Ontem, a peça 1 mostrou que dois nomes ocupam quase todas as matérias; hoje viramos o tapete do avesso e perguntamos que assunto cada um dos treze tem que quase não aparece na cobertura dos outros.
Ontem contamos quanto a imprensa publicou e sobre quem: mais de 78 mil matérias, Lula ou Flávio Bolsonaro em 78% delas. Hoje a pergunta olha cada um dos treze de perto: existe, para cada um, um assunto que a imprensa quase só liga a esse candidato? A resposta curta: sete têm, cinco não. A inteira é mais interessante: a palavra dos dois maiores não é do tipo da dos outros onze.
"Palavra", aqui, é o assunto que o nosso classificador rotula em cada matéria, de dois a quatro por texto; não é o vocabulário do jornal nem o do candidato, e todos os citados numa matéria recebem os mesmos assuntos. A janela vai de 25 de março a 14 de setembro, sobre as mais de 75 mil matérias que citam pelo menos um dos treze (ontem, 78 mil: até o dia 13 e com quem saiu da disputa).
Como se acha a palavra de alguém
Para cada candidato, procuramos o assunto que aparece na cobertura dele muito mais do que na dos outros doze. Essa razão se chama lift e ordena; para ler, usamos um número mais simples: de cada 100 matérias sobre aquele assunto, quantas citam o candidato. Só entra assunto com pelo menos 20 matérias do candidato, ou 1% da cobertura dele, o que for maior. Para Lula, o piso são 437 matérias.
Um exemplo. Em 30 de abril, o Valor publicou "Derrota marca rompimento da relação entre Lula e Alcolumbre". O assunto é a relação entre Executivo e Legislativo, e a matéria conta para Lula, o único dos treze citado nela; Davi Alcolumbre, presidente do Senado, está no título, mas não é candidato e fica fora da conta. "Só dele" quer dizer só dele entre os treze. Das 785 matérias sobre esse assunto, 764 citam Lula; Flávio Bolsonaro está em 38, Caiado em 11, Zema em 8, Renan Santos em 4.
Sete dos treze têm um assunto em que quase toda matéria cita o candidato
Para cada candidato, o assunto que aparece na cobertura dele muito mais do que na dos outros doze, e quantas de cada 100 matérias sobre esse assunto citam o candidato (dourado a partir de 90%); ao lado, o número de matérias. Matérias de imprensa de 25 de março a 14 de setembro de 2026; o assunto é o rótulo do classificador do painel, e só entra com pelo menos 20 matérias do candidato.
Fonte: painel Eleições 2026 (SapiensLabs). Como se mede: lift.
O cargo e a casa
Lula e Flávio Bolsonaro têm o maior vocabulário do grupo: 681 e 411 assuntos com pelo menos 20 matérias, contra 128 do terceiro, Ronaldo Caiado. Com mais de 43 mil e mais de 30 mil matérias, quase todo assunto passa pelos dois; a palavra deles precisa ser grande e quase exclusiva, e é.
A palavra de Lula é a relação entre Executivo e Legislativo: 764 matérias em 85 veículos, em todas as 25 semanas, e 97 de cada 100 citam o presidente. Nos títulos, a indicação de Messias ao STF, a rejeição no Senado, Alcolumbre, o Congresso. As seguintes vêm do mesmo lugar: indicação política (616 matérias, 93 de cada 100 com o nome dele) e inflação (452, 91). A palavra de Lula é o cargo.
A de Flávio Bolsonaro é "conflitos internos": 326 matérias em 93 veículos, em 20 semanas, 96 de cada 100 com o nome dele. Nos títulos, Michelle, Eduardo, o vídeo de junho. As seguintes são prisão domiciliar (437 matérias, 94 de cada 100; o pai) e bolsonarismo (336, 87). A palavra de Flávio é a casa.
Lula tem três palavras acima de 90% e Flávio, duas; nas dez de cada um, o outro nunca chega à metade das matérias
Os dez assuntos que a cobertura sobre cada um dos dois tem muito mais do que a dos outros doze candidatos, um bloco por candidato, na ordem do lift. O ponto cheio diz quantas de cada 100 matérias de imprensa sobre o assunto citam o dono da palavra (dourado a partir de 90%, a linha tracejada); o anel vazio, quantas citam o outro dos dois. À direita, esse percentual e o número de matérias. O assunto é o rótulo do classificador do painel, não a palavra do jornal; matérias de 25 de março a 14 de setembro de 2026.
Fonte: painel Eleições 2026 (SapiensLabs). Como se mede: lift.
Os dois também trocam de palavra quando a régua encurta. Desde 10 de agosto, quando a rede de coleta ficou igual para todos, a de Lula passa a ser agenda legislativa (116 matérias, 98 de cada 100: a volta do recesso, a PEC do fim da escala 6x1), e tráfico de influência (384 matérias, 97 de cada 100: o caso que envolve Lulinha e uma lobista investigada pela PF). A de Flávio passa a financiamento de filme (177 matérias, 99 de cada 100: Dark Horse e Daniel Vorcaro), e lavagem de dinheiro (200, 79). São assuntos das matérias e de investigações em curso; o painel registra a mudança e não acrescenta nada. Entre os outros onze, a maioria mantém a palavra: as de agosto e setembro ficam, as bandeiras também. As exceções são Zema, cuja declaração de maio fica fora do recorte, e Hertz Dias, cuja palavra já não chegava à metade.
Desde 10 de agosto, Lula tem três palavras acima de 90% e Flávio, uma; nas seis de cada um, o outro nunca chega à metade das matérias
Os seis assuntos que a cobertura sobre cada um dos dois tem muito mais do que a dos outros doze candidatos desde 10 de agosto, quando a rede de coleta ficou igual para todos; um bloco por candidato, na ordem do lift. Mesma leitura do gráfico acima, com matérias de 10 de agosto a 14 de setembro de 2026.
Fonte: painel Eleições 2026 (SapiensLabs). Como se mede: lift.
Bandeira, episódio, tribunal
Entre os outros onze, a palavra é de dois tipos, e a diferença é o calendário.
A bandeira se espalha por semanas. Augusto Cury tem a mais nítida: semipresidencialismo, 132 matérias em 93 veículos em dez semanas, e 100 de cada 100 citam Augusto Cury. A segunda dele, saúde mental (115 matérias, 84 de cada 100), é do mesmo tipo, proposta e não acontecimento. Wilson Grassi, que é veterinário, tem a causa animal: 35 matérias, 95 de cada 100 com o nome dele, a maior parte na semana de 17 de agosto. Samara Martins (movimentos sociais, 14 semanas) e Hertz Dias (socialismo, oito semanas) têm bandeira assim, mas nenhuma chega à metade; voltamos a elas adiante.
O episódio dura até três semanas e some. A de Ronaldo Caiado é a mais recente: internação hospitalar, 96 matérias em 61 veículos, todas entre 10 e 13 de setembro, 100 de cada 100 com o nome de Caiado. A de Romeu Zema é trabalho infantil: 91 matérias de 2 a 13 de maio, 97 de cada 100 com ele; é a declaração do 1º de Maio, que a cobertura registrou por doze dias e depois deixou. A de Renan Santos é suspensão de campanha, 117 matérias entre 28 de agosto e 10 de setembro, 75 de cada 100 com o nome de Renan Santos; a mesma decisão de Toffoli no TSE alcançou Wilson Grassi, que aparece em 30 matérias do assunto. A de Pablo Marçal, uso indevido dos meios de comunicação, tem 38 matérias entre 26 de agosto e 12 de setembro, 97 de cada 100 com ele: são as do julgamento do registro da candidatura no TSE. A de Rui Costa Pimenta é fundo partidário: 78 matérias, 77 de 11 a 18 de agosto, a operação da PF, e uma entrevista sobre ela em 14 de setembro; 48 de cada 100 com o nome de Pimenta.
Três dessas cinco palavras vêm de tribunal ou de polícia: as de Renan Santos e de Marçal, do TSE; a de Rui Costa Pimenta, da PF. São decisões e investigações em curso, assunto das matérias. O padrão vale registro: para parte dos candidatos com pouca cobertura, o assunto que mais os singulariza na imprensa não é a proposta, é o processo.
Cinco sem palavra
Cinco candidatos não têm nenhum assunto em que apareçam em metade das matérias: Clariana Barão (24 de cada 100, em representatividade feminina), Edmilson Costa (39, em "entrevista"), Samara Martins (36, movimentos sociais), Hertz Dias (41, socialismo) e Rui Costa Pimenta (48, fundo partidário).
A conta mostra tamanho, não causa. Os sete candidatos com menos matérias têm de 14 a 22 assuntos com 20 matérias ou mais; Lula tem 681. Com poucas matérias, cada palavra se divide com alguém: socialismo é de Hertz Dias (23 matérias), Rui Costa Pimenta (13), Samara Martins (12) e Edmilson Costa (7). Representatividade feminina se reparte entre Samara Martins (66 matérias) e Clariana Barão (56), e aparece também com Lula e Flávio, nas matérias sobre a falta de mulheres nas chapas maiores; essa divisão é assunto da peça 4, em 18 de setembro.
Edmilson Costa é o caso mais claro. A primeira palavra dele é "entrevista": 22 matérias, logo acima do piso, em 13 veículos, pouco menos de um quarto delas matéria-lista. A segunda é "agenda de campanha", com 122 matérias, mas só 28 de cada 100 citam Edmilson Costa, porque o assunto é de todos: os títulos são "veja como foi o dia dos candidatos". O que a cobertura traz dele é o roteiro. Quem só existe nesse tipo de matéria é assunto da peça 5, em 19 de setembro; quanto dela é a mesma nota republicada fica para a peça 9, em 23 de setembro.
O que o banco não diz é por quê. Ele mede que a imprensa liga o semipresidencialismo a Augusto Cury e nenhum em particular a Clariana Barão; não diz se é porque um propôs e a outra não, porque a cobertura ouve um e não a outra, ou porque com 600 matérias não dá para ter assunto. As duas primeiras têm peça própria: quem a cobertura ouve é a 6, em 20 de setembro; o que cada plano propõe, e com que lastro, é a 13, em 27 de setembro. E vale repetir a ressalva de ontem: ter uma palavra própria é coisa da cobertura, não do eleitor. O painel mede o que se publica sobre cada um, não o que se pensa deles.
Amanhã
Amanhã, a peça 3 sai da cobertura e vai ao registro do TSE: quem são os 26 nomes das chapas, com patrimônio, idade, escolaridade e cor ou raça.
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Como este texto foi feito
Esta é a segunda resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, apurados e conferidos antes da escrita; o texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.