Ontem, a peça 10 mostrou de onde o Brasil escreve sobre a eleição. Hoje a pergunta é sobre quem aparece no texto: até aqui a série contou os 13 candidatos; a partir de agora conta todo mundo que a matéria cita pelo nome, e pergunta quem aparece sem ser candidato.
A resposta curta é muita gente, e alguns aparecem mais que os próprios candidatos. Quatro nomes que não estão em nenhuma das 13 chapas são citados em mais matérias que sete dos treze candidatos a presidente. O ex-presidente Jair Bolsonaro é o sétimo nome mais citado da eleição, atrás só dos seis candidatos mais cobertos. Alexandre de Moraes, ministro do STF, é o oitavo. O nono é um banqueiro, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o caso que atravessa a crise no STF. O décimo é André Mendonça, também ministro do STF. Depois vem Pablo Marçal, que concorreu até o TSE barrar a candidatura, e só então o sétimo candidato, Samara Martins. Em 75% das matérias sobre a eleição há alguém de fora das chapas; em um quarto, só gente das chapas.
Primeiro, a régua, porque ela é nova nesta série. Até a peça 10, cada matéria contava para os candidatos que ela cita. Uma passada de entidades, criada em 12 de setembro, leu o corpo de cada matéria publicada desde 10 de agosto, não só o título, e extraiu as pessoas citadas pelo nome. Para cada uma, ela registra o papel que a pessoa exerce naquela matéria: candidato, presidente, ministro, senador, governador, ministro do STF, ex-autoridade, familiar, analista, jornalista, entre 18 papéis. Ela lê até 5 mil caracteres e devolve até 12 pessoas por matéria; numa lista com mais nomes, ficam os que a matéria trata. A janela vai de 10 de agosto, quando a rede de coleta ficou igual para todos os candidatos, a 24 de setembro: 27.784 matérias de imprensa, 97% das publicadas no período; as outras 817 não tinham corpo legível. Saíram 5.786 pessoas, seis por matéria em média. Num gabarito de 60 matérias conferido à mão, em 51 todos os nomes e papéis saíram certos.
"Candidato", aqui, são as 13 chapas: os 13 candidatos a presidente e os 13 a vice, lidos no registro do TSE na peça 3, mais Pablo Marçal, que concorreu como candidato registrado até o TSE barrar a candidatura, em 11 de setembro, e foi substituído por Leonardo Avalanche na chapa do PRTB em 15 de setembro. As matérias de Marçal são o enredo dessa saída, e ele conta entre as chapas em toda a janela. Quem aparece sem ser candidato é quem está fora dessas 27 pessoas, inclusive quem disputa outro cargo, como Fernando Haddad, Eduardo Paes e Michelle Bolsonaro.
Quatro nomes acima de sete candidatos
Os seis candidatos mais cobertos ocupam as seis primeiras posições: Lula, com 19.332 matérias no período, Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema. A sétima posição é de Jair Bolsonaro, citado em 6.287 matérias, logo abaixo de Zema (6.973) e acima de Samara Martins, Rui Costa Pimenta, Edmilson Costa, Clariana Barão, Hertz Dias, Wilson Grassi e Leonardo Avalanche, os sete candidatos menos cobertos. Jair Bolsonaro aparece em uma de cada três matérias que citam Flávio (32%) e em 22,6% das que citam Lula. Dos quatro nomes de fora acima dos sete, é o único com uma curva constante: entre 853 e 1.064 matérias em cada uma das seis semanas completas da janela.
Os outros três são picos. Moraes (3.595 matérias), Vorcaro (3.273) e Mendonça (2.833) tinham menos de 350 matérias por semana em agosto. Na semana de 7 a 13 de setembro, chegaram a 1.004, 895 e 1.200. É a crise entre os ministros Moraes e Mendonça no STF, que a cobertura trata junto com o caso Banco Master, o banco de Vorcaro. A passada de acontecimento rotula a crise em 1.073 matérias de Moraes, 843 de Vorcaro e 779 de Mendonça; junto vem o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que aparece em 698 matérias. Logo abaixo dos quatro está Marçal (2.761), que não entra na conta: concorreu como candidato registrado, e a curva dele é a desse processo, 678 matérias na semana seguinte ao registro das candidaturas e 52 na última semana da janela, já depois da troca por Avalanche.
Quatro nomes fora das chapas aparecem em mais matérias que sete dos treze candidatos: Jair Bolsonaro, Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro e André Mendonça
Os 25 nomes mais citados no corpo das matérias de imprensa sobre a eleição, 10 de agosto a 24 de setembro de 2026: candidatos a presidente em cinza (Marçal concorreu até 11/09, quando o TSE barrou a candidatura), quem não está em nenhuma das 13 chapas em dourado. Ao lado de cada barra, o número de matérias e o papel na cobertura.
fora das 13 chapascandidato a presidente
Fonte: painel Eleições 2026, 27.784 matérias de imprensa com o corpo lido pela passada de entidades, 10 de agosto a 24 de setembro de 2026, lidas em 25/09/2026. A passada extrai até 12 pessoas por matéria e rotula o papel de cada uma pelo que a matéria diz; o papel exibido é o predominante. Método.
Abaixo dos quatro e de Marçal, a lista continua sem candidato por um bom trecho: Donald Trump (1.781 matérias), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (1.318), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (1.284), o filho de Lula, Fábio Luís, o Lulinha (1.234), e os ministros Edson Fachin, Flávio Dino, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, entre 944 e 1.229. Todos eles aparecem em mais matérias que Leonardo Avalanche (702), candidato só desde a troca de 15 de setembro; nenhum deles alcança Wilson Grassi (1.932), o menos coberto entre os que disputaram a janela inteira.
Vistos por papel, com uma matéria entrando em mais de um grupo quando cita gente de grupos diferentes: os ex-ocupantes de cargo (Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Dilma Rousseff, Michel Temer) estão em 30% das matérias. Ministros do STF e do TSE, o procurador-geral e juízes estão em 25%. Quem não cabe em nenhum dos 18 papéis da lista (cargo eletivo, ministério, corte, partido, campanha), o grupo em que a passada põe o banqueiro, o diretor-geral da PF, uma lobista e advogados, está em 22%. Candidatos a governador e ao Senado, sem contar quem já esteve na disputa presidencial, como Michelle Bolsonaro, Tarcísio e Ciro Gomes, estão em 19%; senadores, em 10%; deputados, em 9%; familiares, em 9%; autoridades estrangeiras, em 8%; ministros do governo, em 7%. Os 13 vices, juntos, estão em 11%: Alfredo Gaspar (833 matérias) e Geraldo Alckmin (731) aparecem mais que Avalanche, e quase nunca na manchete (3% e 7% das matérias que os citam); Gilberto Kassab (559) é o vice que mais chega ao título, em 28%.
Duas eleições
Quem aparece com quem é a segunda pergunta. Ligamos duas pessoas cada vez que elas aparecem na mesma matéria, com um peso que impede uma matéria-lista de 12 nomes de valer 66 vezes uma matéria de dois, e deixamos um algoritmo de comunidades dizer onde a rede se parte. Ela se parte em dois blocos grandes e um de duas pessoas. Num estão Lula, Flávio Bolsonaro e mais 43 nomes: Jair Bolsonaro, Moraes, Vorcaro, Mendonça, Fachin, Dino, Toffoli, Nunes Marques, Trump, Tarcísio, Alcolumbre, Lulinha e, entre outros, os vices de Lula e de Flávio. No outro estão os outros onze candidatos, mais Marçal e Kassab. O terceiro tem Ciro Gomes e Elmano de Freitas: é a eleição cearense.
A imprensa escreve duas eleições: Lula e Flávio Bolsonaro, cercados por Jair Bolsonaro, pelos ministros do STF, pelo Banco Master e por Trump; e os outros onze candidatos, que aparecem entre si e com Marçal
Rede de cocitação dos 40 nomes mais citados no corpo das matérias: os 13 candidatos a presidente, Marçal, 3 vices e 23 nomes de fora das chapas, 10 de agosto a 24 de setembro de 2026. Tamanho do nó = matérias em que a pessoa aparece; linha = matérias em que as duas aparecem juntas (só ligações com 150 matérias ou mais). Quem aparece junto fica perto.
fora das 13 chapascandidato ou vice de chapalinha = matérias em que os dois aparecem juntos (mais grossa, mais matérias)
Fonte: painel Eleições 2026, 27.784 matérias de imprensa com o corpo lido pela passada de entidades, 10 de agosto a 24 de setembro de 2026, lidas em 25/09/2026. A passada extrai até 12 pessoas por matéria e rotula o papel de cada uma pelo que a matéria diz; o papel exibido é o predominante. Posição calculada por força (networkx, spring layout) sobre as ligações desenhadas; os dois blocos são os que o algoritmo de comunidades (Louvain) separa. Método.
A ligação mais forte do acervo é Lula com Flávio: 13.397 matérias, 69% das que citam Lula e 80% das que citam Flávio. E quase todos os caminhos entre os dois blocos passam pelos dois. A medida de quem fica no caminho mais curto entre os outros, a chamada betweenness, dá 0,70 para Lula e 0,43 para Flávio; os próximos, Marçal, Moraes, Renan Santos e Caiado, ficam entre 0,03 e 0,07; Mendonça tem 0,003; os outros 53 nós da rede têm zero.
Não é que os onze apareçam longe de Lula e Flávio: é o contrário. Hertz Dias aparece com Lula em 95% das matérias que o citam e com Flávio em 94%; Edmilson Costa, em 93% e 93%; Clariana Barão, em 90% e 90%. O bloco dos onze é feito de matérias de agenda e de lista, quase sempre com os dois grandes, e quase nunca com os nomes da crise: Moraes está em 2% das matérias de Samara, de Pimenta e de Edmilson. É isso que separa os blocos: os de fora que cercam Lula e Flávio raramente aparecem com os onze. E o primeiro companheiro de matéria de cada um dos onze, tirados os outros 12 cabeças de chapa (Marçal entra na conta), é Pablo Marçal: de 21% das matérias de Renan e de Caiado a 45% das de Avalanche, que herdou dele a chapa do PRTB em 15 de setembro. As matérias que listam os candidatos o citaram até o registro cair.
O bloco de Lula e Flávio é feito de crise e de governo. As maiores ligações do acervo sem nenhum candidato são Moraes com Vorcaro (1.793 matérias), Vorcaro com Jair Bolsonaro (1.673), Mendonça com Moraes (1.637), Moraes com Jair (1.462) e Mendonça com Vorcaro (1.407), todas ligadas ao caso Master e à crise no STF. Depois vêm Mendonça com Fachin (927), Mendonça com Andrei Rodrigues (600, o afastamento dele da PF), Jair com Tarcísio (563) e Lulinha com a lobista Roberta Luchsinger (550, o inquérito contra o filho de Lula). O companheiro mais frequente de Lula, fora os outros 12 cabeças de chapa, é Jair Bolsonaro, em 22,6% das matérias de Lula, seguido de Moraes (13,2%), Vorcaro (11,4%), Mendonça (10,2%), Marçal (9,8%) e Trump (8,2%). O de Flávio também é Jair, em 32%, seguido de Vorcaro (15,3%), Moraes (14,7%), Marçal (11,6%), Mendonça (10,7%) e Tarcísio (6,6%). Entre os seis candidatos mais cobertos, Lula é o que mais aparece sem nenhum outro cabeça de chapa na matéria, em 26% das que o citam; parte disso é cobertura de governo, e a passada o rotula como presidente, não como candidato, em 61% das matérias.
De quem é cada personagem
Os nomes de fora têm dono. Para cada um dos 20 mais citados fora das chapas, medimos a fatia das matérias dele que também cita Lula e a que também cita Flávio. Janja aparece com Lula em 97% das matérias que a citam e com Flávio em 46%; o presidente da Câmara, Hugo Motta, em 96% e 39%; Roberta Luchsinger, em 94% e 38%; Lulinha, em 94% e 55%. Trump é personagem da cobertura de Lula: 89% das matérias que citam Trump citam Lula e metade cita Flávio, e os acontecimentos dele são a Assembleia-Geral da ONU e o tarifaço. Alcolumbre entra pelo fim da escala 6x1 e da taxa das blusinhas, e é de Lula: 89%. Fora do gráfico, que mostra os 20 mais citados, o advogado-geral da União, Jorge Messias, aparece com Lula em 94% e com Flávio em um terço; o ministro da Fazenda, Dario Durigan, em 94% e 42%.
De quem é cada personagem: Trump, Alcolumbre, Hugo Motta, Janja e o filho de Lula aparecem quase sempre com Lula; Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Tarcísio e Michelle, com Flávio
Para os 20 nomes mais citados fora das chapas, a fatia das matérias de cada um que também cita Lula e a que também cita Flávio Bolsonaro, 10 de agosto a 24 de setembro de 2026. Ordenado de quem é mais de Lula para quem é mais de Flávio.
matérias que também citam Lulamatérias que também citam Flávio Bolsonaro
Fonte: painel Eleições 2026, 27.784 matérias de imprensa com o corpo lido pela passada de entidades, 10 de agosto a 24 de setembro de 2026, lidas em 25/09/2026. A passada extrai até 12 pessoas por matéria e rotula o papel de cada uma pelo que a matéria diz; o papel exibido é o predominante. Método.
Do outro lado, Eduardo Bolsonaro aparece com Flávio em 90% das matérias que o citam e com Lula em 58%; Jair Bolsonaro, em 85% e 70%; Tarcísio, em 83% e 70%; Michelle Bolsonaro, em 76% e 38%. Fora do gráfico, o senador Rogério Marinho, em 94% e 69%, e o deputado Nikolas Ferreira, em 86% e 61%. Vorcaro pende para Flávio, 78% contra 68%: as matérias do Master que citam Flávio são as da atuação dele no Senado, que a PGR pediu para apurar, e as da fala de Haddad de que, com Flávio eleito, Vorcaro não ficaria preso. Os ministros do STF são dos dois: Moraes, 71% e 68%; Dino, 71% e 66%; Mendonça, 69% e 63%. E dois nomes não são de ninguém. O ministro Dias Toffoli aparece com Lula em 35% e com Flávio em 34%, porque 48% das matérias dele são só com candidatos que não são Lula nem Flávio: a suspensão da campanha de Renan Santos. A ministra Estela Aranha, relatora do registro de Marçal no TSE, é citada em 391 matérias, metade delas sem nenhum dos 13, e nunca no título.
O que a manchete deixa no corpo
A passada lê o corpo, e por isso dá para medir o que o título deixa de fora. Contamos como "no título" a matéria cujo título traz o nome, o apelido ou o sobrenome pelo qual a imprensa chama a pessoa. Lula está no título de 63% das matérias que o citam; Flávio, de 56%; Cury, de 30%; Renan Santos, de 25%; Caiado, de 22%; Zema, de 17%. Os sete candidatos menos cobertos ficam entre 4% e 12%: aparecem nas matérias, não nas manchetes. Fora das chapas, chega à manchete quem é notícia por si: Michelle Bolsonaro em 47% das matérias que a citam, Lulinha em 38%, Toffoli em 34%, Alcolumbre em 33%, Trump em 30%. Fica no corpo quem está na crise sem ser o protagonista dela: Gilmar Mendes em 6%, Fachin e Dino em 14%. E Estela Aranha, em 391 matérias, não chega a título nenhum. Jair Bolsonaro dá 1% nessa conta, mas é um piso, não a medida: a manchete o chama de "Bolsonaro", e um título com "Bolsonaro" sozinho pode ser Jair, Flávio, Michelle ou Eduardo; a régua não conta esse título para ninguém.
O que isto não diz
A rede diz quem aparece junto, não quem está junto: quem junta os nomes é a imprensa, e uma lista de candidatos numa matéria de agenda liga Hertz Dias a Zema sem que os dois tenham se encontrado. A betweenness e os blocos descrevem a cobertura, não a política, e a betweenness usa como distância o número de matérias em comum: sem esse peso, Jair Bolsonaro empata com Lula e Flávio. A passada rotula o papel pelo que cada matéria diz, e o papel que mostramos é o predominante. Grafias diferentes do mesmo nome contam separadas; conferimos os 100 nomes mais citados, e a maior duplicata tem 65 matérias, nada que mude uma posição; entre os menores pode haver gente das chapas contada como de fora por uma grafia, o que muda pouco os 75%. A contagem de título é por texto, com as grafias que a imprensa usa para cada pessoa, e subestima quem a manchete chama por um sobrenome partilhado. Cobertura não é voto: é quantas matérias citam cada nome.
Amanhã
Amanhã, a peça 12 fica com um papel que hoje deixamos de fora da rede: quem a imprensa chama para explicar a eleição, quantos analistas são, de que instituições, e quantos nomes concentram a explicação.
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Como este texto foi feito
Esta é a décima primeira resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, na janela de 10 de agosto a 24 de setembro de 2026, e todos foram conferidos antes da escrita. As pessoas citadas em cada matéria foram extraídas do corpo do texto por uma passada de classificação (DeepSeek V4.1 Flash), que devolve até 12 nomes por matéria com o papel de cada um; num gabarito de 60 matérias conferido à mão, ela acertou 51. A rede e as comunidades foram calculadas com a biblioteca networkx. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.