Ontem, a peça 8 mostrou que o tom de uma matéria muda com quem publica. Hoje a pergunta é anterior a essa: quantas vezes o que se publica é a mesma matéria?
A resposta curta é uma em dez, e é um piso. Para os dois candidatos mais cobertos, menos que isso. Para os menos cobertos, uma em quatro. E o texto que mais se repetiu na campanha inteira não saiu de um jornal: saiu da redação de uma agência pública.
Primeiro, a régua. Chamamos de manchete repetida o título que aparece, igual, em dois ou mais veículos com até sete dias de intervalo. "Igual" depois de uma limpeza: tiramos as aspas, a caixa alta e, sobretudo, o nome do veículo que os sistemas de publicação grudam no fim do título ("PSTU oficializa candidatura de Hertz Dias à Presidência da República | Agência Brasil", "… - Jovem Pan", "… – CartaCapital"). Sem essa limpeza, a conta cai de 9,7% para 4,1%: mais da metade da diferença entre "quase nada" e "uma em dez" é o nome do veículo, não a notícia. E a conta que sobra é um piso, porque quem reescreve o título, ainda que de leve, sai da régua. A Exame publicou o mesmo despacho sobre Hertz Dias com o título "PSTU oficializa candidatura de Hertz Dias à Presidência", sem "da República", e por isso não está no grupo. A régua inteira está no método; a unidade aqui é a matéria, não o par matéria × candidato das peças anteriores.
Uma em dez, e a cópia é rápida
O acervo tem 83.772 matérias de imprensa, de 25 de março a 22 de setembro. Para cada manchete, juntamos todas as matérias que a publicaram igual, em veículos diferentes, com até sete dias de intervalo; a esse conjunto chamamos grupo. Achamos 3.077 grupos, que somam 8.139 matérias: 9,7% do acervo, ou uma em dez. A maior parte dos grupos é pequena: em 2.373 deles, a manchete saiu em dois veículos; em 411, em três. É o jornal e o parceiro que o republica. Os grupos de cinco ou mais veículos, os que dão nome a esta peça, são 145 e reúnem 1.222 matérias; 26 deles passam de dez veículos. É neles que a mesma notícia deixa de ser uma parceria entre dois e vira um despacho para muitos.
A campanha repete mais. Em março, 8,2% das matérias estavam num grupo; em agosto, 10,0%; em setembro, 11,6%. Desde 16 de agosto, 10,8%.
E a cópia é rápida. Entre a primeira matéria do grupo e as seguintes, a mediana é de 2,9 horas; 69% das cópias saem em até seis horas, 93% em até um dia. Não é o arquivo sendo requentado: é o despacho chegando.
Para quem: os menos cobertos
A fatia de manchete repetida cresce conforme o candidato some da cobertura. Nas matérias que citam Lula, 7,5% estão num grupo; nas que citam Flávio Bolsonaro, 8,9%. Nas de Ronaldo Caiado, Zema e Renan Santos, entre 11% e 12%; nas de Augusto Cury, 16,5%. Nas de Edmilson Costa, 28,2%; Hertz Dias, 25,9%; Samara Martins, 24,1%; Leonardo Avalanche, 23,0%; Wilson Grassi, 20,6%; Rui Costa Pimenta, 20,0%; Clariana Barão, 19,9%.
Para os candidatos menos cobertos, de 20% a 28% das matérias são uma manchete repetida. Para Lula, 8%
Fatia das matérias que citam cada candidato a presidente cujo título aparece, igual, em outro veículo. 83.772 matérias, 2.016 veículos, 25 de março a 22 de setembro de 2026.
em cinco ou mais veículosem dois a quatro
Fonte: painel Eleições 2026. 83.772 matérias de 2.016 veículos de imprensa. 25 de março a 22 de setembro de 2026. lidas em 23/09/2026. Manchete repetida = o mesmo título. sem o nome do veículo. em dois ou mais veículos com até sete dias de intervalo; a reescrita leve do título escapa. então a conta é um piso. Método.
A diferença é maior do que parece, porque a matéria de Lula que se repete se repete em dois ou três veículos, quase sempre um parceiro de conteúdo, e a de Hertz Dias se repete em vinte. Em grupos de cinco ou mais veículos estão 0,3% das matérias de Lula e 0,8% das de Flávio; 15,8% das de Edmilson Costa, 13,5% das de Hertz Dias, 12,2% das de Samara Martins.
Um caso mostra o mecanismo. Em 31 de julho, o PSTU oficializou a candidatura de Hertz Dias. A Agência Brasil, a agência pública de notícias, publicou "PSTU oficializa candidatura de Hertz Dias à Presidência da República". O mesmo título saiu em 45 veículos: o vídeo do Jornal Nacional no g1, a Jovem Pan, a CartaCapital, o Diário de Santa Maria, o NSC Total, o Diário Carioca, o Jornal Opinião, dezenas de portais regionais. A Jovem Pan e a CartaCapital, que a peça 8 encontrou em degraus opostos da escada editorial, publicaram o mesmo texto, com o mesmo título, no mesmo dia, e as duas com o crédito da agência no corpo. É o maior grupo de manchete repetida do acervo.
Isso acrescenta uma linha à peça 5. Lá, separamos a matéria-lista, que cita cinco ou mais candidatos, da cobertura própria, e dissemos que, fora das listas, o que sobra para os menos cobertos é a agenda e o plano de governo anotados. Agora dá para medir de que é feita essa anotação: fora das listas, 35,0% das matérias de Edmilson Costa, 32,7% das de Hertz Dias e 28,7% das de Samara Martins são manchete repetida. Um terço da cobertura própria dos menos cobertos é a mesma matéria, publicada muitas vezes. Nas de Lula, 7,4%.
Os maiores grupos
Dos vinte maiores grupos do acervo, dezenove trazem no corpo a marca da Agência Brasil, e quase todos falam dos candidatos menos cobertos: a oficialização de Hertz Dias (45 veículos), a de Edmilson Costa pelo PCB (31), a de Augusto Cury pelo Avante (27), a proposta de Samara Martins de dobrar o salário mínimo (23, no domingo passado), a apresentação de Hertz Dias como "professor de história" (22), a de Samara Martins pela Unidade Popular (21), a de Rui Costa Pimenta pelo PCO (19). O único dos vinte sem a marca é do Metrópoles, sobre o TSE formar maioria contra Pablo Marçal, republicado por portais parceiros.
Os vinte maiores grupos: 19 trazem a marca da Agência Brasil, e quase todos falam dos candidatos menos cobertos
Os grupos de manchete repetida com mais veículos, 25 de março a 22 de setembro de 2026. Cada linha é um título; a barra conta os veículos que o publicaram igual.
o corpo traz a marca da Agência Brasiloutra agência, ou sem marca
Fonte: painel Eleições 2026. 83.772 matérias de 2.016 veículos de imprensa. 25 de março a 22 de setembro de 2026. lidas em 23/09/2026. Manchete repetida = o mesmo título. sem o nome do veículo. em dois ou mais veículos com até sete dias de intervalo; a reescrita leve do título escapa. então a conta é um piso. A marca é a citação da agência no corpo de ao menos uma das matérias do grupo; matéria sem corpo coletado não a mostra. Método.
Desde o fim de agosto, a agência publica um boletim diário, "Confira como foi a sexta-feira (4) dos candidatos a presidente", "Veja como foi a quarta-feira (16) dos presidenciáveis", que dá a agenda dos treze com o mesmo espaço para cada um. Cada boletim vira um grupo de dez a doze veículos, do Giro Tapajós, no Pará, ao Acessa.com, em Minas. É por ele que setembro repete mais que março, e é nele que Lula e Flávio entram nos grupos grandes: não por matérias sobre eles, mas por matérias sobre todos. O maior grupo que tem os dois como assunto é do Estadão, "Tarcísio de Freitas diz que Flávio Bolsonaro pode vencer Lula no primeiro turno", com nove veículos em abril, pela Estadão Conteúdo.
Dos 145 grupos de cinco ou mais veículos, 135 trazem a marca de alguma agência no corpo de ao menos uma matéria: 76 a da Agência Brasil, 68 a da Estadão Conteúdo, 23 as das agências do Senado e da Câmara, 22 uma agência internacional, 6 a Folhapress. A mesma notícia em cinco jornais é, quase sempre, um despacho.
Quem repete e de onde vem
Entre os 70 veículos com ao menos cem matérias no acervo, o que mais publica manchete que já saiu em outro é a Folha de Pernambuco: 57% das matérias dela sobre a eleição. Depois vêm o Jornal de Brasília e O Povo, com 36%; o Terra, com 31%; a Tribuna do Sertão e O Dia, com 24%; o Money Times, com 21%; o Midiamax, com 20%. O Jornal de Brasília é o caso mais claro, e o mais legítimo: assina a Folhapress e a Estadão Conteúdo, e 610 das 1.690 matérias dele vieram por aí, 319 da Folha. Em 22 de setembro, a Folha publicou "Na ONU, Lula critica ingerência externa nas eleições, sem mencionar EUA"; 32 minutos depois, o Jornal de Brasília publicou o mesmo título (a Folha trocou o dela depois, para "Brasil não cabe no quintal de ninguém, diz Lula na ONU"; o Jornal de Brasília ficou com o original).
Quem mais repete é a imprensa regional e os portais; de onde vem é das agências, com a Estadão Conteúdo e a Agência Brasil na frente
À esquerda, os veículos com ao menos 100 matérias e a maior fatia de manchete que já saiu antes em outro veículo. À direita, os grupos de manchete repetida cujo corpo cita cada agência. 25 de março a 22 de setembro de 2026.
Fonte: painel Eleições 2026. 83.772 matérias de 2.016 veículos de imprensa. 25 de março a 22 de setembro de 2026. lidas em 23/09/2026. Manchete repetida = o mesmo título. sem o nome do veículo. em dois ou mais veículos com até sete dias de intervalo; a reescrita leve do título escapa. então a conta é um piso. A BBC News Brasil, que apareceria na lista da esquerda, ficou fora: as matérias dela chegam ao acervo pelo Correio Braziliense, que as republica com crédito, antes da própria BBC. A ordem de chegada ao acervo não é autoria. Método.
Na outra ponta, as redações que produzem quase não repetem: Veja, O Antagonista, Diário do Centro do Mundo, Poder360, Metrópoles, CNN Brasil, O Globo, g1 e Folha ficam entre 0,6% e 2% de cópia. A UOL, com 12,6%, é a exceção entre os grandes, pela Estadão Conteúdo.
Quem copia tem perfil. Das 5.062 cópias, 40% saíram de veículos de alcance regional, que são 19% do acervo; 18% saíram dos veículos "sem posição declarada" da nossa rubrica, os portais locais e de nicho que a peça 8 deixou fora da escada, e que são 7% do acervo. E de onde vem: pela marca no corpo, a Estadão Conteúdo está em 639 grupos, as agências internacionais em 542, a Agência Brasil em 471, a Folhapress em 465, as agências do Senado e da Câmara em 200. A Estadão Conteúdo abastece o dia a dia; a Agência Brasil abastece a cobertura dos candidatos que as outras redações não cobrem com repórter próprio.
O que isto não diz
Não diz que alguém plagiou. Republicar despacho de agência, com crédito, é o serviço que a agência vende, ou, no caso da Agência Brasil, oferece. A palavra da peça é "repetida", não "copiada de má-fé".
Não diz quem escreveu primeiro. A "origem" que o painel enxerga é a matéria mais antiga do grupo no acervo, e isso não é autoria: a agência pode ter entrado no acervo depois das cópias, como aconteceu com a Agência Brasil no caso de Hertz Dias, e 630 matérias do acervo não têm hora, só data, o que as faz parecer as primeiras do dia. A BBC News Brasil, por exemplo, apareceria na lista de quem repete, porque as matérias dela chegam ao acervo pelo Correio Braziliense, que as republica com crédito, antes da própria BBC. Tiramos a BBC do gráfico e dizemos por quê. Onde o texto afirma de onde a matéria veio, é a marca da agência no corpo que afirma, não a hora.
Não mede a reescrita. Duas redações que reescrevem o mesmo despacho com títulos diferentes contam como duas matérias próprias. Por isso tudo aqui é piso: a repetição real é maior do que uma em dez, e não sabemos quanto.
E há uma consequência para a própria série. Quando o mesmo texto sai em vinte veículos, o classificador de tom lê vinte vezes a mesma coisa, e em 86,6% dos casos dá o mesmo tom em todas (os 13% restantes são o ruído que a peça 8 já contou). Para os candidatos menos cobertos, portanto, o tom que medimos nas peças 5, 6 e 8 é, em boa parte, o tom de poucos textos contados muitas vezes. Não muda o resultado, que era neutro; muda o que ele significa. Não é que muitas redações olharam para Edmilson Costa e não viram nada a dizer. É que poucas olharam, e as outras publicaram o que aquelas mandaram.
Amanhã
Amanhã, a peça 10 pergunta de onde o Brasil escreve sobre a eleição: em que estado fica cada um dos 2 mil veículos do acervo, qual o alcance, e quem é coberto de onde.
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Como este texto foi feito
Esta é a nona resposta de 18 respostas sobre a imprensa, uma série diária do painel Eleições 2026. Os números vêm do banco do painel, na janela de 25 de março a 22 de setembro de 2026, e todos foram conferidos antes da escrita. A manchete repetida é o mesmo título, sem o nome do veículo, em dois ou mais veículos com até sete dias de intervalo; a reescrita leve do título escapa, então toda conta aqui é um piso. As manchetes citadas foram abertas na fonte em 23 de setembro. O texto é escrito por Claude Fable 5.1 (Anthropic) em sessão, com apuração, critérios e revisão humanos, e publicado por Leonardo Fontes de Sales. Como cada peça nasce, o que os números medem e não medem e o glossário dos termos da casa estão em Como a série é feita. Licença CC BY 4.0.