A abertura de ontem prometeu a pergunta mais ampla da série, quanto a imprensa publicou desde março, sobre quem e em que tom; esta é a resposta, em números.
Desde 25 de março, o painel Eleições 2026 lê o que a imprensa publica sobre as treze candidaturas à Presidência. Até 13 de setembro, o último dia fechado quando fizemos a conta, foram 173 dias, mais de 78 mil matérias de mais de 1.900 veículos. É o acervo de onde saem as 18 respostas, e a primeira pergunta é a mais simples de fazer: o que há nele?
Três coisas, em resumo. A cobertura cresceu. Dois nomes ocupam quase toda ela. E, de julho para cá, ficou mais neutra: relata mais e avalia menos. O resto é o número de cada frase e o que ele quer dizer.
Quanto
Contar matéria é uma tarefa sem fim: parte do que sai num dia só chega ao painel nas rodadas seguintes de coleta, e o total anotado à tarde já é outro à noite. Por isso os números grandes vão arredondados. Mais de 78 mil matérias em 173 dias dão cerca de 450 por dia, no período inteiro. Desde 10 de agosto, o ritmo é outro: mais de 21 mil matérias em 35 dias, cerca de 600 por dia.
Mês a mês, a curva sobe com um recuo só. Março, que entra a partir do dia 25, teve 223 matérias por dia; abril, 367; maio, 448. Junho caiu para 373, e é o único mês fechado que publicou menos que o anterior. Julho voltou a 466 e agosto chegou a 603, o maior mês em matérias e em veículos. Setembro, até o dia 13, está em 569.
Em semanas, a diferença salta. De 30 de março a 5 de julho, uma semana típica somou 2.782 matérias. Desde 10 de agosto, 4.259: 1,53 vez a de antes. As três maiores semanas do período começam em agosto: a das sabatinas na Globo (24/08, com 4.562 matérias), a seguinte (31/08, 4.545) e a do primeiro debate, na Band (17/08, 4.480).
Lula e Flávio em todas as semanas; os outros onze acendem por acontecimento
Matérias de imprensa por candidato e por semana, de 25 de março a 13 de setembro de 2026, em 25 semanas; a cor segue o número de matérias, em cinco faixas, e a fatia à direita é a parte das matérias do período em que cada nome aparece (somam mais de 100%, porque uma matéria pode citar vários candidatos). A linha tracejada marca 10 de agosto, quando a rede de coleta ficou igual para todos; os números apontam sete acontecimentos da campanha.
Sobre quem
O tapete acima é a resposta em uma imagem: duas linhas acesas de ponta a ponta, onze que acendem quando um acontecimento as toca. Em números, Lula aparece em 55% das matérias do período e Flávio Bolsonaro em 39%. Um dos dois está em 78% de tudo; os dois juntos, na mesma matéria, em 16%. As fatias somam mais de cem porque uma matéria pode citar vários candidatos, e é assim que o painel mede quem domina: a parte das matérias em que cada nome está, não a parte que cabe a cada um. A versão viva dessa conta é o Panorama do painel.
Vale repetir o que a abertura disse: essa fatia é da cobertura, não do eleitor. Quem aparece mais é sobre quem se escreve mais, elogio, crítica ou nota de agenda. Nas 25 semanas do período, Flávio teve mais matérias que Lula em quatro: a do caso Banco Master, em maio, a do vídeo de Michelle Bolsonaro, em junho, e duas de julho, uma delas a das convenções. Nas outras 21, Lula teve mais.
Comparar os onze restantes exige uma ressalva, e ela é nossa, não da imprensa. Até 9 de agosto, a rede de coleta não era igual para todos: os candidatos menores estavam fora do Google News, e alguns ainda fora do painel. Comparar o volume de Lula com o de Hertz Dias no período inteiro mede a nossa rede; desde 10 de agosto, mede a imprensa. É por isso que a linha tracejada corta o tapete ali, e que os números dos menores neste texto valem a partir dessa data.
E a partir dessa data a foto muda um pouco. Lula ou Flávio continuam em 69% das matérias, mas os 31% restantes se repartem entre mais gente. O terceiro nome mais citado no período inteiro é Ronaldo Caiado, com 8,7%; desde 10 de agosto, Renan Santos (11,2%), Augusto Cury (11,0%) e Caiado (10,4%) ficam a 160 matérias um do outro em cinco semanas. Pablo Marçal, que quase não existia no acervo antes, tem 5,3%. Parte disso é a rede mais larga; parte é a matéria-lista, que enumera cinco ou mais candidatos de uma vez e passou de 0,7% das matérias até 9 de agosto para 3,2% desde 10 de agosto. Quem só existe nela é assunto da peça 5, prevista para 19 de setembro.
Do lado de quem publica, ninguém domina: o maior veículo, o G1, tem 4,2% de tudo. Mas a imprensa que cobre a eleição, com mais de 1.900 nomes, quase cabe em cinquenta: os 50 maiores veículos publicaram 82% das matérias, e todos os outros, juntos, o resto. Quanto dessa cobertura é a mesma notícia republicada fica para a peça 13, prevista para 27 de setembro.
Em que tom
O painel classifica cada par de matéria e candidato em positivo, neutro ou negativo, e conta em percentual. Neutro é o texto que relata sem avaliar: a nota de agenda, o resumo do debate, o registro de um ato. Não é "favorável" e não diz nada sobre a pessoa citada; o tom mede o texto publicado.
O que o banco mostra é isto. Até 9 de agosto, 55% das menções aos treze candidatos eram neutras; desde 10 de agosto, 67%. O neutro cresceu à custa dos dois lados, quase por igual: o positivo caiu de 23% para 18%, o negativo de 22% para 16%. Para quem lê: desde 10 de agosto, dois de cada três textos sobre um candidato contam o que ele fez ou disse sem dar nota, contra pouco mais da metade até o dia 9.
Não foi um degrau. Semana a semana, o neutro tocou o fundo no fim de junho (45,7% na semana de 29/06) e começou a subir na primeira quinzena de julho: 58,4% na semana de 13/07, 62,0% na de 27/07, com as convenções em curso, 67,5% na de 10/08. Desde então, nenhuma semana saiu da faixa entre 65,9% e 66,7%. Em meses: maio, o do Banco Master, foi o menos neutro (52,1%); julho ficou em 56,0%; agosto, em 65,1%.
Antes de acreditar num número desses, desconfiamos dele três vezes; o leitor merece saber o que sobreviveu. A primeira suspeita era a mistura: os candidatos menores, que entraram com força em agosto, vivem em matéria neutra e podiam puxar a média. Só com os seis maiores, a alta continua: 54,7% em julho, 62,8% em agosto, 65,2% em setembro. A segunda era a classificação provisória, feita só com o título antes de o corpo da matéria chegar; sem esses pares, julho fica em 55,9% e agosto em 64,7%. A terceira era o gênero: a opinião, que é o texto menos neutro, caiu de 8,9% dos pares em julho para 6,2% em agosto, e parte da alta é isso, menos coluna e mais notícia. Mas a notícia também ficou mais neutra por dentro, de 57,5% em julho para 66,1% em agosto. Setembro entra aqui como dado, não como prova: o modelo que classifica o tom mudou em 11 de setembro, e a série pode mostrar um degrau a partir daí. A tese se apoia em julho e agosto.
O que o banco não diz é por quê. Duas hipóteses ficam à mão: a campanha oficial, com convenções e registro no TSE, produz mais texto de agenda e de rito; e o caso Banco Master, que puxava o negativo em maio, saiu do centro. São conjecturas. O banco mede, não explica, e a pergunta fica para as peças sobre gênero (a 10) e linha editorial (a 11).
Por candidato, o movimento maior é na cobertura sobre Flávio Bolsonaro: 45% de negativo em maio, 35% em julho, 22% em agosto. A cobertura sobre Lula quase não se mexe em agosto, e o que ela perde desde 10 de agosto é positivo (de 20,7% para 14,9%), não negativo. As de Caiado e de Zema perdem positivo e ganham neutro. E quatro dos candidatos menores, Edmilson Costa, Hertz Dias, Samara Martins e Clariana Barão, passam de 85% de neutro desde 10 de agosto: são citados, quase nunca avaliados. Ser citado sem ser avaliado também é uma forma de cobertura, e é a que eles recebem.
Foi isso que a imprensa publicou desde março: cada vez mais, quase sempre sobre os mesmos dois, e, de julho para cá, com menos nota e mais relato. As próximas respostas desmontam cada uma dessas três frases, uma pergunta por vez.
Amanhã
Amanhã, a peça 2 vira o tapete do avesso: se dois nomes ocupam quase todas as matérias, que assunto cada um dos treze tem que quase não aparece na cobertura dos outros? A palavra que é só dele.
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Como este texto foi feito
Esta é a primeira resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, apurados e conferidos antes da escrita; o texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.