Ontem, a peça 5 mostrou que o nome no título é de poucos. Hoje a pergunta é o que acontece debaixo dele: o candidato fala, falam dele, ou ninguém diz nada.
A pergunta de hoje supõe dois lugares na cobertura, o de quem fala e o de quem é falado. Fomos ao banco com ela e voltamos com três. O terceiro é o mais cheio, e o título do calendário não o previa.
A régua, antes dos números. Para cada matéria que cita um candidato, o painel registra uma de três situações, que chamamos de escada de voz. Ele fala: é sujeito de um verbo de dizer, está entre aspas ou é o entrevistado. Ele não fala, mas outra pessoa fala dele. Ou ninguém fala. Ação não é fala: comparecer a um ato, registrar candidatura, liderar pesquisa, nada disso conta. E o instituto que "diz" que alguém tem 40% também não conta como alguém falando dele. A janela é a de ontem com um dia a mais, de 10 de agosto a 18 de setembro: 40 dias, 23.300 matérias, 35.262 pares matéria × candidato, só de veículo de imprensa. O ranking é de doze. A chapa do PRTB, que trocou de titular no meio da janela, fica à parte.
Um número para situar o resto: em 57,1% desses pares, ninguém fala. Mais da metade do que se publica sobre os candidatos a presidente é pesquisa, agenda, registro, análise sem aspas. O candidato fala em 26,4%. Nos 16,5% que sobram, só um terceiro fala dele.
Quem tem a palavra
Quatro candidatos. Renan Santos fala em 45,5% das matérias que o citam; Ronaldo Caiado, em 43,6%; Zema, em 34,8%; Augusto Cury, em 33,8%. Depois vêm Flávio Bolsonaro, com 25,9%, e Lula, com 20,8%. E então os seis menos cobertos, que a peça de ontem já tinha posto juntos: Hertz Dias com 18%, Rui Costa Pimenta com 14,9%, Clariana Barão com 14,4%, Samara com 13,9%, Wilson Grassi com 11,5% e Edmilson Costa com 6,7%.
Quatro candidatos falam em mais de um terço das matérias que os citam. Lula, em uma de cada cinco
De cada 100 matérias que citam o candidato: em quantas ele fala, em quantas só um terceiro fala dele e em quantas ninguém fala. Doze candidatos a presidente, 10 de agosto a 18 de setembro de 2026.
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Fonte: painel Eleições 2026, pares matéria × candidato em veículos de imprensa, 10 de agosto a 18 de setembro de 2026 (a janela em que todos têm a mesma rede de coleta), lidos em 19/09/2026. Fala é declaração reproduzida, entre aspas ou não, e entrevista; ação, agenda e número de pesquisa não são fala. Quem fala e também é alvo conta como fala própria. A chapa do PRTB, que trocou de titular na janela, fica fora do ranking. Método.
Cuidado com a leitura apressada. Em número absoluto, quem mais fala na imprensa é Lula: são 2.736 matérias com uma declaração dele, contra 1.230 de Renan Santos. O que a escada mede é proporção. Os quatro de cima têm 27,5% do volume de cobertura e 41,3% das falas. Lula e Flávio têm 61,9% do volume e 53,5% das falas. Os seis, 10,6% do volume e 5,2% das falas.
Dito de outro modo: quando a imprensa escreve sobre Caiado, quase metade das vezes é para registrar o que ele disse. Quando escreve sobre Lula, quatro em cada cinco vezes é outra coisa.
Quem é assunto
Lula é o único dos doze para quem a matéria em que só um terceiro fala dele (24%) é mais comum do que a matéria em que ele fala (20,8%). E a escada ainda esconde uma parte disso, porque quem fala e também é alvo conta só como fala. Contando toda matéria em que alguém fala do candidato, tenha ele falado ou não, alguém fala de Lula em 28,2% e de Flávio em 26,8%. Para cada matéria em que Lula fala há 1,36 em que falam dele. Para Flávio, 1,04, o que é empate. Para Caiado, 0,25.
De Lula a imprensa fala mais do que o ouve. Dos seis menos cobertos, quase ninguém fala
Em quantas das matérias que citam o candidato ele fala, e em quantas outra pessoa fala dele, em % do total de cada um, 10 de agosto a 18 de setembro de 2026.
matérias em que o candidato falamatérias em que alguém fala dele
Fonte: painel Eleições 2026, pares matéria × candidato em veículos de imprensa, 10 de agosto a 18 de setembro de 2026 (a janela em que todos têm a mesma rede de coleta), lidos em 19/09/2026. Aqui as duas medidas não se excluem: a matéria em que o candidato fala e também é alvo entra nas duas. Instituto de pesquisa, órgão e documento não contam como alguém que fala. Método.
Quem fala de Lula? Em pelo menos um terço das vezes, outro candidato: Flávio em 574 matérias, Renan Santos em 248, Caiado em 238, Cury em 107, Zema em 73. A contagem é piso, porque o painel guarda um nome por matéria, o de quem mais fala. Fora da disputa, os nomes mais frequentes são os de Davi Alcolumbre, Gilberto Kassab, Edinho Silva, Dario Durigan, Donald Trump, Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas.
A via é de mão única. Outros candidatos falam de Lula em ao menos 1.251 matérias. Lula fala de outro candidato em 229, e em 193 delas o outro é Flávio. Parte da voz dos quatro é feita disso: falar dos dois de cima rende declaração publicada. Os dois de cima quase não devolvem. Somados, Lula e Flávio são o alvo de 81,8% de todas as vezes em que alguém fala de um candidato.
Uma hipótese, que não medimos: Lula é presidente, e boa parte das 13.157 matérias que o citam trata de governo, de pesquisa e do que os adversários dizem dele. Isso explicaria a proporção baixa sem que ele fale pouco.
Quem não é nem uma coisa nem outra
Os seis. Em 81% a 93% das matérias que os citam, ninguém fala. E quase ninguém fala deles. Hertz Dias é alvo da fala de alguém em 3 matérias de 605. Clariana Barão, em 9 de 569. Samara, em 10 de 518. Pimenta, em 14 de 711, e a maior parte é nota do próprio partido. Edmilson Costa, em nenhuma de 745. No que o painel registrou em quarenta dias, nenhum candidato falou de nenhum dos seis, com uma exceção: Cury falou de Clariana Barão, uma vez.
Wilson Grassi parece fugir à regra, com 47 matérias em que alguém fala dele. Em 42, esse alguém é o ministro Dias Toffoli, do TSE, nas decisões que suspenderam a campanha do candidato. É a Justiça falando. O mesmo episódio responde por mais de cem das 485 matérias em que alguém fala de Renan Santos.
A matéria-lista de ontem explica uma parte do silêncio. No texto que enfileira cinco nomes ou mais quase ninguém fala, e ele é quase metade da cobertura dos seis. Fora das listas, os seis falam em 22% das matérias, perto dos 24,1% de Lula e Flávio. Os quatro, em 50%. O que a lista não explica é o outro lado: fora dela, alguém fala de Lula ou de Flávio em 29,2% das matérias; dos seis, em 4%. Hertz Dias propõe o fim da escala 6×1, a Agência Brasil registra, outros sites republicam, e ninguém responde.
Há também o calendário. Lula, Flávio, Renan Santos, Caiado e Zema falaram na imprensa em todos os 40 dias, e Cury deixou de falar em 3. Grassi e Edmilson Costa passaram 22 dias sem uma declaração publicada; Samara, 17; Pimenta, 14; Clariana Barão, 11; Hertz Dias, 8.
No título
Ontem o gancho prometia subir um degrau: entre os que chegam ao título, quem fala? Com o nome no título, Caiado fala em 64,7% das matérias, Zema em 63% e Renan Santos em 62,2%. Depois há um vão de quase vinte pontos até Cury, com 42,6%. Flávio fala em 30,4% dos títulos que levam o nome dele. Lula, em 24,6%.
Com o nome no título, Caiado, Zema e Renan falam em quase duas de cada três matérias. Lula, em uma de cada quatro
Só as matérias que trazem no título o nome pelo qual o candidato é conhecido: em quantas delas ele fala, em %, 10 de agosto a 18 de setembro de 2026.
Fonte: painel Eleições 2026, pares matéria × candidato em veículos de imprensa, 10 de agosto a 18 de setembro de 2026 (a janela em que todos têm a mesma rede de coleta), lidos em 19/09/2026. À direita, quantas matérias de cada um têm o nome no título; para os seis menos cobertos são menos de 200, e a conta oscila mais. Método.
Os seis ficam misturados a Lula e Flávio nessa fila, entre 17,5% e 33,9%: quando chegam ao título, falam tanto quanto os dois. Só que chegam pouco. São de 136 a 194 títulos para cada um em quarenta dias, contra 10.319 de Lula, e com tão poucos a conta oscila. Já o título de Lula é, três em cada quatro vezes, sobre algo que fizeram, mediram ou disseram a respeito dele.
O que falar rende
Cruzamos a escada com o tom. Quando o candidato fala, a matéria é positiva para ele em 50,1% dos casos e negativa em 14,3%. Quando só falam dele, é positiva em 14,8% e negativa em 38,6%. Quando ninguém fala, é neutra em 88,7%.
Isto pede uma ressalva, e ela é nossa. Não é descoberta independente. A régua de tom do painel já parte do declaratório: a matéria que reproduz a fala de um candidato sem apurar nem confrontar sai a favor de quem fala, e é assim que a classificamos. As duas leituras são feitas em separado, mas uma antecipa a outra. O que o cruzamento acrescenta é o tamanho da diferença. E uma exceção: Flávio é o candidato cuja fala mais vezes sai negativa para ele mesmo, em 26,1% das matérias em que fala.
O que isto não diz
Não diz que os quatro falam mais porque a imprensa os prefere. Pode ser o caminho inverso: candidato que precisa ser conhecido dá entrevista, vai a sabatina, comenta o que os líderes fazem, e tudo isso vira fala publicada. Não medimos de quem é a iniciativa. Também não mede o espaço da fala, só se ela existe: uma frase entre aspas e uma entrevista de página inteira contam o mesmo. O classificador lê o título, a descrição e os primeiros 2.000 caracteres do texto; a declaração que só aparece depois disso fica de fora, para todos por igual. E conferimos a leitura em republicações da mesma matéria em sites diferentes: em 93,7% dos casos o degrau é o mesmo, o que deixa as distâncias desta peça bem acima do ruído.
O que fica é o desenho. Na cobertura desta eleição há quem fale, há quem seja falado, e há seis candidatos sobre os quais a imprensa escreve sem ouvir e sem que ninguém comente. Deles se sabe o nome, o partido e o percentual.
Amanhã
Amanhã, a peça 7 fica com quem está no alto desta escada e pergunta o que acontece quando a fala reproduzida é a defesa de matar.
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Como este texto foi feito
Esta é a sexta resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, na janela de 10 de agosto a 18 de setembro de 2026, e todos foram conferidos antes da escrita. Quem fala em cada matéria é lido por um modelo de linguagem, com a mesma regra para todos; uma amostra de 40 leituras foi conferida à mão nesta apuração, e 36 ficaram sem reparo. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.