Questionado sobre feminicídio na sabatina do Jornal Nacional, Romeu Zema respondeu que tem “programas contra as mulheres”. O lapso virou manchete no Jornal de Brasília e resumiu o que aconteceu entre 24 e 30 de agosto: a bancada do telejornal funcionou como o filtro por onde a corrida presidencial passou, um candidato por noite, e a repercussão de cada entrevista organizou o noticiário do dia seguinte. “Globo” aparece em 18% das manchetes sobre o ex-governador de Minas Gerais, 16% das de Augusto Cury, 11% das de Flávio Bolsonaro e de Renan Santos, 10% das de Ronaldo Caiado e 7% das de Lula. No caso do presidente o percentual engana: são 167 manchetes com o termo, quase as 172 de Flávio, diluídas num volume bem maior.
Foram 6.652 artigos sobre os treze nomes do painel, mais que na semana do primeiro debate. Lula e Flávio somam 60% desse total, proporção estável, mas com trajetórias distintas: o presidente cresceu 4% em volume e o senador do PL, 16%.
O segundo eixo da semana não passou por estúdio. Em 30 de agosto, a campanha de Lula pediu ao TSE a inelegibilidade de Flávio por suposto abuso econômico em Barretos. No mesmo período, Dias Toffoli adiou a análise do registro de Renan Santos citando “indícios de ilicitudes”, e o TRE-SP manteve Pablo Marçal inelegível até 2032. A disputa tem dois endereços simultâneos.
| Candidato | Artigos | Saldo |
|---|---|---|
| Lula | 2.413 | -6 pp |
| Flávio Bolsonaro | 1.568 | -5 pp |
| Renan Santos | 569 | +5 pp |
| Ronaldo Caiado | 526 | +18 pp |
| Augusto Cury | 472 | +30 pp |
| Romeu Zema | 375 | +3 pp |
| Pablo Marçal | 194 | -18 pp |
| Edmilson Costa | 109 | +2 pp |
| Rui Costa Pimenta | 107 | +19 pp |
| Clariana Barão | 87 | +26 pp |
| Hertz Dias | 87 | +11 pp |
| Samara Martins | 77 | +21 pp |
| Wilson Grassi | 68 | +1 pp |
Lula: a sabatina que a direita transformou em pauta própria
Com 2.413 artigos, o presidente segue sem rival em atenção, e a estrutura da cobertura mudou pouco: pesquisa eleitoral aparece em 1.326 matérias, 55% de tudo o que se publicou sobre ele, e “flávio” ocupa 34% das manchetes. Dois terços da cobertura ficaram em tom neutro, com 19,8% negativa contra 13,8% positiva, praticamente a mesma divisão da semana anterior.
A divisão por gênero é onde está a informação. Na notícia factual, o sentimento é praticamente nulo (-0,01); na opinião, cai para -0,15. A entrevista ao JN deu à imprensa de direita um enquadramento único, repetido em versões quase idênticas: a Gazeta do Povo publicou que o país foi entregue às mentiras e voltou ao tema com fotos que, segundo o veículo, desmentem o presidente sobre uma lobista; o Diário do Poder listou o que classificou como erros sobre PIB, déficit e INSS. Nenhum tema de política pública sobreviveu no vocabulário das manchetes, com uma exceção curiosa: “taxa das blusinhas” aparece 53 vezes.
Flávio Bolsonaro: clima, deepfake e um pedido de inelegibilidade
O crescimento de 16% em volume veio acompanhado de piora no tom: 20,9% de cobertura negativa contra 16% positiva, quando na semana anterior as duas fatias estavam empatadas, em 17,9% e 18,5%. Sua sabatina rendeu dois flancos. O primeiro é climático: ao ser questionado sobre aquecimento global, deu resposta que o PT e Marina Silva trataram como negacionismo, e o senador também defendeu a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, como registrou a Veja. O segundo é jurídico: o blog de Valdo Cruz, no g1, adiantou que o TSE deve manter a proibição de deepfakes na campanha, dividindo-se apenas sobre a multa.
A leitura da própria sabatina rachou. Na CartaCapital, Kakay escreveu que o candidato oscilou entre a mentira e a ignorância, enquanto o Diário do Centro do Mundo publicou análise numérica sustentando que a Globo o favoreceu. Fora do estúdio, a chapa se organizou: a Veja informou que o vice Alfredo Gaspar fará campanha em todos os estados do Nordeste. O caso da filiação forjada ao partido Missão, que abriu inquérito na PF em agosto e ainda pesa sobre o registro no TSE, encolheu para 12 artigos nesta janela, depois de dominar a agenda do senador em meados do mês. Deixou de ser eixo e virou nota de rodapé.
Renan Santos: o registro trava e o tom cai
Foram 569 artigos (+26%), mas a queda de tom é a mais acentuada entre os nomes de maior volume: a cobertura negativa mais que dobrou, de 9,1% para 20,6%, e a positiva caiu de 35,6% para 25,7%. A causa tem data. Depois da decisão de Toffoli, Josias de Souza escreveu no UOL que o ministro colocou o candidato no telhado, e o Missão respondeu ao Estadão que a decisão sobre a candidatura é “nula”. O mesmo jornal descreveu a militância do partido, com pontuação em aplicativo e competição de comentários. À esquerda, a Revista Fórum tratou a candidatura como falta de noção do ridículo, e José Dirceu o chamou de “cópia desbotada” de Pablo Marçal, no Poder360. Nas 17 entrevistas do período, porém, o sentimento médio é 0,26: quando fala, ele se sai melhor do que quando falam dele.
Caiado e Cury: a notícia trata bem, a coluna não
Ronaldo Caiado fechou com 25,9% de cobertura positiva contra 8% de negativa, atrás apenas de Cury entre os nomes de topo. Mas a fatia negativa quase triplicou: era 2,8% na semana anterior. O buraco está na opinião (-0,19), contra 0,10 na notícia e 0,33 nas entrevistas. Sua sabatina virou alvo de chacota nas redes, segundo a Revista Fórum, e o DCM afirmou que ele foi desmentido ao vivo ao minimizar o plano golpista. No centro, Josias de Souza o descreveu como certeiro no que é ruim e incerto no que é imprescindível, e o Estadão tratou de sua falta de bons modos na campanha. Segurança pública (113 menções) segue sendo o assunto que ele consegue impor.
O maior salto proporcional da semana é de Augusto Cury: 472 artigos, alta de 45%, com 34,1% de cobertura positiva contra 4% negativa, o perfil menos contestado entre os nomes de maior volume. Sua pauta é o próprio repertório profissional (saúde mental, telemedicina e inteligência artificial somam 68 menções), e na Globo ele propôs um novo ministério e convidou Caiado para comandá-lo. A checagem foi menos generosa: a Agência Lupa apontou erro sobre dívida pública e promessa que já existe no Bolsa Família. Os dois extremos o leram como instrumento: o Brasil 247 o chamou de “cavalo de Troia”, e o PlatôBR mapeou a mão de Marçal em seu crescimento nas redes.
Zema: o único dos seis sabatinados a perder volume, e a rejeição vem dos dois lados
375 artigos, queda de 6%, e o pior sentimento médio em opinião de toda a janela (-0,35). A entrevista concentrou tudo. Josias de Souza escreveu que ele soou intolerável na Globo; o ICL Notícias titulou que ele é contra as mulheres; o DCM registrou que um fundador do Novo disse que o partido deveria “desaparecer” da mídia. O detalhe que importa é que a crítica não ficou restrita ao campo adversário: a Veja, à direita, publicou que a campanha errática ameaça o futuro do Novo.
Marçal e a fila do TSE
Com 194 artigos, queda de 53%, Marçal teve a maior fatia negativa do painel (35,1%). Ainda assim é recuo: na semana anterior a negativa era 46% e a positiva não passava de 5,1%, contra 17,5% agora. O vocabulário das manchetes é quase todo judicial: “TRE” em 38%, “inelegível” em 27%, “2032” em 18%. O TRE-SP reverteu uma das condenações, mas outras decisões o mantiveram inelegível até 2032, com multa de R$ 420 mil. O registro apresentado pelo PRTB em 15 de agosto segue aguardando julgamento no TSE: não é fato consumado. Vale o contexto de escala que o Metrópoles trouxe, com o MP contestando mais de 900 registros em 2026.
A cauda: 535 artigos e a cobertura de lista
Os seis nomes de menor volume somaram 535 artigos, 8% do total, e a maior parte disso é cobertura agregada: “candidatos à presidência”, “confira a agenda”, “veja os números”. Há exceções com conteúdo próprio. Clariana Barão, do DC, teve de provar ao TSE, em três dias, que é brasileira, e defendeu regulação de redes para crianças. Samara Martins, única mulher preta entre os treze titulares registrados, encabeça a chapa da UP. Hertz Dias, do PSTU, denunciou boicote ao partido e criticou Lula. Rui Costa Pimenta não teve uma única matéria negativa na janela, e 18,7% da cobertura foi positiva. O jornal do próprio partido responde por 17 dos seus 107 artigos e por peças como esta. E Wilson Grassi conseguiu a manchete mais inusitada da semana, com a proposta de um “Meu Botox, Minha Vida”.
A semana nas agendas globais
Democracia liderou o zeitgeist com 232 artigos, alta de 58% sobre a janela anterior, puxada quase igualmente por Flávio (88) e Lula (87), com Zema em terceiro (28). O crescimento tem explicação direta no calendário: anistia, inelegibilidades e registros contestados dominaram as sabatinas e o noticiário do TSE. O Nexo tratou do argumento mais repetido pelo campo da direita ao explicar por que não faz sentido igualar anistia golpista à revisão da Lava Jato.
Geopolítica caiu 11% (230 artigos) e continua dominada por Lula, que responde por 133 deles, com Renan Santos (51) e Flávio (37) atrás. A Agência Pública ouviu Celso Amorim sobre as pressões geopolíticas sobre o Brasil e a relação com Trump. O contraste mais nítido está entre Energia e Clima: a primeira caiu 49% (58 artigos), a segunda subiu 217% (57 artigos). Não é coincidência. O tema climático não entrou pela iniciativa das campanhas, entrou por uma pergunta feita a Flávio Bolsonaro em estúdio, e é ele quem domina os dois clusters (33 em Clima, 25 em Energia). Uma agenda que chega ao debate como controvérsia, não como proposta.
Inteligência artificial cresceu 26% (154 artigos) por duas portas distintas: Augusto Cury a trata como plataforma programática (61 artigos) e Flávio aparece nela como réu de regulação (52), pela discussão sobre deepfakes no TSE. Bioeconomia, com 7 artigos e queda de 56%, segue fora da conversa eleitoral, embora o tema circule na cobertura ambiental, como no levantamento do Imazon sobre desmatamento zero em terras indígenas.
Quem cobriu, e com que régua
O g1 foi o veículo mais presente em oito dos treze nomes, e entre os seis mais cobertos a imprensa de centro concentrou de 66% a 76% da cobertura, participação previsível numa semana pautada por entrevistas de uma emissora aberta. A imprensa de direita e extrema-direita ficou abaixo de 17% em todos os casos, mas com pauta unificada e alta reincidência: o eixo “mentiu no JN” apareceu repetido em Gazeta do Povo, Diário do Poder e Revista Oeste. À esquerda, DCM, Fórum, ICL e CartaCapital especializaram-se em auditar as sabatinas alheias, com foco em Zema, Caiado e Flávio.
Pesquisa eleitoral segue sendo o tecido conectivo de tudo: 1.326 menções em Lula, 966 em Flávio, 310 em Caiado, 264 em Renan Santos e 233 em Zema, e “Quaest” aparecendo em 6% das manchetes de Lula, 8% das de Flávio e 9% das de Caiado. É o assunto que sobrevive a qualquer evento. O que não conseguiu espaço foi programa de governo: mesmo segurança pública, o tema programático mais citado, aparece 207 vezes nas matérias sobre Lula, contra 1.326 de pesquisa eleitoral. A campanha está sendo coberta pelo que os candidatos dizem em entrevistas e pelo que os tribunais decidem sobre eles, nessa ordem.
O que fica
A semana mostrou o custo assimétrico de uma mesma exposição. Seis candidatos passaram pelo mesmo formato, com o mesmo tempo e o mesmo tipo de pergunta, e saíram com resultados de cobertura muito diferentes: Cury cresceu 45% em volume com 4% de cobertura negativa, enquanto Zema perdeu volume e viu a opinião cravar -0,35 sobre seu nome. Ao mesmo tempo, três candidaturas de topo entraram na semana seguinte com pendência judicial ativa, entre pedidos de inelegibilidade, registros adiados e recursos em curso. A imprensa cobriu duas corridas em paralelo, e ainda não está claro qual das duas vai definir mais nomes na urna.
Fontes consultadas
89 links · 63 veículos
Agência Lupa
Alma Preta Jornalismo
Blog do Amarildo
Brasil de Fato
Causa Operária
Correio Braziliense
Correio do Povo Penedo
Diário Carioca
Diário de São Paulo
Diário do Centro do Mundo
Diário do Poder
Gazeta do Povo
ICL Notícias
Jornal de Brasília
Metrópoles
Monitor Mercantil
O Antagonista
O Globo
- Renan Santos é o único presidenciável com mais elogios que críticas após debate na Band – O GLOBO
- Zema na TV Globo: como o ex-governador se saiu na entrevista? Veja as notas e avaliações dos colunistas do GLOBO – O GLOBO
- Análise: Caiado encontrou um caminho para a terceira via. A anistia pode fechá-lo – O GLOBO
Paraíba Online
Partido dos Trabalhadores
Poder360
Polêmica Paraíba
Revista Fórum
Rádio Itatiaia
Tribuna do Agreste
Tribuna do Sertão
UOL
archive.ph
areavip.com.br
bahialivrenoticias.com
banzeironews.com
blog-do-barreto
blog-do-doc.com
blog-lucas-tavares
classe-politica
g1
notícia-preta
ofarolpb.com
ponta-negra-news
spacemoney
tribunal-regional-eleitoral-de-são-paulo
Como esse resumo foi feito
Este texto é gerado a partir do banco de dados do projeto Eleições 2026, que monitora continuamente a cobertura da imprensa brasileira sobre os candidatos à Presidência. Na semana de 24 a 30 de agosto, o sistema coletou artigos de dezenas de veículos — portais de notícias, agências, blogs e imprensa regional — via Brave Search, feeds RSS, Google News e sitemaps de portais jornalísticos.
O processo tem quatro etapas automatizadas: (1) coleta e normalização dos artigos por coletores rodando cinco vezes por dia em servidor dedicado; (2) verificação anti-falso-positivo por DeepSeek V4 Flash, que remove menções fora de contexto eleitoral; (3) classificação de sentimento por candidato, extração de tópicos e classificação de gênero jornalístico também por DeepSeek V4 Flash, com Gemini 3.1 Flash Lite como alternativa quando o primeiro está indisponível; (4) geração do texto editorial por Claude Opus 5 com raciocínio estendido, tendo como contexto obrigatório os posts anteriores desta série.
Uma observação de método: a régua com que o sistema lê o tom das matérias mudou, e todo o acervo desde 25 de março foi reclassificado com ela. Na prática, os percentuais de tom desta edição não comparam com os das edições anteriores, publicados sob os critérios antigos; daqui em diante a série inteira usa o mesmo. Volume e ranking de cobertura não foram afetados. O que mudou, e por quê, está na Metodologia do painel, em Revisões de série.
O rascunho passa por revisão humana antes da publicação. Números e afirmações factuais são verificados contra o banco de dados — afirmações sem respaldo direto nos dados são removidas ou reescritas. Os links apontam para as fontes primárias mencionadas no texto; quando um veículo é citado sem link, significa que o artigo foi identificado no banco mas não estava acessível publicamente no momento da revisão.
Nenhum post é publicado sem revisão do editor.