Cinco votações nominais em plenário, todas na noite de 12 de agosto, entre 17h49 e 19h48, concentraram praticamente toda a divergência aberta da Câmara no mês. No conjunto do mês, a Casa somou 528 votações, com 519 aprovações e nove rejeições, uma taxa de sucesso de 98,3%; fora a noite de 12 de agosto, nada foi disputado em placar nominal. E o eixo do conflito se deslocou: depois de dois meses em que mineração, demarcação de terras indígenas e limites de áreas protegidas rachavam o plenário no eixo socioambiental, a fratura de agosto apareceu no terreno tributário, em torno de renúncias de receita no setor de energia. Com uma diferença relevante: a divisão passou por dentro da direita, não entre direita e esquerda.
A tensão do mês: o PLP dos Combustíveis e uma bancada de direita partida ao meio
A matéria que puxou o atrito foi o Projeto de Lei Complementar nº 114, de 2026, que estabelece regras de renúncia de receita para amortecer os efeitos econômicos do choque no mercado internacional de energia decorrente do conflito no Oriente Médio. O substitutivo reformulado adotado pela relatora na Comissão de Minas e Energia passou por 318 votos a 113, com uma abstenção, em um plenário com 432 presentes. O apoio veio de todos os lados, mas em intensidades muito distintas: 95,6% dos deputados de centro votaram a favor (86 a 4) e 88,5% da esquerda também (100 a 13), enquanto a direita se dividiu, com 132 votos favoráveis contra 96 contrários, ou 57,9% de adesão.
Foi nas emendas de plenário, porém, que a divisão ficou mais nítida. Nove minutos depois da aprovação do substitutivo, o conjunto das emendas foi rejeitado por 275 a 108, com um plenário já reduzido a 384 votantes: a esquerda não registrou um único voto favorável (98 contra) e o centro deu apenas 13,9% de apoio, enquanto a direita ficou em 47,1% — 97 a favor e 109 contra. Às 18h07, a Emenda de Plenário nº 1 caiu por 233 a 105, com 338 presentes, na votação mais divisiva do mês pelo índice do Monitor (0,574): centro com 12,7% de apoio, esquerda com 1,1% e direita com 53,7%, uma maioria simples dentro do próprio bloco em sentido oposto ao dos demais. As rejeições preservaram o texto negociado na comissão.
O pico de divisividade de agosto (0,574) ficou bem abaixo do de julho (0,778) e do de junho (0,782). Não foi um mês de plenário mais unido, foi um mês em que a clivagem deixou de ser entre blocos e passou a ser interna a um deles.
Diferente do que se observou em julho, quando parte das pautas divisivas circulou apenas em veículos especializados, o PLP 114 teve ampla repercussão. A aprovação foi noticiada pelo JOTA, que destacou a combinação de freio para gastos e ampliação de benefícios fiscais, pela CNN Brasil, pelo Poder360, que tratou os acréscimos ao texto como “jabutis” fiscais. A própria Frente Parlamentar de Energia, em nota no seu site, apresentou o resultado como fruto de acordo entre governo e Congresso. Folha de S.Paulo e Estadão vinham acompanhando o desenho do relatório e o plano de desoneração de diesel e gasolina desde antes da votação. Sobre a natureza fiscal da matéria, o que o dado sustenta é a categoria: trata-se de renúncia de receita, com ampliação de benefícios, sem que o registro legislativo permita cravar valores de impacto.
A segunda frente de atrito foi o Projeto de Lei Complementar nº 230, de 2025, que altera a Lei de Responsabilidade Fiscal para vedar a limitação de empenho e de movimentação financeira das despesas do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações. O substitutivo da relatora na Comissão de Finanças e Tributação foi aprovado às 19h48 por 333 a 91, com 424 votantes, e produziu o inverso da configuração anterior: centro (93,0%) e direita (90,4%) praticamente unidos, e a esquerda isolada e dividida, com 46 votos favoráveis contra 63 contrários (42,2% de adesão). O índice de divisividade, 0,469, colocou a votação em terceiro lugar no mês. A repercussão ficou restrita à imprensa setorial: o TELETIME noticiou a mobilização de entidades pela aprovação na véspera e a BNamericas tratou o resultado como blindagem do fundo de telecomunicações sob pressão do setor. Uma alteração na LRF que retira despesas do alcance do contingenciamento não chegou à cobertura generalista. O achado é a assimetria entre relevância fiscal e visibilidade.
A matéria votada entre as duas, às 19h11, andou por consenso. O substitutivo ao Projeto de Lei Complementar nº 80, de 2026, que prorroga a não incidência do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante nas navegações de cabotagem, fluvial e lacustre com origem ou destino em portos do Norte e do Nordeste, passou por 327 a 26, com adesão de 98,5% do centro, 93,9% da direita e 85,6% da esquerda. Também na chave fiscal, mas por outra via, a Câmara aprovou o Projeto de Lei nº 5.961, de 2025, que autoriza a criação do Fundo de Crédito à Exportação, permite ao BNDES constituir subsidiárias e controladas e ajusta normas de garantia do Seguro de Crédito à Exportação, antecedido pelo requerimento de urgência nº 3.253, de 2026. A votação não gerou placar nominal registrado. O Broadcast noticiou o envio do texto à sanção e o Correio Braziliense tratou do contexto de estímulo às exportações.
Votações: menos dias de deliberação, ritmo diário idêntico
As 528 votações de agosto ficam 33% abaixo das 784 de julho, mas a comparação direta entre os totais não descreve o mês. Julho teve nove dias com deliberação, todos entre 1º e 20 do mês, porque a sessão legislativa se encerrou em 17 de julho e o recesso constitucional consumiu o restante. Agosto, mês integralmente dentro do calendário legislativo, teve apenas seis dias com deliberação, do dia 3 ao dia 31. A média diária, portanto, praticamente não se moveu: 88,0 votações por dia de deliberação em agosto contra 87,1 em julho. O que caiu foi o número de dias em que a Casa deliberou, não a intensidade do trabalho em cada um deles.
O atrito formal subiu de forma marginal. As nove rejeições de agosto equivalem a 1,7% das votações do mês, contra 1,0% em julho (oito em 784). As votações nominais em plenário passaram de seis para cinco, e as cinco de agosto ocorreram no mesmo dia. O padrão que se repete há meses no Monitor se confirma: a esmagadora maioria das deliberações é processada sem placar disputado, e a temperatura política se condensa em poucas horas. Um detalhe do registro merece nota: o plenário esvaziou e voltou a se encher ao longo da noite de 12 de agosto, de 432 votantes na primeira votação para 338 na terceira e 424 na última.
Discursos: trabalho e tributos no topo, educação em salto, segurança em queda
Nos discursos, Trabalho e Previdência liderou com 47 menções, 13 mais que em julho, seguido por Reforma Tributária e Fiscal, com 33 (+10). A convergência com a pauta do plenário é evidente no segundo caso e no primeiro se apoia no ambiente externo: em agosto circularam a entrevista de Paulo Tafner à Folha de S.Paulo defendendo reforma estrutural do sistema, um artigo do Correio Braziliense sobre os desafios da área para 2027 e a nota da Agência Câmara sobre a mobilização de trabalhadores em torno das regras da aposentadoria especial.
O maior salto proporcional foi de Educação, que triplicou de 9 para 27 menções (+18) sem correspondência em votação nominal de plenário. A cobertura do tema no período também se pulverizou em matérias específicas, como a matéria do Poder360 sobre a aprovação do fim das férias obrigatórias na Copa Feminina de 2027 e a nota do Congresso em Foco sobre o projeto de Kim Kataguiri contra a exigência de diploma para jornalistas.
Do lado das quedas, dois movimentos chamam atenção. Direitos das Mulheres e Família desabou de 104 para 19 menções (–85) e Segurança Pública e Crime recuou de 71 para 25 (–46). Ambos os temas dominavam a tribuna em julho. Parte da queda é calendário, porque agosto teve seis dias com deliberação contra nove de julho, mas a inversão vai além dele: os assuntos que puxavam a retórica antes do recesso perderam espaço na retomada para a agenda econômica e trabalhista. Judiciário e STF, com 27 menções (–4), manteve-se estável e agora empata com Educação.
Alinhamento com o governo: centro sustenta, direita fica em 41%
O índice de alinhamento com a orientação do governo em agosto ficou em 85,4% na esquerda, 68,1% no centro e 41,1% na direita. O número do centro é o dado politicamente mais informativo: é ele que garante a maioria em votações como as do PLP 114 e do PLP 230, e sua taxa de dois terços indica adesão consistente sem incondicionalidade. Na direita, os 41,1% traduzem um bloco majoritariamente em rota diversa da recomendação governista, o que é coerente com a sua divisão nas votações do PLP 114. Já os 85,4% da esquerda não descrevem unanimidade — e o comportamento do bloco no PLP 230, com 46 votos favoráveis e 63 contrários, foi o desvio interno mais visível do mês em placar aberto. Vale a distinção metodológica de sempre: os percentuais por bloco descrevem votos individuais registrados, e não a orientação recomendada pelos líderes, que é outro dado.
CEAP: R$ 1,66 milhão já lançado, e três quartos disso em deslocamento
A cota para o exercício da atividade parlamentar somou R$ 1.662.011,41 em agosto. O número é parcial e tende a subir: o reembolso das despesas do mês recém-encerrado leva semanas para ser processado, de modo que o total consolidado será maior que o aqui observado. Feita a ressalva, a composição do gasto já é informativa.
A maior rubrica, com folga, foi Combustíveis e Lubrificantes, com R$ 866.024,23, ou 52,1% de tudo o que já foi lançado. Vêm depois Manutenção de Escritório de Apoio à Atividade Parlamentar, com R$ 319.636,22 (19,2%), e Locação ou Fretamento de Veículos Automotores, com R$ 263.494,10 (15,9%). Em seguida aparecem Hospedagem, exceto do parlamentar no Distrito Federal, com R$ 85.690,32; Divulgação da Atividade Parlamentar, com R$ 50.000,00; Fornecimento de Alimentação do Parlamentar, com R$ 22.995,07; Passagem Aérea em regime de reembolso, com R$ 15.234,73; e Locação ou Fretamento de Aeronaves, com R$ 14.100,00. As oito rubricas somam R$ 1.637.174,67, cerca de 98,5% do total do mês.
Somadas, as despesas ligadas a deslocamento e permanência fora de Brasília — combustível, aluguel de veículos, fretamento de aeronaves, hospedagem e passagem aérea reembolsada — chegam a R$ 1.244.543,38, ou 74,9% do gasto parcial. É o retrato de um mês com poucos dias de deliberação em plenário e, presumivelmente, mais atividade de base, embora o dado da cota não permita atribuir finalidade a cada lançamento.
No ranking individual, Eunício Oliveira (MDB-CE) aparece na primeira posição com R$ 50.000,00, seguido por Lula da Fonte (PP-PE), com R$ 28.362,40, Maria Rosas (Republicanos-SP), com R$ 24.405,78, Marcelo Queiroz (PSDB-RJ), com R$ 21.450,58, e Zezinho Barbary (PP-AC), com R$ 21.231,21. Completam os dez primeiros Gabriel Nunes (PSD-BA), Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), Delegada Katarina (PSD-SE), João Cury (MDB-SP) e Zé Trovão (PL-SC), todos entre R$ 17,9 mil e R$ 19,6 mil. O único lançamento de Eunício Oliveira no mês é justamente o de Divulgação da Atividade Parlamentar, R$ 50.000,00: no dado parcial de agosto, a rubrica inteira é dele.
O que fica de agosto
A retomada pós-recesso produziu uma Câmara que trabalhou no mesmo ritmo diário de julho, em menos dias, e que resolveu no consenso quase tudo o que apreciou. Onde houve conflito, ele nasceu de renúncias de receita e de regras fiscais, não do eixo socioambiental que dominara junho e julho, e não obedeceu à geometria habitual: no PLP 114, centro e esquerda sustentaram o texto da relatora enquanto a direita se partiu; no PLP 230, centro e direita caminharam juntos e a esquerda se dividiu. Duas configurações opostas em duas horas de plenário, no mesmo dia, sobre a mesma matéria-prima orçamentária.
Fontes consultadas
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Como esse balanço foi feito
Este texto é gerado a partir do banco de dados do Monitor da Câmara, que coleta diariamente os dados abertos da Câmara dos Deputados (votações, proposições, discursos, presença e gastos da cota parlamentar).
Para agosto de 2026, o sistema selecionou as votações e pautas de maior peso, mediu a divisão dos blocos, os temas em alta nos discursos e o alinhamento ao governo, e verificou a repercussão na imprensa via busca. O texto editorial foi escrito por Claude Opus 5 com raciocínio estendido, tendo os balanços anteriores como contexto.
Os gastos do mês recém-fechado são parciais — o reembolso da cota atrasa. Nenhum texto é publicado sem revisão do editor.