No último dia de agosto, o ministro Dias Toffoli determinou a suspensão da campanha de Renan Santos por omissão de perfis nas redes sociais, e o candidato do Missão foi diante das câmeras falar pela primeira vez sobre a decisão, enquanto seu partido publicava um post com a palavra “censurado”. A cena sintetiza o que aconteceu entre 1º e 31 de agosto: com a campanha já dentro do calendário oficial e o prazo de registro encerrado no dia 15, quem mais mexeu no tabuleiro não foi adversário nenhum, foi a Justiça Eleitoral.
Os treze nomes acompanhados somaram 25,7 mil artigos no mês. Entre os onze que têm base de comparação com julho, o volume passou de 18,2 mil para 24,5 mil, alta de 35%. Lula e Flávio Bolsonaro ainda respondem por 61% de tudo, mas a distância entre eles voltou a se abrir de forma brusca: 3.282 artigos separam os dois em agosto, contra 105 no fechamento de julho1. O presidente cresceu 34% em volume; o senador do PL caiu 11%.
E há um estreante no pelotão da frente. Augusto Cury saiu de 220 artigos em julho para 1.374 em agosto, salto de 525% que o coloca em sexto lugar, à frente de Pablo Marçal. A imprensa já achou o rótulo: a VEJA perguntou por que o escritor parece ser o Pablo Marçal da vez.
| Candidato | Artigos | Saldo |
|---|---|---|
| Lula | 9.500 | -4 pp |
| Flávio Bolsonaro | 6.218 | -5 pp |
| Renan Santos | 1.952 | +15 pp |
| Ronaldo Caiado | 1.778 | +26 pp |
| Romeu Zema | 1.493 | +13 pp |
| Augusto Cury | 1.374 | +33 pp |
| Pablo Marçal | 752 | -29 pp |
| Rui Costa Pimenta | 544 | +4 pp |
| Edmilson Costa | 496 | +4 pp |
| Hertz Dias | 491 | +8 pp |
| Wilson Grassi | 415 | -8 pp |
| Samara Martins | 351 | +9 pp |
| Clariana Barão | 334 | +18 pp |
Lula: 9.500 artigos e a metade que é pesquisa
Metade da cobertura sobre o presidente é aritmética eleitoral. Pesquisa eleitoral aparece em 4.674 dos 9.500 artigos, política externa em 2.024, e o terceiro bloco relevante junta corrupção (664), tráfico de influência (489) e investigação policial (476), com “lulinha” em 6% das manchetes. A distribuição de tom desta janela mostra 63,6% de cobertura neutra, 20,1% negativa e 16,2% positiva, e a divisão por gênero jornalístico é onde mora a tensão: na notícia factual o sentimento médio é zero, na opinião cai para -0,12 em 793 textos.
O slogan da chapa virou material dos dois lados. O Antagonista publicou “Lula pronto para mais do mesmo”, Mário Sabino, no Metrópoles, chamou o programa de governo de “balelas, lorotas e mentiras”, e a Gazeta do Povo tratou a sabatina do Jornal Nacional como país entregue às mentiras. Do lado favorável, o Diário do Centro do Mundo devolveu a mesma frase invertida: “o Brasil deve estar pronto para muito mais”. Lula não foi ao primeiro debate do primeiro turno, transmitido pela Band em 23 de agosto, e “debate” aparece em 5% de suas manchetes mesmo assim.
Flávio Bolsonaro: menos volume, mais tribunal
O candidato do PL é o único nome grande do painel que encolheu: 6.218 artigos, 11% menos que em julho. A cobertura continua sendo narrada por comparação, com “lula” em 33% de suas manchetes (simetria quase perfeita com os 29% de “flávio” nas manchetes do presidente). Justiça eleitoral (473) e filiação partidária (422) entram no top 6 de tópicos, sinal de que a rotina judicial passou a competir com a rotina de campanha. O caso da filiação ao Missão que ele diz não ter feito, que levou a PF a abrir inquérito por fraude em 18 de agosto e segue como risco de indeferimento no TSE, rendeu 283 artigos no mês, 4,5% de sua cobertura: peso menor do que a repercussão de quando o caso estourou, em meados do mês.
Na opinião, o tom médio é -0,21, contra praticamente zero na notícia: é onde a crítica se concentra. Mariliz Pereira Jorge, na Folha, perguntou de que ele quer resgatar o país; Bernardo Mello Franco, em O Globo, escreveu que ele mente com mais convicção que o pai; a Revista Fórum acusou o candidato de jogar sujo com o eleitorado evangélico e O Cafezinho catalogou falas suas no Canal Livre.
Renan Santos: 151% a mais e uma campanha suspensa
Foi o maior crescimento relativo entre os quatro primeiros: 1.952 artigos, 151% acima de julho, com 31,4% de cobertura positiva e 15,9% negativa nesta janela. Ele foi ao debate da Band, e segurança pública (399) é seu segundo tópico, sustentado por promessas que a imprensa de esquerda tratou como problema jurídico: o Brasil 247 registrou a promessa de “matar quem roubar” e o Esquerda Diário destacou sua defesa da escala 6×1. No centro, Bernardo Mello Franco o apelidou de “candidato tigrinho”.
A suspensão determinada por Toffoli em 31 de agosto, por omissão de perfis nas redes sociais, entrou no fim da janela e ainda não tinha se desdobrado em volume, mas chegou a repercutir em estados: no Mato Grosso do Sul, candidatos do Missão chamaram a decisão de “absurda”. Vale notar que apenas 6,7% da cobertura sobre ele veio de veículos de esquerda, mas foi lá que se concentrou a crítica mais dura, como no vídeo em que o Diário do Centro do Mundo o descreve confrontado por jornalistas da GloboNews.
Ronaldo Caiado: a crítica veio da reportagem, não da coluna
Com 1.778 artigos (+27%), o ex-governador de Goiás fechou o mês com 4,7% de cobertura negativa; entre os seis mais cobertos, só Augusto Cury (3,0%) tem fatia menor. A crítica não veio de coluna, veio de reportagem de fôlego. O Intercept Brasil publicou que ele quer levar ao país o modelo de segurança de um estado que virou polo de refino de cocaína; o Nexo destrinchou como Goiás se tornou laboratório legal para big techs; Josias de Souza, no UOL, o classificou como certeiro no que é ruim e incerto no que é imprescindível. Nas entrevistas o tom médio é 0,33, contra -0,06 na opinião: quando fala diretamente, ele é bem tratado.
Romeu Zema: três quartos de cobertura neutra
1.493 artigos, alta de 47%, e 75,2% deles neutros, a maior fatia neutra entre os seis mais cobertos. É cobertura de agenda e de composição: o Estadão registrou a escolha de Eduardo Girão como vice (“eduardo girão” aparece 50 vezes nas manchetes) e a mudança de Belo Horizonte para São Paulo. Faltou ao debate da Band. O contraste está entre gêneros: notícia com tom médio 0,08, opinião com -0,21. Foi na opinião que a crítica se organizou em torno de patrimônio e origem, com a CartaCapital chamando-o de “herdeiro rico que não gosta de pobre” e o Diário Causa Operária, na extrema-esquerda, com ataque frontal ao empresário. Sua declaração ao TSE registra R$ 178,7 milhões em 18 bens. Da sabatina da Globo saiu a coluna de Josias de Souza dizendo que ele soou intolerável.
Augusto Cury: de 220 para 1.374 artigos
O escritor teve o mês mais atípico do painel. Cresceu seis vezes em volume, fechou com 35,5% de cobertura positiva e 3,0% negativa, e ocupa espaço em veículos que o mapeamento não classifica: 27,4% de sua cobertura veio de sites sem linha editorial identificada, a maior fatia entre os seis mais cobertos. Parte do impulso vem do debate, ao qual compareceu depois de desistir e voltar atrás, e que portais pequenos trataram como vitória (“domina o debate e explode nas redes”). Semipresidencialismo, tema pouco usual em campanha presidencial, aparece em 126 artigos sobre ele.
A imprensa passou o fim do mês procurando a engrenagem. O Diário do Centro do Mundo apontou Pablo Marçal como articulador do crescimento e registrou que levantamento BTG/Nexus o mostra à frente de Renan Santos entre jovens. A checagem foi o único gênero a puxar para baixo: 16 fact-checks com tom médio -0,08, entre eles a Agência Lupa apontando erro sobre dívida pública em sua entrevista ao Jornal Nacional. À esquerda, o Brasil 247 o chamou de “presidenciável cavalo de Troia”.
Pablo Marçal: registro feito, julgamento pendente
Dos 752 artigos sobre ele, quase tudo é processo: inelegibilidade (446), justiça eleitoral (390), registro de candidatura (246). Inelegível até 2032 por decisão de 2024, ele obteve liminar para voltar ao PRTB e teve o registro protocolado pelo partido em 15 de agosto, com Leonardo Avalanche na vice. O pedido segue com status de “aguardando julgamento” no TSE, ou seja, a candidatura não é fato consumado. No dia 31, sua defesa pediu ao tribunal a suspensão da inelegibilidade de oito anos. É o nome com a distribuição de tom mais negativa do painel (37,1%), e a crítica atravessa o espectro: Bernardo Mello Franco escreveu sobre “a farsa”, Josias de Souza sobre o “jeitinho” que o favoreceu, a Revista Fórum registrou insultos a um jornalista do SBT. Ainda assim, ele fechou o mês em pauta de pesquisa: segundo a AtlasIntel, como registrou o Metrópoles, ele e Zema lideram entre as segundas opções de voto.
A cauda cresce, e o PCO vira caso
Entre os nomes da cauda, o crescimento de Rui Costa Pimenta tem motivo específico: 544 artigos, 428% acima de julho. Fundo partidário (73), desvio de verbas (60) e investigação policial (77) organizam a pauta desde que O Globo publicou que, na “revolução sem povo” do PCO, verba pública abastece negócios da família, e o Estadão publicou opinião sobre partido como negócio rentável. A resposta veio do próprio jornal do partido, o Diário Causa Operária, que sozinho publicou 91 dos artigos do mês e sustenta o tom médio de 0,39 na opinião, com textos como “o PCO não é uma seita familiar”.
Edmilson Costa (496 artigos, +267%), Hertz Dias (491, +211%), Wilson Grassi (415), Samara Martins (351, +64%) e Clariana Barão (334, +457%) tiveram cobertura de calendário: convenção, registro, declaração de bens. Quase toda neutra (Edmilson fecha com 95,2% de neutros) e concentrada em veículos que o painel não consegue classificar por linha editorial (de 45% a 54% do volume de cada um). A CNN Brasil registrou a oficialização de Hertz Dias pelo PSTU, a NSC Total, a de Wilson Grassi pelo Democrata. Samara Martins foi a primeira candidatura registrada no TSE. Em 6 de agosto, o Brasil de Fato escreveu que apenas uma mulher disputaria a Presidência; ao fim do prazo eram duas, com a entrada de Clariana Barão pelo DC. Nas 13 chapas registradas, contando titulares e vices, são sete mulheres em 26 nomes. Duas delas são inteiramente femininas, a do DC e a da UP, que levam Fabiana Torquato e Raquel Brício como vices; as outras três mulheres são vices de PCB, PSTU e Democrata. Nenhuma das cinco candidaturas mais cobertas do painel tem mulher na chapa.
Agosto nas agendas globais
Geopolítica segue o maior cluster (1.253 artigos), mas caiu 40% frente ao mês anterior, e 1.023 dessas menções são de Lula. A pauta comercial com os Estados Unidos, que dominou julho, virou procedimento: o g1 explicou a Lei da Reciprocidade Econômica acionada contra o tarifaço. Quando a campanha entra no calendário, a agenda internacional perde espaço para a disputa doméstica.
O que subiu foi o resto. Democracia cresceu 16% (987 artigos), agora puxado por Flávio Bolsonaro (404), com o debate sobre anistia no centro: o Nexo argumentou por que não faz sentido igualar anistia a golpistas com revisão da Lava Jato, comparação feita por Caiado. Inteligência Artificial avançou 35% (509 artigos) e mudou de natureza: não é pauta de inovação, é regra de campanha, com o TSE se dividindo sobre multa a Flávio Bolsonaro, mas mantendo, segundo o blog de Valdo Cruz, a proibição de deepfakes. Energia mais que dobrou (265 artigos, +119%), com a maioria em torno de Lula (185 dos 265), com o decreto que regulamenta o mercado livre a partir de 2027.
Clima (150 artigos) e Bioeconomia (36) seguem residuais, mesmo crescendo em termos relativos. O tema só entrou na campanha por atrito: o site do PT registrou a reação de Lula e Marina Silva à resposta de Flávio sobre mudanças climáticas na sabatina da Globo, e a Agência Brasil publicou o levantamento do Imazon sobre desmatamento zero em 60% das terras indígenas da Amazônia. Em um ano de COP no Brasil, 150 artigos em 25,7 mil é pouco.
Quem publicou, e o que dominou
A cobertura de centro responde por 60% a 67% do volume dos seis nomes mais cobertos, e o dado que chama atenção está na assimetria das bordas: sobre Lula, a imprensa de direita publicou mais que a de esquerda (13,6% contra 12,1%); sobre Flávio Bolsonaro, o inverso (14,3% de esquerda contra 10,7% de direita). O veículo que mais publicou sobre o candidato do PL no mês foi o Diário do Centro do Mundo, com 416 artigos, à frente de UOL (333), O Globo (327) e g1 (315). Cada campo dedica boa parte de sua energia ao adversário, e isso aparece nas manchetes antes de aparecer no tom.
No conjunto, pesquisa eleitoral soma cerca de 12,5 mil menções entre os treze nomes, quase metade de todo o volume do mês. É o assunto que estrutura a cobertura de agosto, com BTG/Nexus, Quaest e AtlasIntel se revezando nas manchetes. Depois dele, o tema substantivo mais presente é segurança pública, com aproximadamente 2,5 mil menções distribuídas por Lula, Flávio, Renan Santos e Caiado. Saúde e educação praticamente não aparecem entre os tópicos principais de nenhum candidato, com a exceção de Samara Martins, dentista do SUS, cuja cobertura registra 46 artigos sobre saúde pública.
Movimentos do mês
Quatro datas organizam agosto. Em 15/8 fechou o prazo de registro, com todas as 13 chapas protocoladas e as declarações de bens virando pauta obrigatória (as maiores são de Augusto Cury, R$ 242,3 milhões, e Romeu Zema, R$ 178,7 milhões). Em 18/8 a PF abriu inquérito sobre a filiação de Flávio Bolsonaro ao Missão. Em 23/8 a Band realizou o primeiro debate, com ausência de Lula, Flávio e Zema e presença de Caiado, Renan Santos e Cury. Em 31/8 o TSE suspendeu a campanha de Renan Santos e recebeu o recurso de Marçal contra a inelegibilidade. Somados, os episódios explicam por que justiça eleitoral e registro de candidatura aparecem no top 10 de tópicos de dez dos treze candidatos.
Observações finais
Agosto entregou a primeira fotografia da campanha de verdade, e ela tem três características: volume total 35% maior, líder isolado de novo (Lula reabriu uma distância de mais de 3 mil artigos sobre o segundo colocado) e uma cauda que deixou de ser invisível, com cinco nomes crescendo mais de 200% em volume. A cobertura, porém, ainda gasta metade de si mesma contando quem está na frente. Se o mês tem um aviso, é que as decisões de tribunal entraram na disputa como fato jornalístico recorrente, não como incidente: um candidato com registro pendente de julgamento, outro sob inquérito por filiação forjada, um terceiro com campanha suspensa no último dia. Setembro começa com essas três pendências abertas.
Fontes consultadas
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–initiative-communiste
Agência Lupa
Brasil 247
Brasil de Fato
Causa Operária
Diário do Centro do Mundo
Esquerda Diário
Estadão
Folha de S.Paulo
Gazeta do Povo
HiperNotícias
O Antagonista
O Cafezinho
O Globo
Polêmica Paraíba
Portal VV8
Região Noroeste
Revista Fórum
The Intercept Brasil
UOL
blogdopaulopereira.com.br
democraciacrista.org.br
itanhaemnoticias.com.br
noticiasdabahia.com.br
oimparcial.com.br
pcb-–-partido-comunista-brasileiro
prensa-latina.cu
radiosaochico.com.br
Como esse resumo foi feito
Este texto é gerado a partir do banco de dados do projeto Eleições 2026, que monitora continuamente a cobertura da imprensa brasileira sobre os candidatos à Presidência. No período de 01 a 31 de agosto, o sistema coletou artigos de dezenas de veículos — portais de notícias, agências, blogs e imprensa regional — via Brave Search, feeds RSS, Google News e sitemaps de portais jornalísticos.
O processo tem quatro etapas automatizadas: (1) coleta e normalização dos artigos por coletores rodando cinco vezes por dia em servidor dedicado; (2) verificação anti-falso-positivo por DeepSeek V4 Flash, que remove menções fora de contexto eleitoral; (3) classificação de sentimento por candidato, extração de tópicos e classificação de gênero jornalístico também por DeepSeek V4 Flash, com Gemini 3.1 Flash Lite como alternativa quando o primeiro está indisponível; (4) geração do texto editorial por Claude Opus 5 com raciocínio estendido, tendo como contexto obrigatório os posts anteriores desta série.
Uma observação de método: a régua com que o sistema lê o tom das matérias mudou, e todo o acervo desde 25 de março foi reclassificado com ela. Na prática, os percentuais de tom desta edição não comparam com os das edições anteriores, publicados sob os critérios antigos; daqui em diante a série inteira usa o mesmo. Volume e ranking de cobertura não foram afetados. O que mudou, e por quê, está na Metodologia do painel, em Revisões de série.
O rascunho passa por revisão humana antes da publicação. Números e afirmações factuais são verificados contra o banco de dados — afirmações sem respaldo direto nos dados são removidas ou reescritas. Os links apontam para as fontes primárias mencionadas no texto; quando um veículo é citado sem link, significa que o artigo foi identificado no banco mas não estava acessível publicamente no momento da revisão.
Nenhum post é publicado sem revisão do editor.
- O resumo de julho, publicado em 1º de agosto, registrou 97 matérias de diferença. Os 105 vêm do banco atual, depois das revisões de base feitas desde então; a leitura do mês não muda. ↩︎