Ontem, a peça 9 mostrou que uma matéria em dez é a mesma manchete publicada em mais de um veículo, e que os despachos da Agência Brasil chegam a dezenas de portais dos estados. Hoje a pergunta é sobre esses portais e sobre todos os outros: de onde, afinal, o Brasil escreve sobre a eleição?
A resposta curta é: de três lugares. Sete em cada dez matérias do acervo saem de redações em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. Não porque só lá se escreva, mas porque é lá que fica quase toda a imprensa nacional, e a imprensa nacional é 70% do que o painel lê. O resto do país escreve, e escreve de um jeito próprio. Fora da imprensa nacional, a dos estados tem três marcas. Os veículos regionais e locais do Nordeste publicam mais matérias sobre a eleição que os do Sudeste. Alguns estados cobrem mais o candidato nascido lá: Goiás, Caiado; Minas, Zema. E os candidatos que a imprensa nacional cobre menos ganham na imprensa dos estados quase metade da cobertura que têm.
Primeiro, a régua. Cada um dos 2.039 veículos do acervo tem um perfil com três campos: a UF da sede, o alcance (nacional, regional, local ou internacional) e o tipo. Sede é onde fica a redação que escreveu a matéria, não onde o veículo é lido.
O alcance diz para quem o veículo escreve. Nacional é o veículo que cobre o país e é lido no país inteiro: a Folha, o g1, a CNN Brasil, o Poder360, a Agência Brasil. Regional é o que cobre um estado, em geral a partir da capital: A Tarde, na Bahia; o Estado de Minas; o ND+, em Santa Catarina; o Jornal do Commercio, no Recife; a Rádio Itatiaia. Local é o que cobre uma cidade ou uma microrregião: o Região Noroeste, no interior paulista; o Ponta Porã Informa, em Mato Grosso do Sul; o Informe Blumenau; o Ubiratã Online, no Paraná. Internacional é o veículo estrangeiro: o Infobae, a Reuters, o La Nación, a Deutsche Welle, a rede Pravda em português. A redação brasileira de um grupo estrangeiro conta como nacional (a BBC News Brasil, em São Paulo), e o veículo brasileiro em outra língua também (o The Rio Times). Fora dessa régua ficam 110 agregadores, sites que republicam sem redação (o Notícias do Brasil, com 2.887 matérias), e 212 veículos pequenos sem alcance no perfil, 0,3% do acervo.
Com essa régua, separamos duas imprensas. A nacional são 302 veículos, e entra na conta pela UF da sede. A dos estados são os veículos de alcance regional ou local, e é ela que responde à pergunta do título.
O g1 pede uma exceção. É um veículo nacional com sede no Rio, mas as edições dos estados (g1 São Paulo, g1 Ceará, g1 Amapá) são feitas por afiliadas e sucursais da Globo. No acervo, 602 das 3.523 matérias do g1 vêm dessas 27 edições, e elas contam no estado da edição, como imprensa estadual. Nenhum outro veículo em rede recebe esse tratamento pela URL, porque o g1 é o único cuja rede de redações locais conhecemos; uma seção regional na URL de outro portal não prova que exista uma redação por trás da seção, e a matéria fica na sede. Há uma segunda porta, sem URL: o Jornal Opção Tocantins, edição do jornal de Goiânia com equipe própria e perfil revisado, conta no Tocantins, com 13 matérias. Com isso, a imprensa dos estados soma 1.138 unidades: 1.110 veículos, as 27 edições do g1 e a do Tocantins.
Falta a ressalva que o plano desta série trazia desde o início: para a maioria dos veículos, a sede foi proposta pela máquina, não revisada. Hoje essa ressalva vale para menos matérias do que parecia. Os 255 veículos com perfil revisado por uma pessoa fazem 66% das matérias. Os 31 veículos cuja sede completamos à mão nesta apuração, os maiores que tinham a classificação de espectro editorial mas não tinham sede no perfil (Metrópoles, Estado de Minas, Jovem Pan, R7, Agência Brasil, UOL, Folha), fazem outros 21%. Há ainda os 1.038 veículos com sede proposta pela máquina e não conferida, 5% das matérias, e 716 veículos sem sede no perfil, internacionais e agregadores, 6%. Nos 25 maiores veículos com sede proposta, em 22 a UF bate com o que se sabe do veículo; três não deu para julgar. Os 801 veículos que têm uma matéria só não foram conferidos.
Sete em dez, de três lugares
A imprensa nacional são 302 veículos e 59.250 matérias, 70% do acervo. São Paulo sedia 108 desses veículos, e eles publicam 63% dessas matérias: a Folha, a CNN Brasil, a Veja, o UOL, o Diário do Centro do Mundo, a Jovem Pan, a BBC News Brasil. Brasília sedia 27 veículos, com 19,6% das matérias, porque três deles são grandes: Poder360, Metrópoles e Correio Braziliense, seguidos de Diário do Poder, Platô, Congresso em Foco e Agência Brasil. O Rio sedia mais veículos, 29, mas com menos matérias, 11,9%: o g1 nacional, O Globo e O Cafezinho fazem quase tudo, e os outros 26 são pequenos. O quarto lugar é Curitiba, com a Gazeta do Povo e 4,3%. Depois disso, nada: fora essas quatro cidades não há, no acervo, imprensa nacional que conte. Somando tudo que tem sede em São Paulo, no Distrito Federal e no Rio, nacional, regional e local, são 59.963 matérias, 70,8% do acervo. O Distrito Federal, com 1,4% da população, sedia 16% das matérias.
A concentração não é só de lugar. Das 2.067 unidades do acervo, 72 têm cem matérias ou mais e fazem 85% do acervo; 1.507, quase três em quatro, têm até cinco; 801 têm uma só. Os "2 mil veículos" que a série vem repetindo são verdade, mas uma verdade de cauda longa: quatro em dez são um portal que a busca achou uma vez e que não voltou a aparecer.
Onde a imprensa regional e local mais escreve sobre a eleição, por 100 mil habitantes: Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Alagoas. São Paulo fica entre os últimos, porque a imprensa sediada lá é quase toda nacional
Matérias de veículos de alcance regional ou local, por 100 mil habitantes da UF da sede. 20.106 matérias de 1.138 veículos e edições de estado, 25 de março a 23 de setembro de 2026. População: IBGE, Censo 2022.
até 5 por 100 mil5 a 1010 a 2020 a 4040 ou maissem veículo no acervo
Fonte: painel Eleições 2026, 84.683 matérias de 2.039 veículos de imprensa, 25 de março a 23 de setembro de 2026, lidas em 24/09/2026. A sede é a UF da redação principal do veículo; as 27 edições de estado do g1, feitas por afiliadas e sucursais, e a edição Tocantins do Jornal Opção contam na UF da edição. 88% das matérias vêm de veículos com sede revisada; 5% vêm de veículos com sede proposta pela máquina e não revisada; 6%, de veículos sem sede no perfil (internacionais e agregadores). A taxa mede quanto a imprensa do estado escreveu, não quanto o estado lê; no DF, um veículo faz nove em dez matérias (Jornal de Brasília); em MS, mais da metade (Midiamax). Do Amapá só entrou o g1 Amapá, feito pela Rede Amazônica em Macapá, com duas matérias. Método.
A eleição vista dos estados
Aqui a régua é só a dos veículos regionais e locais; contando também a imprensa nacional pela sede, o Sudeste faz 58,0% do acervo, o Centro-Oeste 19,0%, o Nordeste 8,1%, o Sul 7,3% e o Norte 0,8%. A imprensa dos estados são 1.138 unidades e 20.106 matérias, 24% do acervo, e nela os veículos do Nordeste são os que mais escrevem: 6.664 matérias, 33,1% dessa imprensa, com 26,9% da população; os veículos regionais e locais do Sudeste somam 4.639, 23,1%. É essa a comparação: os jornais e portais regionais de uma região contra os da outra, com a imprensa nacional de fora. A Tarde, na Bahia, com 1.460 matérias, é o terceiro maior veículo estadual do país, atrás do Jornal de Brasília e do ND+; no Nordeste, vêm atrás dela o Agora RN, a Tribuna do Sertão, o Jornal do Commercio, o Imirante e a Folha de Pernambuco. A imprensa do Centro-Oeste escreve muito para o tamanho da região: 22,3% das matérias com 8% da população, por conta de Brasília (Jornal de Brasília, 1.704 matérias, 91% da imprensa estadual do DF), de Mato Grosso do Sul (Midiamax, A Crítica) e de Goiás (Jornal Opção). O Sudeste tem 41,8% da população para esses 23,1%; o Sul, 14,7% para 17,8%. O Norte tem 3,3%, 660 matérias em seis meses. Do Amapá, entrou uma unidade só, o g1 Amapá, feito pela Rede Amazônica em Macapá, com duas matérias: nenhum outro veículo amapaense está no acervo, e isso diz mais do alcance da nossa coleta do que da imprensa de lá.
Por 100 mil habitantes, a régua que corrige o tamanho, o Distrito Federal lidera com 66,6 matérias, seguido de Mato Grosso do Sul (44,7), Santa Catarina (26,5), Alagoas (25,2), Rio Grande do Norte (20,0) e Bahia (18,4). No fim da fila estão o Amapá (0,3), o Pará (1,8), Roraima (2,8), o Tocantins (3,2), Sergipe (3,3), o Espírito Santo (3,5), o Maranhão (4,7) e o Rio (5,6). E São Paulo, com 2,2. São Paulo sedia 108 veículos nacionais e 37.371 matérias; a imprensa paulista de alcance regional ou local, no acervo, são 93 unidades e 983 matérias, e a maior dessas unidades é uma edição de veículo nacional, o g1 São Paulo, com 231; a Tribuna de Jundiaí e o Diário do Grande ABC vêm atrás. A imprensa de São Paulo cobre a eleição como imprensa do Brasil; a imprensa regional e local paulista quase não aparece. O Rio é a mesma coisa em menor grau.
Duas ressalvas para o mapa. A taxa mede quanto a imprensa do estado escreveu sobre a eleição, não quanto o estado lê nem quantas redações tem: no Distrito Federal, um veículo faz nove em dez matérias; em Mato Grosso do Sul, mais da metade. E a rede de coleta é a mesma para todos os estados, mas veículo sem RSS entra menos; um estado pode aparecer pequeno porque a coleta alcança menos os veículos de lá.
A imprensa dos estados tem também outra cara editorial. Na nacional, 0,5% das matérias vêm de veículo sem posição declarada, aquele em que a classificação de espectro editorial não achou linha política documentável. Na dos estados, 27,1%: 882 das 1.138 unidades, 5.446 matérias. É a fatia que o plano da série chamava de "mil portais sem posição": são 1.098 veículos, oito em dez estaduais; em Alagoas, Rondônia, Paraíba, Mato Grosso e Acre eles passam de 70% da imprensa do estado, e em São Paulo são mais da metade. Esquerda e direita, que na imprensa nacional têm 15,3% e 15,6%, na dos estados têm 4% e 2%.
Quem é coberto de onde
É na imprensa dos estados que os candidatos menos cobertos ganham quase metade da cobertura que têm. Da cobertura de Lula, 18,2% vem da imprensa dos estados; da de Flávio Bolsonaro, 21,6%. De Renan Santos, 26,6%; de Zema, 31,1%; de Caiado, 33,2%; de Augusto Cury, 33,9%. Dos sete candidatos menos cobertos, entre 35% e 47%: juntos, 42,6%. A imprensa nacional dá a Lula três quartos da cobertura que ele tem, e aos sete menos cobertos, metade. É a leitura geográfica do que as peças 5 e 9 mediram: a agenda dos pequenos é anotada pelos portais dos estados, muitas vezes no despacho da Agência Brasil.
Da cobertura de Lula, 18% vem da imprensa dos estados. Da dos candidatos menos cobertos, de 35% a 47%
Fatia das matérias que citam cada candidato a presidente que vem de veículos regionais ou locais, de veículos nacionais e do resto (internacionais, agregadores e sem alcance). 25 de março a 23 de setembro de 2026.
imprensa dos estadosimprensa nacionalinternacional, agregador ou sem alcance
Fonte: painel Eleições 2026, 84.683 matérias de 2.039 veículos de imprensa, 25 de março a 23 de setembro de 2026, lidas em 24/09/2026. A sede é a UF da redação principal do veículo; as 27 edições de estado do g1, feitas por afiliadas e sucursais, e a edição Tocantins do Jornal Opção contam na UF da edição. 88% das matérias vêm de veículos com sede revisada; 5% vêm de veículos com sede proposta pela máquina e não revisada; 6%, de veículos sem sede no perfil (internacionais e agregadores). Método.
Em cada estado, a imprensa cobre alguém acima da média, e nem sempre é o candidato da casa. Chamamos de lift a razão entre a fatia de um candidato na imprensa de um estado e a fatia dele na imprensa estadual do país inteiro (daqui em diante, "no país"). O candidato da casa existe, e o registro do TSE diz quem é: Ronaldo Caiado, goiano, que governou o estado, aparece em 41,2% das 1.074 matérias da imprensa goiana, 3,4 vezes a fatia dele no país (12,2%); Romeu Zema, mineiro, em 19,9% das matérias de Minas, 1,9 vez; Flávio Bolsonaro, carioca, em 50,5% das do Rio, 1,4 vez. Entre os menos cobertos o efeito é maior, porque a base é menor: Clariana Barão, mato-grossense, aparece em 24,1% das matérias da imprensa de Mato Grosso (72 de 299), 13 vezes a fatia dela no país; Hertz Dias, maranhense, em 9,1% das do Maranhão (29 de 320), 3,7 vezes. Mas há quem a imprensa cubra acima da média num estado que não é o dele. Lula, pernambucano, está em 63,6% das matérias do Distrito Federal, 1,5 vez: é a cobertura do governo pelo Jornal de Brasília. E o Piauí é o estado onde os pequenos têm as maiores fatias sem que nenhum deles seja de lá: Edmilson Costa, maranhense, aparece em 12,8% das 274 matérias piauienses (35), 4,8 vezes a fatia dele no país; Samara Martins, mineira (21 matérias), e Rui Costa Pimenta, paulista (17), registram ali as maiores fatias que têm entre os 19 estados com 200 matérias ou mais.
Quem a imprensa de cada estado cobre acima da média: em Goiás, Caiado, que é de lá, aparece em 41% das matérias, 3,4 vezes a fatia dele no país. Em oito dos doze estados, quem mais ganha espaço nasceu em outro
Nos doze estados com mais matérias da imprensa regional e local, o candidato cuja fatia mais supera a fatia dele na imprensa estadual do país; "da casa" = nasceu no estado, pelo registro no TSE. Lula e Flávio Bolsonaro marcados para comparação. 1× = a mesma fatia que no país. 25 de março a 23 de setembro de 2026.
quem a imprensa do estado mais cobre acima da médiaLulaFlávio Bolsonaro
Fonte: painel Eleições 2026, 84.683 matérias de 2.039 veículos de imprensa, 25 de março a 23 de setembro de 2026, lidas em 24/09/2026. A sede é a UF da redação principal do veículo; as 27 edições de estado do g1, feitas por afiliadas e sucursais, e a edição Tocantins do Jornal Opção contam na UF da edição. 88% das matérias vêm de veículos com sede revisada; 5% vêm de veículos com sede proposta pela máquina e não revisada; 6%, de veículos sem sede no perfil (internacionais e agregadores). Lift = fatia do candidato nas matérias da imprensa do estado ÷ fatia dele na imprensa estadual do país inteiro. Método.
Por região, na imprensa dos estados: no Nordeste, Lula está em 44,3% das matérias e Flávio em 34,1%; no Centro-Oeste, 48,6% e 34,7%; no Sul, 40,6% e 36,6%; no Sudeste, 39,5% e 38,3%. O Norte, com 660 matérias, é a única região em que Flávio aparece à frente: 29% contra 28%. Onde a fatia de Lula é menor é no Amazonas, no Rio Grande do Sul e em Alagoas, entre 24% e 26% das matérias, 0,6 vez a fatia dele no país; a de Flávio, no Ceará, 0,8 vez. Cobertura não é voto: é quantas matérias da imprensa daquele estado citam o candidato.
O que isto não diz
A sede não é a cidade: não há campo de município, e "interior de Minas" não se mede. A taxa por habitante é da imprensa, não do leitor. As sucursais políticas de Brasília dos jornais nacionais ficam na sede do jornal, porque a URL não as separa da editoria de política. Os 305 veículos internacionais (1,8% do acervo; na frente a rede Pravda em português, com 188 matérias, apontada em 2024 pela agência francesa Viginum como operação de influência russa, e depois o Infobae, a Bloomberg e a Reuters) ficaram fora da geografia por não terem UF; sete em dez matérias deles vêm de domínios .com, e entre os domínios de país predominam os de língua portuguesa e espanhola (.pt, .ar, .mx, .pe, .es, .py, .cu, .uy). E o retrato depende pouco da máquina: sem os veículos com sede proposta e não revisada, a fatia do Nordeste na imprensa dos estados fica onde está (33%), e a do Norte cai de 3,3% para 1,7%. É o único lugar onde a máquina pesa no mapa, e pesa para cima.
Amanhã
Amanhã, a peça 11 sai dos candidatos: quem aparece nas matérias sem ser candidato, e quem, entre ministros, governadores, ex-presidentes e presidentes de partido, a imprensa cita mais.
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Como este texto foi feito
Esta é a décima resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, na janela de 25 de março a 23 de setembro de 2026, e todos foram conferidos antes da escrita. A sede de cada veículo é a UF da redação principal: 88% das matérias vêm de veículos com sede revisada por gente, 5% de veículos com sede proposta pela máquina e não revisada, 7% de veículos sem sede no perfil (internacionais e agregadores). A população por estado é do Censo 2022 do IBGE. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.