Seis votações nominais em plenário, dentro de um universo de 784 deliberações registradas, bastaram para desenhar o mapa do conflito na Câmara em julho de 2026. O resto correu em ritmo administrativo: 776 matérias aprovadas contra apenas oito rejeitadas, uma taxa de sucesso de 99%. Em junho, a Casa havia registrado 741 votações, 719 aprovações e 19 rejeições, o que indica um mês de julho com volume ligeiramente maior e atrito formal ainda menor. A comparação, porém, é entre meses de tamanho diferente: a sessão legislativa se encerrou em 17 de julho e o recesso constitucional tomou o restante. Toda a atividade do mês coube na primeira metade, e a última votação de plenário foi no dia 14. Junho e julho tiveram o mesmo número de dias com deliberação, nove, mas julho comprimiu os seus antes de a Casa fechar.
O padrão que se repete é o da concentração. A quase totalidade das deliberações passa sem placar disputado, e a fratura política aparece condensada em meia dúzia de momentos, quase todos deles requerimentos de urgência. Foi assim em junho, quando mineração e demarcação de terras indígenas partiram o plenário, e voltou a ser assim agora, com áreas de proteção ambiental no centro da disputa.
A tensão do mês: áreas protegidas de novo no eixo do conflito
A votação mais divisiva de julho (índice de 0,778) aconteceu logo no primeiro dia do mês, às 18h34: a aprovação, por 279 votos a 162 e uma abstenção, de um requerimento de urgência sob o artigo 155 do Regimento Interno. O registro da votação no banco não traz a proposição vinculada, mas a cobertura de imprensa identificou o placar exato como o da urgência para o Projeto de Lei nº 849, de 2025, que altera os limites da Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca, no litoral de Santa Catarina. A matéria foi noticiada por ((o))eco, pela Folha de S.Paulo, pelo CicloVivo e pelo ClimaInfo, este último tratando o conjunto de decisões do Congresso no período como ameaça a áreas protegidas.
A distribuição dos votos foi nítida: entre os deputados de direita, 205 apoiaram a urgência e 32 se opuseram (86,5% de apoio); no centro, 69 a favor e 18 contra (79,3%); na esquerda, 5 a favor e 112 contra, ou 4,3% de adesão.
Duas semanas depois, em 14 de julho, o plenário repetiu a configuração ao aprovar, por 276 a 139, o Requerimento nº 3.797, de 2026, que pediu urgência para o Projeto de Decreto Legislativo nº 171, de 2026, proposta que susta os efeitos do decreto de março que ampliou a Estação Ecológica de Taiamã, nos municípios de Cáceres e Poconé, em Mato Grosso. Terceira pauta mais divisiva do mês (0,766), a votação teve 90,7% de apoio entre os deputados de direita, 87,0% no centro e 4,4% na esquerda. Também houve repercussão: ((o))eco, o blog Eco Braziliense, do Correio Braziliense, e veículos regionais registraram a aceleração da tramitação.
Uma terceira urgência da mesma família passou em 2 de julho, com placar mais folgado: o Requerimento nº 1.492, de 2026, que destravou o Projeto de Lei nº 2.898, de 2025, texto que altera a Lei de Crimes Ambientais para criar regime especial de sanções administrativas a pequenos produtores rurais que plantam para subsistência. Foram 305 votos a 112. Aqui a esquerda apareceu menos coesa: 23 votos favoráveis e 91 contrários, 20,2% de adesão, quase cinco vezes o percentual das outras duas.
Três das seis votações nominais de julho trataram de proteção ambiental ou de sanções ambientais. Nas três, direita e centro empurraram as matérias adiante e a esquerda votou majoritariamente contra. É a mesma clivagem socioambiental que organizou junho, quando o atrito veio do Código de Mineração e das demarcações em Santa Catarina.
Vale nomear o eixo com precisão: o que separa os blocos nessas votações é a tensão entre desenvolvimentismo e proteção ambiental, com desdobramentos sobre uso do solo, unidades de conservação e responsabilização por infrações. Não se trata de disputa de costumes.
Os contrapontos: uma inversão e a única divisão da direita
A segunda pauta mais divisiva do mês (0,775) inverteu o desenho habitual. Em 14 de julho, o plenário rejeitou por 285 a 134 a Emenda de Plenário nº 2 apresentada na tramitação do Projeto de Lei nº 3.085, de 2026, que regulamenta o filtro de relevância das questões de direito federal infraconstitucional para admissão de recursos especiais no Superior Tribunal de Justiça, com alteração do Código de Processo Civil. A emenda foi sustentada quase só pela esquerda: 111 votos favoráveis e 4 contrários (96,5% de apoio), contra 5,4% de adesão entre os deputados de direita (12 a favor, 210 contra) e 13,4% no centro (11 a favor, 71 contra).
Foi a pauta com maior lastro de cobertura no mês. A Agência Câmara, o JOTA, o Migalhas, o portal do STJ e a Agência Senado acompanharam a aprovação do texto e seu envio à sanção; a Folha de S.Paulo registrou a contestação, pelo grupo Prerrogativas, do rito de urgência adotado.
A quarta configuração apareceu em 1º de julho, meia hora antes da urgência da Baleia Franca, e é a única das seis nominais em que o campo da direita rachou ao meio. O Requerimento nº 3.690, de 2026 pediu urgência para o Projeto de Lei nº 896, de 2023, que equipara a misoginia ao crime de racismo, alterando a Lei nº 7.716, de 1989, e o Código Penal. Aprovado por 293 a 158, com três abstenções: a direita ficou em 98 votos a favor e 139 contra, 41,4% de apoio, enquanto a esquerda apoiou quase em bloco (123 a 2) e o centro deu 80,9% de adesão. O Correio Braziliense e a Revista Fórum registraram a aprovação; segundo a cobertura, o argumento de quem votou contra é que o texto traria conceitos subjetivos e poderia alcançar manifestações de caráter religioso.
Como os blocos votaram
Uma ressalva metodológica antes dos números: os percentuais acima descrevem votos individuais registrados por deputados agrupados por espectro, não orientações de liderança. Um bloco com 90% de apoio pode conter deputados que votaram contra a recomendação do seu líder, e o dado disponível não permite separar uma coisa da outra.
Feita a ressalva, o mês teve quatro configurações distintas. Na primeira, direita e centro alinhados acima de 79% e esquerda abaixo de 5% (Baleia Franca, Taiamã). Na segunda, a inversão do caso do STJ, com a esquerda isolada acima de 96% e os demais blocos abaixo de 14%. Na terceira, a única em que a direita se dividiu: 41,4% de apoio à urgência do projeto sobre misoginia, com o centro (80,9%) e a esquerda (98,4%) do outro lado. Na quarta, o consenso amplo: em 7 de julho, o plenário aprovou por 470 a 1 o substitutivo adotado pela relatora da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher ao Projeto de Lei Complementar nº 41, de 2026, que institui o Sistema Nacional de Enfrentamento da Violência contra Meninas e Mulheres e prevê destinação de recursos a ações de combate ao feminicídio. Centro e esquerda registraram 100% de votos favoráveis, e o único voto contrário do plenário partiu de Kim Kataguiri (Missão-SP), dissidência isolada na direita. A Folha de S.Paulo noticiou a aprovação com foco na reserva de recursos aos estados.
Temas em alta nos discursos
O plenário e as comissões falaram de mulheres como não faziam no mês anterior. “Direitos das Mulheres e Família” saltou de 34 para 104 menções, um acréscimo de 70, e assumiu a liderança temática do mês, movimento coerente com as duas votações do mês sobre a pauta: o PLP 41, de 2026, e a urgência do projeto que criminaliza a misoginia. “Meio Ambiente e Clima” mais do que dobrou, de 24 para 52 menções, acompanhando a agenda das urgências.
Na direção oposta, “Segurança Pública e Crime” recuou de 135 para 71 menções, ainda assim o segundo tema mais falado. As quedas se espalharam por quase todo o resto: “Gestão Pública” perdeu 56 menções (de 88 para 32), “Economia e Mercado” e “Saúde Pública” caíram 46 cada (para 37 e 35, respectivamente), e “Trabalho e Previdência” recuou 40, chegando a 34. O retrato é o de uma agenda discursiva que se estreitou em torno de dois assuntos enquanto os demais murcharam de forma relativamente uniforme.
Alinhamento com o governo
O índice de convergência das bancadas com a posição do governo nas votações do mês ficou em 80,0% na esquerda, 54,2% no centro e 44,7% na direita. A distância entre os extremos é de 35,3 pontos, e o centro segue como fiel da balança, um pouco acima da linha média. Os números conversam com o que aconteceu no plenário: nas três urgências de temática ambiental, o centro votou com a direita, o que ajuda a explicar por que a base governista, mesmo coesa, perdeu essas disputas por margens confortáveis. Na urgência sobre misoginia o movimento se inverteu, com o centro em 80,9% ao lado da esquerda. É essa oscilação, e não um alinhamento estável, que sustenta a posição do bloco como fiel da balança.
A agenda fiscal e o crédito à exportação
A principal matéria de repercussão orçamentária do mês foi a Medida Provisória nº 1.345, de 2026, aprovada na forma do Projeto de Lei de Conversão nº 7, de 2026, que altera as Leis nº 9.818/1999 e nº 12.712/2012 para fortalecer e modernizar o sistema brasileiro de apoio oficial ao crédito à exportação. O plenário aprovou primeiro o parecer da Comissão Mista quanto a relevância, urgência e adequação financeira e orçamentária, depois o texto principal, rejeitou as Emendas nº 24 e nº 71 e aprovou a redação final. Nenhuma dessas etapas foi a votação nominal, o que impede desagregar posições por bloco.
Trata-se de matéria de natureza creditícia, e não de renúncia tributária. A Agência Câmara noticiou a posterior sanção da lei apresentando-a como oferta de R$ 15 bilhões em crédito a empresas afetadas pelo tarifaço; Notícias Agrícolas e veículos setoriais também acompanharam. O valor citado é da cobertura, não do registro de votação.
Gastos da cota parlamentar: o dinheiro anda de carro
A cota para o exercício da atividade parlamentar (CEAP) somou R$ 1.995.730,15 em julho, segundo os registros já processados. O número é parcial e tende a crescer: o reembolso de despesas costuma ser lançado com atraso de semanas, de modo que o mês recém-fechado sempre aparece subestimado. Comparações com meses anteriores, por isso, não se sustentam neste momento.
Mais informativa do que o ranking é a composição do gasto. Combustíveis e Lubrificantes respondeu por R$ 1.106.787,30, ou 55,5% de tudo o que foi registrado. Em seguida vieram Manutenção de Escritório de Apoio à Atividade Parlamentar (R$ 322.138,18), Locação ou Fretamento de Veículos Automotores (R$ 284.496,02) e Hospedagem, exceto do parlamentar no Distrito Federal (R$ 182.719,25). Somando combustíveis, locação de veículos, táxi, pedágio e estacionamento (R$ 21.920,86) e fretamento de aeronaves (R$ 10.002,00), o deslocamento consumiu cerca de R$ 1,42 milhão, algo próximo de sete em cada dez reais registrados no mês. Fornecimento de alimentação do parlamentar ficou em R$ 43.060,90 e serviço de segurança prestado por empresa especializada, em R$ 12.787,85.
No ranking individual, o maior gasto registrado foi o do deputado General Girão (PL-RN), com R$ 30.245,58, seguido por Bibo Nunes (PL-RS), R$ 27.253,13, Kiko Celeguim (PT-SP), R$ 25.193,10, Lula da Fonte (PP-PE), R$ 25.162,39, e Maria Rosas (Republicanos-SP), R$ 24.152,02. Completam a lista Pedro Lucas Fernandes (União-MA), R$ 22.898,52; Bacelar (PV-BA), R$ 21.240,52; Carlos Veras (PT-PE), R$ 21.041,37; Marcelo Queiroz (PSDB-RJ), R$ 20.890,19; e Ruy Carneiro (Pode-PB), R$ 17.938,16. Os dez maiores gastos somados equivalem a pouco mais de 11% do total do mês, o que indica uma distribuição relativamente achatada, sem um caso destoante do conjunto.
O que o mês deixa
Julho reforçou uma leitura que já se insinuava em junho: a Câmara aprova quase tudo o que delibera, reserva o embate a um punhado de votações nominais e, quando esse embate acontece, ele tende a se organizar em torno do uso de áreas protegidas e da regulação ambiental. A exceção veio da matéria processual sobre o STJ, que inverteu o alinhamento dos blocos e concentrou a maior parte da cobertura jornalística do período. E a pauta de mulheres, que dominou os discursos do mês, apareceu no plenário em dois registros opostos: 470 votos a 1 no financiamento das ações de enfrentamento ao feminicídio, o consenso mais amplo do período, e a urgência do projeto que criminaliza a misoginia, a única votação em que a direita se dividiu ao meio.
Fontes consultadas
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brasildefato.com.br
ciclovivo.com.br
clickpb.com.br
climainfo.org.br
correiobraziliense.com.br
diariodoestadogo.com.br
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marechalnews.com.br
migalhas.com.br
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oeco.org.br
revistaforum.com.br
Como esse balanço foi feito
Este texto é gerado a partir do banco de dados do Monitor da Câmara, que coleta diariamente os dados abertos da Câmara dos Deputados (votações, proposições, discursos, presença e gastos da cota parlamentar).
Para julho de 2026, o sistema selecionou as votações e pautas de maior peso, mediu a divisão dos blocos, os temas em alta nos discursos e o alinhamento ao governo, e verificou a repercussão na imprensa via busca. O texto editorial foi escrito por Claude Opus 5 com raciocínio estendido, tendo os balanços anteriores como contexto.
Os gastos do mês recém-fechado são parciais — o reembolso da cota atrasa. Nenhum texto é publicado sem revisão do editor.