Ontem, a peça 15 mediu Trump, um nome que não está em nenhuma chapa. Hoje trocamos os nomes pelos temas, clima, inteligência artificial e bioeconomia, com a democracia de passagem: quem aparece falando deles na campanha e quem foi cobrado por eles.
Na campanha oficial, de 16 de agosto a 27 de setembro, o clima teve dois dias na cobertura da eleição: o de uma resposta de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional e o do discurso de Lula na ONU. A inteligência artificial teve propostas; a bioeconomia quase não entrou. O tamanho das três já saiu na peça 13, até 26 de setembro; com o dia 27, elas estão em 930 das 25.931 matérias da campanha (3,6%; uma matéria pode ter mais de uma agenda), e a democracia, em 3.668 (14,1%). Em 289 dessas 930 matérias, um candidato aparece falando do assunto. O dia seguinte à sabatina, 29 de agosto, concentrou 35 das 206 matérias de clima da campanha (17,0%); o da ONU, 22 de setembro, 32. A IA teve um vídeo, antes da campanha: Jair Bolsonaro recriado por inteligência artificial e exibido na convenção do PL, em 25 de julho; com os vídeos parecidos, o episódio reúne 345 matérias desde 17 de julho, 68 delas na campanha, e em setembro o TSE rejeitou, por 4 votos a 3, multar a campanha de Flávio. A bioeconomia teve 98 matérias, 17 com um candidato falando dela, e as seis em que fala Renan Santos são sobre a ação do Ministério Público Federal por ofensas a indígenas. Quem falou do assunto sem um conflito para puxar foi, sobretudo, o presidente, no clima, e Augusto Cury e Ronaldo Caiado, na IA.
Primeiro, a régua. A base é a matéria da eleição: 82.639 textos de 1.987 veículos, de 25 de março a 27 de setembro, cada um com ao menos um par matéria × candidato verificado de um dos treze candidatos. Como Lula é presidente e candidato, a base inclui a cobertura do governo. A agenda vem da classificação de agendas do painel, e o rótulo é da matéria, não do candidato. Quem falou vem da medição de quem fala, que só existe de 10 de agosto em diante; por isso tudo sobre quem falou é da campanha. O cruzamento sozinho engana, porque a agenda é da matéria, não da fala: Lula e Flávio "tocam" em tudo porque estão em tudo, e um candidato pode falar de outra coisa numa matéria de clima. Na véspera da ONU, por exemplo, a CNN Brasil anunciou que Lula citaria a COP30, e a fala dele na matéria era sobre pedir aos Estados Unidos que não interferissem na eleição (20/09). Então lemos, uma a uma, as 536 vezes em que um candidato aparece falando numa matéria de clima, IA ou bioeconomia, com o título e os trechos da fala e do tema, e marcamos se a fala era sobre o assunto: em 307, era. A mesma matéria conta uma vez para cada candidato que fala nela e para cada agenda que tem. Texto do plano de governo citado sem fala do candidato, e fala de analista sobre o plano, não contam. "Cobrado" é a matéria de tom negativo para o candidato, com ou sem crítica da imprensa (verbete sentimento), comparada com o tom dele fora das quatro agendas; só damos percentual com 30 casos ou mais, e lemos as 186 negativas das três agendas para saber quem cobra.
Quem aparece falando, e de quê
De clima, quem mais fala é o presidente; de IA, Augusto Cury; de bioeconomia, quase ninguém
Matérias da campanha (16/08 a 27/09) em que o candidato aparece falando do assunto, lidas uma a uma. Escala comum aos três painéis.
fala de candidatofala do presidente (Lula)
Painel Eleições 2026: matérias de imprensa sobre a eleição com ao menos um dos 13 candidatos verificado, com a agenda classificada pelo painel e a passada de quem fala; campanha de 16 de agosto a 27 de setembro de 2026. Lemos as 536 vezes em que um candidato aparece falando numa matéria de clima, IA ou bioeconomia (30/09/2026); a barra conta só as matérias em que a fala é sobre o assunto. Método.
Das 206 matérias de clima da campanha, 82 (39,8%) têm um candidato falando do assunto; das 689 de IA, 200 (29,0%); das 98 de bioeconomia, 17 (17,3%). Seis candidatos não aparecem falando de clima em nenhuma das 206 matérias de clima da campanha: Clariana Barão, Edmilson Costa, Leonardo Avalanche, Rui Costa Pimenta, Samara Martins e Wilson Grassi. O que medimos é a cobertura coletada: "não aparece falando" quer dizer que a imprensa da nossa base não registrou, não que o candidato se calou num comício sem repórter.
O clima teve dois dias
O clima e a IA entraram na campanha aos saltos: duas sabatinas e a ONU
Matérias da eleição por dia com a agenda, de 16/08 a 27/09. Escala comum aos dois painéis.
1 29/08, dia seguinte à sabatina de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional (35 matérias de clima) · 2 22/09, Lula abre a Assembleia-Geral da ONU (32) · 3 30/08, dia seguinte à sabatina de Augusto Cury no Jornal Nacional (59 matérias de IA) · 4 22/09, a ONU de novo: big techs e IA no discurso de Lula (51)
Painel Eleições 2026: matérias de imprensa sobre a eleição com ao menos um dos 13 candidatos verificado, com a agenda classificada pelo painel e a passada de quem fala; campanha de 16 de agosto a 27 de setembro de 2026. Método.
Na sexta-feira, 28 de agosto, Flávio Bolsonaro foi sabatinado no Jornal Nacional. Perguntado pela entrevistadora sobre o aquecimento global, respondeu: "Não é sobre influência dos atos humanos". Disse que os eventos climáticos são "cíclicos" e que a melhor forma de proteger o meio ambiente é "saneamento básico". A cobertura saiu no dia seguinte: 35 das 206 matérias de clima da campanha (17,0%) são de 29 de agosto. Os títulos enquadraram a resposta: "No JN, Flávio erra sobre 'Dark Horse' e nega aquecimento global" (UOL, 29/08). O segundo maior dia de clima foi 22 de setembro, o do discurso de Lula na ONU, com 32 matérias ("Lula na ONU: é hora de impor uma derrota ao negacionismo", InfoMoney, 22/09).
Flávio aparece falando de clima em 26 matérias da campanha, e 21 são a resposta do JN. As outras cinco são o licenciamento: "destravar amarras ambientais" (UOL, 29/08), os resorts na Costa Verde, os atos a revogar. Lula aparece falando de clima em 44, em dois papéis. Em 32 ele fala como presidente: o discurso na ONU (20), o encontro com Leonardo DiCaprio (5), as reservas no Amazonas. Como candidato, em 12; e 11 dessas são a resposta a Flávio: "Lula rebate Flávio sobre mudanças climáticas: 'Amadorismo irresponsável'" (Metrópoles, 29/08). Fora isso, sobra pouco: Renan Santos aparece em 7, Romeu Zema em 5, Augusto Cury em 4, Ronaldo Caiado e Hertz Dias em 2.
Três dos seis, Edmilson Costa, Samara Martins e Wilson Grassi, têm propostas concretas de clima no plano de governo (peça 13); os outros três não têm parágrafo de clima no plano. São réguas diferentes: o plano é o texto entregue ao TSE; a fala é o que a imprensa coletada registrou. As duas coisas não andam juntas, e é só isso que o cruzamento diz.
A IA teve um vídeo, e teve propostas
O maior episódio de inteligência artificial da eleição não foi proposta. Os vídeos do PL com Jair Bolsonaro recriado por IA, entre eles o exibido na convenção do partido em 25 de julho, reúnem 345 matérias desde 17 de julho, 277 delas antes da campanha; as 320 que o painel classifica como IA são 18,0% de toda a cobertura de IA desde março (1.777 matérias). Contamos o episódio por matérias, pelo acontecimento rotulado no painel, não por quem fala. O TSE julgou o caso em 1º e 2 de setembro: rejeitou multar a campanha de Flávio, por 4 votos a 3, e definiu critérios para deepfake ("Por 4 votos a 3, TSE rejeita punir Flávio por IA de Bolsonaro", Valor, 02/09).
Quem mais aparece falando de IA na campanha é Augusto Cury, em 73 matérias, todas de proposta: um ministério ou secretaria de IA (34), os algoritmos das redes, com a auditoria da Meta (12), as big techs (7), trocar servidores públicos por IA (6). A sabatina dele no JN foi no sábado, 29 de agosto, e o domingo teve 59 matérias de IA, o maior dia da campanha para o tema. Lula vem em seguida, com 65: o discurso na ONU (22), os atos de campanha (19: "queremos inteligência artificial em português", Jornal de Brasília, 05/09), o supercomputador e o pacote de IA do governo (10) e os "indícios de interferência" com IA citados em Nova York (8). Caiado aparece em 28, 27 delas de proposta. Zema aparece em 14, e 12 são os vídeos, jingles e músicas que ele fez com IA ("Em jingle com IA, Zema critica Lula e coloca ministros do STF na prisão", UOL, 22/08).
No papel, a conta é outra: o plano com a maior fatia de IA entre os treze é o de Flávio, 10,1% dos parágrafos com tema (peça 13), e ele aparece falando do assunto em 11 matérias, 9 de proposta; Cury dá ao tema 3,0% dos parágrafos com tema e fala dele em 73. Cinco candidatos não aparecem falando de IA em nenhuma das 689 matérias de IA da campanha.
A bioeconomia quase não entrou
Na campanha, 98 matérias de bioeconomia, e em 17 um candidato aparece falando do assunto. Lula, em 8, todas como presidente: as unidades de conservação no Amazonas (Folha, 08/09), o fundo para florestas, a ONU, a crise dos yanomamis. Renan Santos, em 6, todas o mesmo episódio: o Ministério Público Federal o processou por ofensas a indígenas que protestavam contra a desestatização de rios no Pará ("MPF processa Renan Santos e MBL por ofensas a indígenas e pede R$ 500 mil de indenização", Folha, 19/08). É uma ação, não uma condenação. O plano de Renan é o de maior fatia de bioeconomia entre os treze (8,7%, peça 13); nas matérias de bioeconomia da campanha, a fala dele que aparece é a do episódio do MPF. São réguas diferentes. Flávio aparece em 2 e Wilson Grassi em 1; nove candidatos, em nenhuma.
Quem foi cobrado
Nas matérias de clima com Flávio, mais da metade foi negativa para ele; nas com Lula, 5,7%
Fatia de matérias de tom negativo para o candidato na agenda (dourado) e fora das quatro agendas (clima, IA, bioeconomia e democracia), na campanha de 16/08 a 27/09. Só as combinações com 30 pares ou mais na agenda.
fora das quatro agendasna agenda
Quem cobrou, nas matérias negativas sobre o assunto: Flávio no clima, o adversário (11: Lula e Marina Silva), a imprensa (11: a pergunta do Jornal Nacional, checagens, comentaristas) e especialistas (2); Zema na IA, a Justiça Eleitoral (10). Painel Eleições 2026: matérias de imprensa sobre a eleição com ao menos um dos 13 candidatos verificado, com a agenda classificada pelo painel e a passada de quem fala; campanha de 16 de agosto a 27 de setembro de 2026; tom pela régua do painel ("negativo" é a matéria desfavorável ao candidato). Método.
Entre as três agendas, a maior distância é a de Flávio no clima: das 59 matérias de clima em que ele aparece, 31 (52,5%) foram negativas para ele, contra 19,4% fora das quatro agendas (1.550 de 7.976). Ela nasce de um dia: 20 das 31 negativas são de 29 de agosto. Lemos as 31. Em 24 o assunto é o clima, e quem cobra se divide ao meio: adversários em 11 (Lula em 9, Marina Silva em 2) e a imprensa em 11; mais 2 especialistas. Na imprensa, vai da pergunta da entrevistadora do JN às checagens da Lupa e do Aos Fatos e aos comentaristas ("Na GloboNews, Flávio Bolsonaro é chamado de 'negacionista' após sabatina no JN", Diário do Centro do Mundo, 29/08). "Negacionista" é palavra dos títulos e dos adversários; as palavras de Flávio são as que citamos acima.
A segunda distância é a de Zema na IA: 23,5% de negativas (12 de 51) contra 6,3% fora (113 de 1.805). Das 12, 11 são sobre IA, e 10 vêm da Justiça Eleitoral: em 23 de setembro, Nunes Marques, presidente do TSE, mandou apagar o vídeo em que Lula e ministros do STF aparecem presos ("TSE determina que Zema apague vídeo que mostra Lula e ministros do STF como presidiários", O Tempo, 23/09). A ordem diz que o vídeo "ultrapassa a crítica política"; Zema a chamou de "censura contra uma sátira". Flávio na IA fica perto do próprio tom fora das quatro agendas: 25,0% de negativas (59 de 236) contra 19,4%. A peça 14 mediu a cobrança pelo gênero; aqui, pelo autor. Das 109 negativas que são sobre o assunto, 38 vêm da imprensa, 32 do Judiciário e do Ministério Público Federal (a maior parte, do TSE), 29 de adversários e 10 de especialistas; em 8, Lula é o alvo de peças feitas com IA (sete de Zema e um deepfake atribuído a Milei), não o cobrado.
Para Lula, o clima é a agenda com a menor fatia de negativas, 5,7% (8 de 141), contra 17,0% fora das quatro agendas (2.203 de 12.996); as positivas são 35,5% (50 de 141), contra 14,0% fora. Das 8 negativas, só 2 são sobre o clima. Não é elogio. "Positivo" é espaço sem contraponto, o declaratório de quem fala e é ouvido; a peça 6 mediu quem tem a palavra. No clima, Lula fala, e fala como presidente: na ONU, no Planalto, nos decretos. A cobertura do governo entra na base, e no clima ela é a maior parte da fala de Lula: 32 das 44 matérias.
A democracia é outra conversa
A democracia, na campanha, é grande e trata de outra coisa. São 3.668 matérias, e nas semanas de 31 de agosto e de 7 de setembro ela esteve em um quarto de todas as matérias da eleição: 25,1% (1.113 de 4.428) e 26,7% (985 de 3.685). O que a encheu foi a crise do STF e da PF: 1.290 matérias da agenda (35,2%) são os acontecimentos dessa crise, da briga entre Moraes e Mendonça ao afastamento de Andrei Rodrigues; numa amostra de 40 matérias da agenda, lidas uma a uma, 27 são essa crise. Não vamos aprofundar: a crise do STF é o assunto da extra de 3 de outubro. As negativas de Renan Santos na democracia (27,9%, 143 de 513) e as de Wilson Grassi (60,7%, 51 de 84) vêm quase todas de um episódio. Das 143 de Renan, 130 caem no episódio da suspensão da campanha digital dos dois, e das 51 de Grassi, 49: Dias Toffoli, no TSE, tirou de pauta o registro de Renan ao apontar "indícios de ilicitude" (G1, 30/08), suspendeu a campanha digital dos dois em 31 de agosto e a liberou nos dias seguintes. É uma decisão da Justiça Eleitoral sobre a campanha, que o painel classifica como democracia.
O que isto não diz
Não diz o que os candidatos disseram fora da imprensa coletada. Não mede a qualidade das propostas, assunto da peça 13, nem diz se o aquecimento global é ou não causado pela ação humana: registra quem disse o quê e como a cobertura tratou. E não diz nada sobre voto. Cobertura não é voto.
Amanhã
Amanhã, a peça 17 muda de escala: "Os doze assuntos que engoliram a campanha".
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Como este texto foi feito
Esta é a décima sexta resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, na janela de 25 de março a 27 de setembro de 2026, e todos foram conferidos antes da escrita. As agendas (clima, inteligência artificial, bioeconomia e democracia), o tom de cada candidato e quem fala na matéria vêm dos classificadores do painel (modelos DeepSeek); quem fala só é medido de 10 de agosto em diante. As 536 vezes em que, na campanha, um candidato aparece falando numa matéria de clima, IA ou bioeconomia foram lidas uma a uma na sessão, para dizer se a fala era sobre o assunto (em 307, era); as 186 matérias de tom negativo dessas agendas também, para dizer quem cobrou; e 40 matérias de democracia, sorteadas, para dizer o que enche essa agenda. A fatia de cada tema nos planos de governo vem da peça 13. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.