Um presidente que também é candidato dispõe de instrumentos que nenhum adversário tem, e entre 21 e 27 de setembro Lula usou dois em sequência: a tribuna da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, e a caneta da medida provisória que proibiu as bets e os cassinos online a nove dias do primeiro turno. A imprensa cobriu os dois gestos pelo que eles são, atos de governo em plena reta final, e essa ambiguidade, entre governar e fazer campanha, deu o tom da semana.
Em volume, o discurso na ONU foi o maior fato do período: 419 matérias, contra 41 na janela anterior. A proibição das bets veio logo atrás, com 299 matérias em um tema que na semana passada tinha exatamente uma. Somados, os dois assuntos explicam boa parte do salto do painel, que registrou 4.785 matérias distintas, contra 4.025 na semana anterior pela mesma conta, 19% a mais. As 7.792 menções (a soma passa o total de textos porque uma em cada três matérias cita mais de um nome) ficaram concentradas como sempre: Lula e Flávio Bolsonaro respondem por quase dois terços delas.
A semana de Flávio foi o negativo fotográfico da de Lula. Enquanto o adversário produzia agenda, ele respondeu. O caso Banco Master, em torno do banco liquidado de Daniel Vorcaro, voltou a crescer, de 91 para 241 matérias, 157 delas com o nome dele. E na sexta-feira, 25, entrou na corrida um boato: o de que Flávio pretendia tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, o que ele negou e levou à Justiça. Foram 80 matérias até domingo. Quem passa o fim da semana desmentindo boato não escolhe o assunto do dia.
| Candidato | Artigos | Saldo |
|---|---|---|
| Lula | 3.182 | -1 pp |
| Flávio Bolsonaro | 1.938 | -12 pp |
| Augusto Cury | 504 | +17 pp |
| Ronaldo Caiado | 410 | +12 pp |
| Renan Santos | 400 | +21 pp |
| Romeu Zema | 373 | +7 pp |
| Edmilson Costa | 169 | 0 pp |
| Rui Costa Pimenta | 155 | +2 pp |
| Clariana Barão | 144 | +2 pp |
| Samara Martins | 144 | +2 pp |
| Hertz Dias | 143 | +4 pp |
| Wilson Grassi | 119 | +1 pp |
| Leonardo Avalanche | 111 | 0 pp |
A caneta e a tribuna
Com 3.182 artigos, 27% a mais que na semana anterior, Lula segue o nome mais coberto do painel, mas o dado interessante é o tom: a cobertura negativa caiu de 18,6% para 17,0% e a positiva também recuou, de 19,3% para 15,9%. O resultado é uma semana mais neutra (67,1% dos textos), em boa parte pelo peso das pesquisas, que somam 3.017 menções temáticas e fazem "Quaest" figurar em 7% das manchetes sobre ele. Já onde há juízo explícito, o quadro muda: nas 146 peças de opinião o sentimento médio foi -0,24, contra 0,0 nas 2.677 notícias. É uma cobertura noticiosa morna com uma coluna de opinião pesada por cima.
E essa opinião tem endereço. As manchetes de maior carga negativa contra o presidente vieram da imprensa de direita, três delas de colunistas da Gazeta do Povo: Alexandre Garcia acusou a campanha de blasfêmia por envolver Nossa Senhora Aparecida na eleição, e Paulo Briguet e Luís Ernesto Lacombe publicaram vereditos antecipados, "O Brasil não aguenta mais você, Lula" e um pedido de expurgo do Planalto; o Diário do Poder leu o Desenrola 3.0, programa de renegociação de dívidas anunciado junto com a proibição das bets, como compra de votos com dinheiro do Tesouro; O Antagonista resumiu o argumento em uma linha sobre confiança. Do outro lado, o discurso na ONU foi lido como defesa institucional: a Conectas, organização de direitos humanos, destacou que ele colocou a integridade do processo eleitoral brasileiro no centro da mensagem.
Flávio Bolsonaro: Vorcaro, Nossa Senhora e um quarto da cobertura em campo negativo
Foram 1.938 artigos, 38% mais que na semana anterior, com a fatia negativa saltando de 17,6% para 25,0% e a positiva caindo para 12,7%. Um em cada quatro textos sobre o candidato do PL foi negativo, a mesma proporção de duas semanas antes (25,6%). Os termos das manchetes explicam por quê: "Vorcaro" aparece em 8% delas (cerca de 150 manchetes) e a expressão "nossa senhora" em 104 (5%). O elo com Vorcaro virou objeto de checagem, e a agência Aos Fatos contabilizou que ele mentiu ao menos 43 vezes sobre o assunto. No Estadão, Eliane Cantanhêde antecipou "novas revelações" sobre o caso; o Diário do Centro do Mundo, segundo maior veículo em volume na cobertura dele com 124 artigos, foi ao limite da hipótese numa coluna que trabalha com a possibilidade de Vorcaro ter sido laranja de Flávio.
O boato sobre Nossa Senhora foi coberto em espelho. No TSE, o ministro André Mendonça mandou as redes sociais derrubarem a notícia falsa; no domingo, 27, Flávio Dino anulou a decisão no STF e liberou as publicações, e a campanha de Flávio acusou Dino de usurpar a função do tribunal eleitoral. A Revista Fórum registrou que Flávio reagiu à repercussão insultando a Globo, e a campanha de Lula foi acusada, à direita, de explorar o caso, como na coluna da Gazeta citada acima. Cada campo acusou o outro de ter levado a santa para a disputa, e o boato terminou a semana como um choque entre dois ministros do Supremo, que o UOL chamou de racha. Há ainda uma assimetria de fundo: 18,1% da cobertura sobre Flávio saiu de veículos de esquerda (contra 9,7% de direita), o inverso do que ocorre com Lula. Na opinião, o sentimento médio foi -0,38, contra -0,07 nas notícias.
O pelotão do meio e o teste das bets
A medida provisória das bets funcionou como pergunta de prova para os adversários, e três dos quatro nomes do pelotão do meio deram a mesma resposta: oportunismo. Ronaldo Caiado chamou a decisão de oportunista e defendeu restrição gradual, além de chamar as apostas de "doença" em Goiânia; Romeu Zema falou em "aberração eleitoral"; Renan Santos, em "manobra eleitoreira". Augusto Cury foi o único do grupo a não atacar a medida, ao defender em Belo Horizonte o fim das bets ou taxação maior. Uma régua antes dos números: o painel mede o tom da cobertura sobre cada candidato, não o teor do que ele diz, então a matéria em que um adversário ataca o presidente entra negativa para Lula e positiva para quem ataca.
Isso ajuda a ler os quatro. Cury foi o mais coberto do pelotão, com 504 artigos (+65%) e 21,0% de positivos, mas apareceu também um foco negativo próprio, os contratos da empresa da filha com prefeituras, tratados pelo Blog do BG, pelo BNews e pelo DCM, além de uma avaliação cética das propostas dele na Veja. Caiado teve 410 artigos, mas a fatia positiva dele caiu de 31,6% para 13,2%: a semana anterior, puxada pela agenda de segurança pública, deu lugar a uma cobertura mais protocolar (85% neutra), com crítica pontual da esquerda à proposta dele de escolas cívico-militares. Renan Santos ficou praticamente estável (400 artigos, +7%) com 23,8% de positivos, o melhor saldo relativo do grupo, mas colheu registros negativos em Salvador, incluindo o endosso à fala de um aliado sobre chacina. Zema, com 373 artigos, viu o negativo subir de 4,8% para 7,2%, puxado pela decisão do presidente do TSE, Nunes Marques, que o mandou apagar um vídeo feito com IA mostrando Lula e ministros do STF presos. Na segunda metade da semana, a pressão veio do próprio partido: candidatos do Novo passaram a apoiar Flávio já no primeiro turno, com o aval de Zema, e ele publicou no sábado, 26, um vídeo reafirmando a candidatura. Segundo o Estado de Minas, o Novo decide até segunda-feira, 28, se o mantém na disputa.
Os sete do fim da tabela e o debate que não houve
Do sétimo lugar para baixo, a cobertura continua sendo majoritariamente a de agenda coletiva, como mostramos no levantamento de 19 de setembro: nas manchetes de cinco dos sete (Edmilson Costa, Rui Costa Pimenta, Hertz Dias, Wilson Grassi e Leonardo Avalanche), "Lula" e "Flávio" aparecem, cada um, em mais de um terço; nas de Clariana Barão, em cerca de um terço, e nas de Samara Martins, em uma de cada cinco. Expressões de roteiro, como "confira agenda", se repetem. Edmilson (169 artigos) e Avalanche (111) fecharam a semana sem um único texto positivo ou negativo: 100% neutros. Há exceções que rendem conteúdo próprio, como Rui Costa Pimenta defendendo o fim da PM e a legalização das drogas no SBT News, Samara Martins propondo dobrar o salário mínimo, Hertz Dias em defesa das universidades públicas e Clariana Barão, uma das duas mulheres que encabeçam as 13 chapas registradas no TSE, acusando Cury de misoginia.
O debate que fecharia a janela não aconteceu. A Record cancelou o encontro do domingo 27 na quarta-feira, 23, depois que Lula e Flávio recusaram o convite, e Renan Santos chamou o cancelamento de "boicote eleitoral". Restaram encontros menores, como o do Canal MyNews, em que Wilson Grassi disse que "cassino é bem melhor que a bet". O último debate antes do voto, o da Globo, em 1º de outubro, virou disputa de convite. A emissora chamou quatro candidatos, Lula, Flávio, Cury e Caiado, pela regra que garante vaga a partidos com ao menos cinco parlamentares eleitos em 2022. Renan prepara protesto se ficar de fora, e um grupo de candidatos divulgou nota de desagravo por falta de isonomia eleitoral. No domingo, 27, Flávio confirmou que vai ao debate, e Lula, até o fim da semana, não havia confirmado.
A semana nas agendas globais
Geopolítica dobrou de tamanho e liderou as seis agendas globais que o painel acompanha, com 618 artigos (eram 303), e 522 deles passam por Lula. É sobretudo o efeito da ONU; a negociação tarifária ficou estável, em 25 matérias, e o g1 registrou que Brasil e Estados Unidos se reuniram na OMC com prazo de 60 dias para um acordo. Democracia veio em segundo, com 543 artigos e queda de 16%, e a causa é identificável: a crise no Supremo em torno da investigação de Alexandre de Moraes, que rendera 444 matérias na semana anterior, caiu para 43. Dentro desse tema, ela foi de 327 matérias para 22, e a queda só não foi maior porque entraram assuntos novos, o discurso na ONU (116) e o boato sobre Nossa Senhora (43). As suspeitas de interferência dos Estados Unidos na eleição dobraram, para 40 matérias: em Nova York, Lula disse ver indícios de tentativa de interferência, a campanha dele acionou o STF e o TSE, e Renan Santos, que faz a mesma denúncia, acusou Flávio de receber apoio de perfis dos EUA e levou o caso ao TSE.
Inteligência Artificial cresceu 41% e chegou a 148 artigos, 112 deles com Lula. O maior fio é o da ONU: no discurso, o presidente defendeu regras globais para a inteligência artificial e a regulação das big techs. O segundo é o dos conteúdos sintéticos da campanha: além do vídeo que Zema teve de apagar por ordem do presidente do TSE, o TSE mandou Flávio apagar um vídeo feito com IA sobre o filho de Lula, e a Lupa mostrou que era falso um áudio de Renan Santos com Vorcaro. Sobre propostas, o Poder360 mostrou que os planos de governo registrados no TSE não atendem às recomendações para o setor.
No pé da tabela global, Clima teve 59 artigos, mais que o dobro da semana anterior, mas quase nada diante das 4.785 matérias da janela, e a pauta apareceu também em veículos independentes, como o levantamento do Periferia em Movimento sobre as propostas para a crise climática. Energia caiu 57%, para 32 artigos. Bioeconomia somou 19, com destaque para o fundo de florestas tropicais que chegou a US$ 7,3 bilhões. A uma semana do voto, a agenda ambiental aparece como assunto de governo, não de disputa eleitoral.
Panorama midiático e narrativas dominantes
A cobertura seguiu ancorada no centro (67,7% dos artigos sobre Lula, 63,2% sobre Flávio), e CNN Brasil, UOL, Poder360, InfoMoney e g1 foram os veículos que mais escreveram sobre o presidente. A diferença relevante está na composição do negativo. Contra Lula, a imprensa de direita e de extrema-direita pesa mais que o dobro do que pesa no total: responde por 36% dos textos negativos sobre ele, contra 15% da cobertura inteira. Contra Flávio, a desproporção é da esquerda: 34% do negativo, contra 18% do total, com veículos como o Brasil 247, que o associou ao "perigo das milícias no poder". Nos dois casos, a maior parte do negativo sai de veículos de centro e do noticiário comum, não de colunas de opinião.
O que dominou tudo, mais uma vez, foi pesquisa eleitoral, o tópico mais frequente na cobertura de Lula e na de Flávio. O que ficou de fora é notável para uma reta final: propostas comparadas apareceram de forma organizada em poucos lugares, como a apuração da Folha de S.Paulo mostrando que a maioria dos presidenciáveis apoia a reforma tributária com ajustes pontuais e o levantamento do g1 sobre o que os candidatos defendiam para as apostas on-line antes da proibição. Houve ainda um fato externo que entrou na corrida pela lateral: o acidente de helicóptero que matou o cantor Rick, em que morreu também um conselheiro da campanha de Augusto Cury, rendeu 40 matérias que tocam a disputa.
Observações finais
A semana mostrou os dois nomes mais cobertos do painel em regimes opostos: Lula produzindo fatos de governo que a imprensa é obrigada a cobrir (a ONU e a proibição das bets, os dois maiores acontecimentos do período, somam 718 matérias), e Flávio Bolsonaro respondendo a fatos produzidos por outros, do Banco Master ao boato sobre Nossa Senhora. Nos dois casos, as pesquisas ocupam o espaço que caberia às propostas, e a proibição das bets foi o raro momento em que vários candidatos se posicionaram sobre a mesma medida. Falta uma semana, e o debate da Globo, em 1º de outubro, é o último encontro antes do voto.
Um aviso aos leitores: esta é a penúltima edição do resumo a acompanhar todos os candidatos. A última sai na próxima segunda-feira, 5 de outubro, logo depois do primeiro turno, marcado para domingo, 4. Se houver segundo turno, as edições seguintes passam a cobrir apenas os dois finalistas.
Fontes consultadas
89 links · 61 veículos
A Crítica (Campo Grande)
Agência Brasil
BNews
Blog do Amarildo
Brasil 247
Brasil de Fato
CNN Brasil
CartaCapital
Diário do Centro do Mundo
Diário do Poder
Estado de Minas
Estadão
Folha de S.Paulo
Gazeta do Povo
InfoMoney
Jornal de Brasília
O Antagonista
Pleno.News
Polêmica Paraíba
Pravda (em português)
R7
Revista Fórum
SBT News
Tribuna do Sertão
UOL
africas.com.br
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blogdobg.com.br
boca.com.br
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folhadoestado.com.br
g1
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mistobrasil.com
ofatomaringa.com
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- PEB NAS URNAS: RENAN SANTOS (MISSÃO) – Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil
- PEB nas Urnas 2026: Rui Costa Pimenta (PCO) – Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil
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Como esse resumo foi feito
Este texto é gerado a partir do banco de dados do projeto Eleições 2026, que monitora continuamente a cobertura da imprensa brasileira sobre os candidatos à Presidência. Na semana de 21 a 27 de setembro, o sistema coletou artigos de dezenas de veículos — portais de notícias, agências, blogs e imprensa regional — via Brave Search, feeds RSS, Google News e sitemaps de portais jornalísticos.
O processo tem quatro etapas automatizadas: (1) coleta e normalização dos artigos por coletores rodando cinco vezes por dia em servidor dedicado; (2) verificação anti-falso-positivo por DeepSeek V4.1 Flash, que remove menções fora de contexto eleitoral; (3) classificação de sentimento por candidato, extração de tópicos e classificação de gênero jornalístico pelo mesmo modelo, com DeepSeek V4 Flash e GLM 5.3 Flash como reservas quando o titular está indisponível; (4) geração do texto editorial por Claude Opus 5 com raciocínio estendido, tendo como contexto obrigatório os posts anteriores desta série.
Uma nota sobre como ler o tom: o painel mede a cobertura sobre cada candidato, não o teor do que ele diz. Uma matéria em que um candidato acusa outro costuma ser negativa para quem é acusado e positiva para quem acusa, que nela aparece como protagonista da denúncia. O mesmo texto entra na conta dos dois com sinais opostos.
O rascunho passa por revisão humana antes da publicação. Números e afirmações factuais são verificados contra o banco de dados — afirmações sem respaldo direto nos dados são removidas ou reescritas. Os links apontam para as fontes primárias mencionadas no texto; quando um veículo é citado sem link, significa que o artigo foi identificado no banco mas não estava acessível publicamente no momento da revisão.
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