Ontem, a peça 4 mostrou onde estão as mulheres das chapas presidenciais: na metade de baixo da cobertura. Hoje ficamos nessa metade e perguntamos de que ela é feita.
A pergunta desta peça entrou no calendário com um "quem" embutido: quem a imprensa só cita em lista? Fomos ao banco procurar esse alguém e não achamos. Nenhum dos doze candidatos aparece só em lista. Todos têm matéria em que são o único nome, todos têm dia de título. A resposta curta é ninguém, e a peça podia acabar aqui.
Não acaba porque, no caminho, apareceu uma escada. No degrau de baixo está a matéria-lista, a que cita cinco candidatos ou mais de uma vez: a pesquisa com todos os nomes, o "veja quem são", a agenda dos presidenciáveis. No degrau do meio, a matéria que cita de dois a quatro. Acima, a que cita um só. E no alto, a medida mais dura de todas: o nome no título. O que muda de um candidato para outro é em que degrau mora a maior parte da cobertura dele.
A régua, antes dos números. A janela vai de 10 de agosto, quando todos passaram a ter a mesma rede de coleta, a 17 de setembro: 39 dias, 23.498 matérias que citam ao menos um dos nomes em disputa. A unidade é o par matéria × candidato, como no resto do painel, e só conta veículo de imprensa: jornal de partido e canal oficial ficam de fora. O ranking é de doze, e não de treze, porque a chapa do PRTB trocou de titular no meio da janela; ela aparece adiante, em separado.
A escada
Das 23.498 matérias, 808 são matéria-lista: 3,4%. É pouco, e para quem lidera a cobertura é quase nada. Das 12.691 matérias que citam Lula, 5,9% são listas. Das 8.473 que citam Flávio Bolsonaro, 8%. A conta sobe devagar entre os de volume intermediário, Augusto Cury com 19,3%, Renan Santos com 23,6%, Ronaldo Caiado com 25,9%, Zema com 32,3%, e então dá um salto. Edmilson Costa, 41,4%. Rui Costa Pimenta, 40,4%. Wilson Grassi, 45,3%. Clariana Barão, 46,5%. Samara, 48,4%. Hertz Dias, 48,9%.
Para seis candidatos, quase metade da cobertura é lista de nomes
De cada 100 matérias que citam o candidato, quantas são lista, quantas citam de dois a quatro nomes e quantas citam só ele. Doze candidatos a presidente, 10 de agosto a 17 de setembro de 2026.
matéria-lista, cinco nomes ou maiscita de dois a quatrocita só ele
Fonte: painel Eleições 2026, pares matéria × candidato em veículos de imprensa, 10 de agosto a 17 de setembro de 2026 (a janela em que todos têm a mesma rede de coleta), lidos em 18/09/2026. Matéria-lista é a que cita cinco candidatos ou mais. A chapa do PRTB, que trocou de titular na janela, fica fora do ranking. Método.
Seis candidatos têm entre 40% e 49% da cobertura em lista. Nenhum passa da metade, e a frase certa é "quase metade", não "a maioria". Testamos se a conta depende do corte: chamando de lista a matéria com quatro nomes ou mais, quatro dos seis passam de 50%; com seis ou mais, nenhum passa de 44%. A ordem dos doze não muda em nenhum dos três cortes. Um registro de casa: o glossário da série dizia que a lista era "a maior parte" da cobertura dos menores. A apuração corrigiu o glossário.
Do que a lista é feita
De pesquisa, sobretudo. Das 808 listas, 503 são matéria de pesquisa eleitoral, 62,3%. O resto é o que o calendário oficial produz: o pedido de registro no TSE, a declaração de bens, o perfil coletivo, o debate, a agenda do dia. Quem mais publica esse tipo de texto são o G1, com 139, e o UOL, com 86.
Isso explica outro traço da lista: ela não julga. Dentro dela, o tom é neutro para todo mundo, de 96,5% a 100% dos pares. Ninguém é elogiado nem criticado numa tabela de intenção de voto. E explica por que a fatia cresceu desde agosto: a campanha oficial multiplicou as pesquisas, e cada pesquisa é uma lista. Somando as listas às matérias de pesquisa com menos de cinco nomes, cinco dos seis passam da metade da cobertura, entre 50,4% e 53,6%. Pimenta fica em 49,6%.
A lista também escolhe
Seria razoável supor que a lista, ao menos, trata todos por igual. Não trata. A mediana é de seis candidatos por lista, e só 71 das 808 trazem os doze. Lula está em 92,8% delas; Flávio, em 84,3%; Caiado, Renan e Zema, entre 74% e 78%; Cury, em 60,5%. Depois o degrau de novo: Edmilson Costa em 37,3%, Pimenta em 35%, Hertz Dias em 34,7%, Grassi em 32,8%, Clariana Barão em 31,8%, Samara em 30,1%. Duas de cada três listas saem sem eles.
A lista também escolhe: duas em cada três saem sem os seis menos cobertos
Em quantas das 808 matérias-lista cada candidato aparece, 10 de agosto a 17 de setembro de 2026.
Fonte: painel Eleições 2026, pares matéria × candidato em veículos de imprensa, 10 de agosto a 17 de setembro de 2026 (a janela em que todos têm a mesma rede de coleta), lidos em 18/09/2026. Só 71 das 808 listas trazem os doze. Método.
E há o título da própria lista. Das 808, 357 nomeiam algum candidato no título, quase sempre para dizer quem lidera a pesquisa. Lula está em 289 desses títulos e Flávio em 255. Os seis, somados, estão em quatro: três de Edmilson Costa, um de Samara. Pimenta, Hertz Dias, Grassi e Clariana Barão, em nenhum.
O nome no título
O título é a régua que mais separa. Medimos assim: em cada matéria que já cita o candidato, o nome pelo qual a imprensa o chama está no título? Lula, Flávio, Zema, Samara, e não Luiz Inácio Lula da Silva. Para Lula, em 78,4% das vezes. Para Flávio, em 79,7%. Cury, 74,4%; Renan, 67%; Caiado, 60%; Zema, 49,2%. E os seis: Grassi 33%, Samara 31,5%, Pimenta 26,8%, Clariana Barão 26%, Hertz Dias 23,9%, Edmilson Costa 18,3%.
O título é de poucos: os seis menos cobertos chegam a ele em, no máximo, uma de cada três matérias
Matérias que citam o candidato e trazem no título o nome pelo qual ele é conhecido, em % do total de cada um, 10 de agosto a 17 de setembro de 2026.
Fonte: painel Eleições 2026, pares matéria × candidato em veículos de imprensa, 10 de agosto a 17 de setembro de 2026 (a janela em que todos têm a mesma rede de coleta), lidos em 18/09/2026. Conta-se o nome corrente do candidato (Lula, Flávio, Zema, Samara) no título de matéria que já o cita. Método.
Dito de outro modo: quando Lula aparece numa matéria, quatro em cada cinco vezes ela é sobre ele. Quando Edmilson Costa aparece, menos de uma em cinco. Nenhum dos doze passou um dia da janela sem ser citado. Mas Wilson Grassi passou 16 dos 39 dias sem um título com o nome dele, e Edmilson Costa, 13.
As três medidas contam a mesma distância com tamanhos diferentes. Em volume total, Lula tem 25 matérias para cada uma de Samara, a menos coberta dos doze. Tirando as listas, 46 para uma. Contando só título, são 75 de Lula para cada uma de Edmilson Costa. A lista é o gênero mais igualitário da cobertura: é onde a distância entre o primeiro e o último é menor. Tire-a, e a distância quase dobra.
Fora da lista, o que sobra para os seis tem uma marca própria. A cobertura de Edmilson Costa fora das listas é neutra em 96,5% dos pares; a de Hertz Dias, em 88,4%. A de Lula, em 65,8%; a de Flávio, em 60,6%; a de Renan Santos, em 42,5%. Quem é muito coberto é elogiado e atacado. Quem é pouco coberto tem a agenda e o plano de governo anotados, e quase nada além disso.
A chapa que mudou no meio
O PRTB registrou Pablo Marçal, o TSE indeferiu o registro em 11 de setembro, e desde o dia 16 o titular é Leonardo Avalanche. Marçal, até 15 de setembro, tinha perfil de candidato grande: 15,9% de lista e o nome em 79,6% dos títulos. Avalanche tem dois dias de janela e fica fora da comparação, como manda a regra que o painel adotou no dia da troca.
O que isto não diz
Não diz que os seis mereciam mais, nem que a imprensa os esconde. A peça 1 mostrou que o volume de cobertura segue o tamanho da candidatura, e nada aqui desmente isso. O que a escada acrescenta é o tipo de presença. Para metade dos candidatos, aparecer na imprensa é, quase metade das vezes, estar numa linha de tabela: o nome, o partido, o percentual. É presença, e conta como cobertura no painel de qualquer um, inclusive no nosso. Só não é a mesma coisa que ser assunto.
Amanhã
Amanhã, a peça 6 sobe mais um degrau: entre os que chegam ao título, quem tem a palavra e quem é só assunto.
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Como este texto foi feito
Esta é a quinta resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, na janela de 10 de agosto a 17 de setembro de 2026, e todos foram conferidos antes da escrita. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.