Ontem, a peça 7 mostrou que o tom de uma manchete acompanha quem respondeu à fala, não a fala. Hoje a variável é outra: quem publicou. O mesmo candidato recebe tratamento diferente conforme a linha editorial do veículo?
A resposta curta é sim, mas não para todos, e não do mesmo jeito. Para dois candidatos, muda muito. Para quatro, muda num degrau só. Para seis, não muda nada, e o motivo é menos lisonjeiro do que parece.
Primeiro, a régua. O painel atribui a cada veículo um rótulo editorial, e o rótulo é do veículo, não da matéria: a Folha é "centro" em tudo o que publica, a Gazeta do Povo é "direita", o Diário do Centro do Mundo é "esquerda". Os critérios estão na rubrica pública: esquerda e direita são posicionamento assumido, dentro do jogo democrático; "extrema" exige mais do que opinião forte, como defesa de ruptura ou teoria conspiratória sobre urna, Supremo ou imprensa. Só entram na conta os veículos com rótulo revisado por pessoa: 180 veículos e 91.661 pares matéria × candidato, de 25 de março a 21 de setembro. Veículo partidário, oficial ou sindical não conta como imprensa em nenhum número da série.
Duas consequências da régua precisam vir antes do primeiro número. A escada tem quatro degraus, não cinco: não existe "extrema-esquerda" na imprensa do painel, porque os veículos que estariam ali, como o Diário Causa Operária, são partidários e ficam fora. E o degrau da extrema-direita é, na prática, um veículo: a Revista Oeste responde por 85% das matérias dele; os outros três são o CLM Brasil, o Brasil Paralelo e o Terra Brasil Notícias. Quando dissermos "extrema-direita" daqui em diante, leia-se "a Oeste, sobretudo".
E a régua do tom, a mesma de toda a série. O tom é lido por um modelo, matéria a matéria, para cada candidato citado; a mesma matéria pode sair negativa para um e positiva para outro. "Positiva" é a matéria cujo texto favorece o candidato, e isso vai além do elogio: linguagem favorável, manchete que o valoriza, apoio ou elogio de terceiro, defesa contra uma acusação e, o caso mais comum e o menos intuitivo, o espaço dado à fala dele sem contraponto no trecho lido, o que chamamos de declaratório. Número não puxa: pesquisa e resultado são neutros para todos os citados. O classificador não sabe qual é o veículo. O rótulo entra depois, no cruzamento.
Lula sobe a escada, Flávio desce
Na imprensa de esquerda, 9% das matérias que citam Lula saem negativas para ele. No centro, 15%. Na direita, 35%. Na extrema-direita, 40%. Quatro degraus, e a fatia negativa sobe em todos.
Com Flávio Bolsonaro, o desenho é o mesmo de cabeça para baixo: 54% na esquerda, 28% no centro, 23% na direita, 12% na extrema-direita. A distância entre a ponta esquerda e a ponta direita é de 42 pontos, a maior entre os treze candidatos. A de Lula, 31.
O espelho vale também do lado positivo. A fatia de matérias positivas para Lula cai de 36% na esquerda para 6% na extrema-direita; a de Flávio sobe de 7% para 41%. Os números das pontas são quase os mesmos, trocados de lugar.
Para Lula, a cobertura piora da esquerda para a extrema-direita. Para Flávio, melhora. Para seis candidatos, não muda
Fatia negativa da cobertura de cada candidato a presidente, pelo rótulo editorial do veículo que publicou. 91.661 pares matéria × candidato, 180 veículos, 25 de março a 21 de setembro de 2026.
fatia negativa:0 a 4%5 a 14%15 a 29%30 a 44%45% ou maismenos de 30 matérias: sem percentual
Fonte: painel Eleições 2026, pares matéria × candidato em veículos de imprensa com rótulo editorial revisado, 25 de março a 21 de setembro de 2026, lidos em 22/09/2026. O rótulo é do veículo, não da matéria; o tom é o da matéria para cada candidato. A extrema-direita da imprensa é quase um veículo só: a Revista Oeste responde por 85% das matérias do degrau. Sem extrema-esquerda: os veículos que estariam ali são partidários e ficam fora da conta de imprensa. Método.
Um dia serve de exemplo. Em 21 de setembro, o caso do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, rendeu manchete nos dois lados. Na Oeste: "Vídeo mostra autoridades do governo Lula em evento de Vorcaro", negativa para Lula. No Diário do Centro do Mundo: "Pai de Neymar e Flávio Bolsonaro cobraram dinheiro de Vorcaro, mostram mensagens", negativa para Flávio. O mesmo caso, dois alvos. Nove dias antes, a Veja, veículo de direita, tinha publicado "Relatório da PF cita encontros entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro em 2025", negativa para Flávio; voltamos a ela adiante.
Dá para medir isso sem escolher exemplos. Tomamos só as matérias que citam Lula e Flávio juntos e contamos, em cada degrau, quantas saem negativas para um e positivas para o outro. Na extrema-direita são 265 matérias com os dois: em 54, Lula sai mal e Flávio sai bem; em uma, acontece o contrário. Na esquerda, 1.782 matérias: em 274, Flávio sai mal e Lula bem; em 44, o contrário. No centro a balança quase se equilibra, 536 contra 400. Na direita, 166 contra 46.
A mesma matéria, lida dos dois lados: na extrema-direita, Lula sai mal e Flávio bem em 54 matérias; o inverso, em uma
Matérias que citam Lula e Flávio Bolsonaro juntos, por rótulo editorial do veículo: quantas saem negativas para um e positivas para o outro. As que tratam os dois do mesmo modo, ou deixam um deles neutro, ficam fora da barra.
matérias negativas para Lula e positivas para Fláviomatérias negativas para Flávio e positivas para Lula
Fonte: painel Eleições 2026, pares matéria × candidato em veículos de imprensa com rótulo editorial revisado, 25 de março a 21 de setembro de 2026, lidos em 22/09/2026. O rótulo é do veículo, não da matéria; o tom é o da matéria para cada candidato. Tom lido por candidato, na mesma matéria, com a mesma régua. Método.
Por que 9% e 12%, e não zero
A pergunta óbvia é por que a imprensa de esquerda tem alguma matéria negativa para Lula, e a Oeste alguma para Flávio. Abrimos as duas pontas, uma a uma.
Os 483 pares negativos de Lula na imprensa de esquerda são de três tipos. O primeiro é a agenda: a imprensa de esquerda noticia o dia como qualquer outra, e o dia inclui o que sai mal para ele. "TRE-SP mantém multa de R$ 15 mil a Lula por fala sobre votos em Tebet e Marina" e "PF pede abertura de mais uma investigação contra Lulinha", no Diário do Centro do Mundo; a derrota no Senado; o ataque de Milei. O DCM e O Cafezinho, os dois veículos mais noticiosos do degrau, somam 301 dos 483, e agosto sozinho tem 134. O segundo tipo é a crítica pela esquerda: opinião e análise são 47% desses negativos, contra 27% do que o degrau publica. O MST chamou a reforma agrária do governo de "bagunça conceitual" no Brasil de Fato; O Cafezinho escreveu que a imagem de Lula "sai arranhada por causa de Jaques Wagner"; o Brasil 247 publicou que "a ruptura de Lula com o STF agrava as condições da luta política". O terceiro tipo é erro nosso. "Pode rir: plano de Flávio Bolsonaro quer ensinar a Lula como exercer a soberania nacional", título que o DCM publicou em 13 de agosto e depois trocou, é ironia contra Flávio, e o classificador leu como negativa para Lula. Não medimos quanto disso há; na amostra que lemos, é minoria.
Do lado de Flávio, os 71 pares negativos na extrema-direita são quase todos notícia, 64, e quase todos de um tipo: o fato que o atinge, registrado. O áudio para Vorcaro, em maio, responde por 19 dos 71; depois vêm os inquéritos da PF e da PGR, a filiação fraudulenta ao Missão em agosto, os palanques que ele não teve no Maranhão e no Piauí, os ataques de Alcolumbre. E uma coisa que Lula não tem: rivais no próprio campo. "Kassab vê desgaste para Flávio depois de áudio com Vorcaro", "Caiado diz que Flávio 'perdeu competitividade' contra Lula", Zema chamando o áudio de "imperdoável": a Oeste registra as cobranças de Caiado, Zema e Renan Santos, que disputam o mesmo eleitorado, e cada uma sai negativa para Flávio. Na imprensa de direita o mesmo desenho ganha opinião: dos 752 negativos, 41% são análise ou opinião, contra 29% do degrau, e maio, o mês do áudio, tem 236. Na Gazeta do Povo, Alexandre Garcia escreveu que, "ao aceitar dinheiro de Vorcaro, Flávio Bolsonaro acaba se tornando devedor"; na Veja, José Casado falou do "efeito corrosivo do Master".
O piso não é zero, portanto, por duas razões. A régua mede a matéria, não a simpatia do veículo, e a agenda produz fato ruim para qualquer candidato. E os dois lados criticam o próprio candidato: Lula, pela esquerda; Flávio, por uma direita que tem três outros candidatos. O espelho está na distância até o piso, não no piso.
Os quatro do meio: um degrau diferente
Para Ronaldo Caiado, Zema, Renan Santos e Augusto Cury, a escada tem um degrau só. A imprensa de esquerda é mais dura com os quatro: 16% de matérias negativas para Caiado, contra 5% a 6% nos outros três degraus; 30% para Zema, contra 12%; 27% para Renan Santos, contra 8% a 12%; 12% para Cury, contra 2% a 7%. Centro, direita e extrema-direita tratam os quatro quase igual. Para eles, "depende de quem publica" quer dizer "depende de ser a imprensa de esquerda ou o resto".
Os seis: não depende porque não há tom
Para Rui Costa Pimenta, Edmilson Costa, Samara, Hertz Dias, Wilson Grassi e Clariana Barão, a fatia negativa não passa de 17% em nenhum degrau, e em onze das vinte células com base fica abaixo de 5%. Na extrema-direita, nenhum dos seis chega a 30 matérias, o mínimo para calcular. Não é que a imprensa de esquerda e a de direita concordem sobre eles. É que, como as peças 5 e 6 mostraram, quase ninguém escreve contra nem a favor deles: a cobertura dos seis é neutra em qualquer lugar. A exceção está do lado positivo: na imprensa de esquerda, 33% das matérias sobre Pimenta são positivas, contra 5% no centro. É ali que ele tem voz.
O que a média do degrau esconde
Dois cuidados, os dois contra a leitura fácil do mapa.
O primeiro: o degrau não é uniforme. Dentro da "direita", a Veja, o maior veículo do degrau, sai negativa para Flávio em 27% das matérias e para Lula em 24%. É mais dura com o candidato da direita do que com o da esquerda, e nisso se parece com o centro, onde a Folha tem 18% para Lula e 29% para Flávio. Na outra ponta do mesmo degrau, o Diário do Poder é negativo com Lula em 60% das matérias e com Flávio em 7%; a Gazeta do Povo, em 43% e 21%. Na esquerda, a CartaCapital é branda com os dois, 4% para Lula e 25% para Flávio, e a Revista Fórum é a mais dura com Flávio, 71%. O rótulo diz onde o veículo está. Não diz quanto ele bate.
O degrau não é uniforme: na Veja, Flávio sai negativo mais vezes do que Lula; no Diário do Poder, Lula sai negativo em seis de cada dez
Fatia negativa da cobertura de Lula e de Flávio Bolsonaro, veículo a veículo, nos maiores de cada degrau. 25 de março a 21 de setembro de 2026.
fatia negativa para Lulafatia negativa para Flávio Bolsonaro
Fonte: painel Eleições 2026, pares matéria × candidato em veículos de imprensa com rótulo editorial revisado, 25 de março a 21 de setembro de 2026, lidos em 22/09/2026. O rótulo é do veículo, não da matéria; o tom é o da matéria para cada candidato. Entram os veículos com ao menos 30 matérias de cada um dos dois. Método.
O segundo: a escada de Flávio mudou com a campanha. De maio a julho, os meses do tarifaço e da cobrança de lealdade a Trump, a imprensa de direita saiu negativa para ele em 27% a 39% das matérias. Desde 16 de agosto, em 12%; na extrema-direita, em 8%. A escada de Lula não se moveu: na campanha, 8% na esquerda e 43% na extrema-direita. Uma frase que guardávamos desde o início de setembro, a de que a direita era mais dura com Renan Santos do que com Flávio, só vale para a campanha (19% contra 12%). No período inteiro é o contrário: 12% contra 23%.
O que isto não diz
Não diz que a imprensa de esquerda apoia Lula nem que a Oeste apoia Flávio. Medimos o tom da cobertura, não a intenção de quem publica, e "positivo" na nossa régua inclui o espaço dado à fala sem contraponto, não só o elogio. Também não diz que um lado está certo sobre os candidatos: se as mensagens de Vorcaro comprometem mais um ou outro não é pergunta que o painel responda.
Nem é descoberta do tamanho que parece. Dizer que a imprensa de esquerda é mais dura com Flávio soa como dizer que a água molha. O que os números acrescentam é a medida, e ela tem forma: a escada existe só na notícia (Lula vai de 7% a 36%, Flávio de 45% a 11%) e a opinião a amplia (71% de matérias negativas para Lula na opinião da extrema-direita, 72% para Flávio na opinião da esquerda); a esquerda tem 27 veículos e a extrema-direita, quatro; e o centro, com 133 veículos e 72% das matérias, é onde a diferença entre os dois é menor.
E o classificador erra. Em 287 casos, o mesmo título apareceu em veículos de degraus diferentes; em 49 deles, o tom lido foi diferente. "Lula fala sobre gastos com cachorros em evento com empresários chineses" saiu neutro no Correio Braziliense e negativo em O Antagonista. É ruído de um em seis sobre texto igual, pequeno diante de degraus de 30 e 42 pontos, e está dito.
Ficam fora da escada, por fim, 2.737 matérias de 110 veículos "sem posição declarada", redações locais e de nicho que republicam agências, e 714 de veículos internacionais. A peça 10, na quinta-feira, volta a elas.
Amanhã
Amanhã, a peça 9 mede quanto do que lemos é a mesma notícia: quantas matérias são republicação, de onde saem e quem republica.
As 18 respostas no seu e-mail, semana a semana. Quem assina a newsletter do SapiensLabs recebe, toda terça, o resumo da semana com as respostas publicadas. Sem anúncio, sem afiliado; cancela com um clique.
Como este texto foi feito
Esta é a oitava resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, na janela de 25 de março a 21 de setembro de 2026, e todos foram conferidos antes da escrita. O rótulo editorial de cada veículo segue a rubrica pública do painel, e só entram os veículos revisados por pessoa; o tom de cada matéria é lido por um modelo de linguagem, com a mesma regra para todos e sem saber qual é o veículo. As manchetes citadas foram abertas na fonte em 22 de setembro. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.