só com Trump no título, +26,3 contra +1,1; só com o acontecimento, +15,5 contra +1,2. O saldo de Lula foi positivo em seis dos sete episódios, entre eles o tarifaço (+17,8, 3.665 pares) e a ofensiva contra as urnas (+38,7, 168); o único negativo foi a designação do PCC e do CV como terroristas, −10,5, com 28,6% de negativos em 458 pares, o episódio que, segundo o resumo da semana de 25 a 31 de maio, a imprensa leu como derrota diplomática do governo.
Na campanha, onde o painel já mede quem fala (a medição começa em 10 de agosto), aparece o porquê: no eixo, Lula fala em 61,6% dos pares; fora dele, em 21,8%. Tirando os pares em que ele fala (o degrau de cima da escada de voz), o saldo no eixo é −7,2 (236 pares) e fora dele −14,3 (11.356): a distância cai de 36 para 7 pontos. Na campanha, o eixo é bom para Lula sobretudo porque é onde a imprensa o põe para falar; a peça 6 mostrou que ele fala em uma de cada cinco matérias que o citam, e no eixo fala em três de cada cinco. Antes de 10 de agosto não temos a voz medida, e não estendemos o mecanismo à pré-campanha como fato. O que dá para dizer da pré-campanha é que a vantagem não vem da mistura de rótulos do espectro: em cada um dos quatro, da esquerda (+36,6 contra +26,7) à extrema-direita (+6,1 contra −36,8, em 82 pares), Lula sai melhor no eixo.
Para Flávio, o eixo não foi abrigo na campanha
Para Flávio, depende de como se desenha o eixo. Pelo eixo inteiro, na pré-campanha, ele foi tão negativo quanto o resto: saldo −16,1 (2.289 pares; 25,8% positivos, 41,9% negativos) contra −14,8 fora dele (22.182; 18,5% e 33,3%). Só com Trump no título, menos negativo: −9,9 (894 pares) contra −15,1. O que puxa o eixo inteiro para baixo é o episódio da ofensiva contra as urnas, que na cobertura de Flávio é sobretudo a reunião com embaixadores de 21 de julho, em que, segundo as manchetes, ele atacou as urnas e pediu "observadores" para a eleição: 76,6% de pares negativos e 4,2% positivos em 239, saldo −72,4. Na campanha, o eixo inteiro foi pior que o resto: −31,8 (107 pares; 14,0% e 45,8%) contra −5,2 (9.478); a base é pequena, e cada matéria pesa. O tarifaço, tema do resumo da semana de 13 a 19 de julho (o do "Tariflávio"), deu −13,4 (1.250 pares; 41,2% negativos). O único episódio positivo para Flávio foi o que ele comemorou, a designação do PCC e do CV ("Grande dia", 28 de maio): +8,1 em 358 pares, o mesmo episódio que foi o único negativo de Lula. Na campanha, terceiros falam dele em 40,2% dos pares e ele mesmo em 38,3%, quase empate, e sem a fala dele o saldo vai a −57,6 (66 pares), contra −12,3 fora (7.021 pares).
A interferência ficou
Trump encolheu na manchete, e as manchetes sobre interferência ficaram. Lemos, um a um, os 255 títulos da base com "interferência", "interferir" ou "ingerência" e contexto externo: 246 falam de interferência no Brasil, e 202 dos 255 nomeiam os EUA, Trump ou Rubio. Em números absolutos, o ritmo não mudou até a semana da ONU: cerca de sete títulos por semana na pré-campanha (138 em 20,6 semanas), o mesmo nas cinco primeiras semanas da campanha (36), e 72 na semana de 21 a 27 de setembro, a do discurso de Lula na ONU e das ações da campanha dele e de Renan Santos no TSE e no STF. São poucos títulos diante da base (138 em 56.708 matérias na pré-campanha; 108 em 25.919 na campanha), e a última semana responde por dois terços dos da campanha (72 de 108).
Quem fala de interferência na manchete é sobretudo o lado de Lula: o presidente, o governo, o PT ou aliados em 154 dos 246 títulos (62,6%); a imprensa, analistas ou a sociedade civil em 34 (13,8%); Renan Santos em 22 (8,9%), todos na última semana; vozes de fora do país em 19 (7,7%); pesquisas em 6; outros candidatos em 4; Lula e Renan juntos em 1. Seis títulos, de imprensa e analistas, põem o temor em dúvida, entre eles "Interferência dos EUA é ameaça ou discurso eleitoral?" (CNN Brasil, 24 de setembro) e "Ação no TSE não traz indício de interferência dos EUA pró-Flávio" (Charleaux, UOL, 24 de setembro); e parte das manchetes do lado de Lula é negação, como "Lula diz não temer interferência de Trump nas eleições" (Poder360, 14 de abril).
A voz de Lula mudou de tom ao longo do ano, e as manchetes contam a sequência. Depois da Casa Branca, em 8 de maio, "Lula fala de 'amor à primeira vista' com Trump e descarta interferência dele nas eleições" (BBC News Brasil). Depois do PCC e do CV, em 30 de maio, "Governo Lula vê interferência dos EUA nas eleições (…)" (BBC News Brasil). Em 30 de julho, "Lula diz que EUA 'vão tentar interferir nas eleições para ajudar o lado de lá'" (O Globo). Em 22 de setembro, "Na ONU, Lula critica ingerência externa nas eleições, sem mencionar EUA" (Folha); no dia seguinte, "Campanha de Lula aciona STF e TSE por possível interferência dos EUA nas eleições" (Folha).
Renan Santos entrou no fim: "Eu vejo risco de interferência de Trump nas eleições brasileiras" (UOL, 23 de setembro) e "Renan Santos aciona TSE por interferência estrangeira nas eleições em favor de Flávio Bolsonaro" (Estadão, 23 de setembro). Flávio falou de interferência uma vez, em 29 de março, para dizer que não a queria (RIC). Em 39 títulos a interferência aparece ligada a ele, quase sempre pedida, articulada ou a favor dele: 18 na voz do lado de Lula e 10 na de Renan. O que isto mede é quem a manchete põe para falar de interferência. "Temor" é a palavra de quem o expressou; não dizemos se houve interferência nem se o temor tem fundamento.
O que isto não diz
Não diz se houve interferência dos EUA na eleição, nem se Trump quer ou pode influir nela; não diz o que o eleitor pensa de Trump nem de quem se aproximou dele; e não diz nada sobre voto. Diz quanto Trump ocupou as manchetes da eleição, quando e ao lado de quem; com que tom a cobertura tratou Lula e Flávio quando o assunto eram os EUA; e quem a manchete pôs para falar de interferência. Cobertura não é voto.
Amanhã
Amanhã, a peça 16 troca os nomes pelos temas: clima, inteligência artificial e democracia, e quem tocou no assunto.
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Como este texto foi feito
Esta é a décima quinta resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, na janela de 25 de março a 27 de setembro de 2026, e todos foram conferidos antes da escrita. Trump na manchete é o nome dele no título da matéria; o corpo ficou fora da conta porque traz restos de página (listas de mais lidas, manchetes vizinhas). O episódio de cada matéria, o tom de cada candidato e quem fala na matéria vêm dos classificadores do painel (modelos DeepSeek); quem fala só é medido de 10 de agosto em diante. Os 255 títulos sobre interferência foram lidos um a um na sessão, para dizer quem fala de interferência na manchete. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.