As rodadas de negociações climáticas em Belém expõem, com força, a distância entre ambição e influência. De um lado, a presença recorde de mais de 1.600 lobistas de combustíveis fósseis — superando todas as delegações nacionais, exceto a brasileira — reacende o debate sobre captura corporativa e credibilidade do processo multilateral. De outro, governos e instituições tentam avançar em agendas concretas: o Brasil lançou seu primeiro plano nacional de adaptação climática para a saúde, estruturado em vigilância, evidências e inovação, e alinhado à OMS.
Ao mesmo tempo, a diplomacia brasileira se vê pressionada por europeus que cobram de Lula um papel mais ativo em relação à Rússia, enquanto a China anuncia que suas emissões estão estáveis ou em queda há 18 meses — ainda que suas novas metas sejam consideradas tímidas para evitar cenários críticos. E, nos bastidores, a disputa pela narrativa e pela formulação das políticas climáticas cresce: grupos industriais, como a Global Meat Alliance, enxergam nos “Grupos de Ativação” da COP30 uma oportunidade estratégica de moldar decisões sobre alimentos, florestas e energia.
Foto do post: 13/11/2025 – Belém – Ativistas durante a marcha “Porongaço” dos Povos da Floresta. O nome “Porongaço” vem da poronga, a lamparina usada pelos seringueiros nas noites de trabalho na mata. Foto de Ueslei Marcelino/COP30
Fossil fuel lobbyists outnumber all Cop30 delegations except Brazil, report says (The Guardian, 14/11/2205) – “Mais de 1.600 lobistas de combustíveis fósseis receberam credenciais para participar das negociações climáticas da COP30 em Belém, superando significativamente o tamanho das delegações de todos os países — exceto a do Brasil, anfitrião do evento, segundo uma nova análise. De acordo com o levantamento da coalizão Kick Big Polluters Out (KBPO), um em cada 25 participantes da cúpula climática da ONU deste ano é lobista dos combustíveis fósseis, o que levanta sérias questões sobre a captura corporativa e a credibilidade das negociações anuais da COP.“
Brasil lança primeiro plano de adaptação climática para saúde na COP30 (COP30, 13/11/2025) – “O Plano de Ação em Saúde de Belém é composto por três linhas de ação interligadas por conceitos transversais de equidade em saúde, justiça climática e governança participativa. São elas: vigilância e monitoramento; políticas, estratégias e fortalecimento de capacidades baseados em evidências; e inovação, produção e saúde digital. A operação será coordenada em colaboração com a Aliança para Ação Transformadora em Clima e Saúde (ATACH), sob supervisão da Organização Mundial da Saúde (OMS).“
Na COP, Lula pede aportes no TFFF e europeus o cobram sobre Rússia (Uol Notícias, 13/11/2025) – “A leitura da diplomacia brasileira é que a cobrança dos europeus por uma ação de Lula seria pelo fato de o presidente Vladimir Putin ter mais disposição em ouvir o presidente brasileiro. Citam como exemplo dessa boa relação a participação de Lula, em maio, em Moscou, da comemoração pelos 80 anos da derrota da Alemanha nazista para o Exército soviético na Segunda Guerra Mundial, em 1945.”
China’s CO2 emissions have been flat or falling for past 18 months, analysis finds (11/11/2025) – “As metas duplas de carbono da China são atingir o pico das emissões até 2030 e a neutralidade de carbono até 2060. Em setembro, o país divulgou suas novas metas climáticas, que preveem reduzir as emissões totais de gases de efeito estufa entre 7% e 10% em relação ao pico até 2035. Especialistas afirmam que essas metas são modestas demais para evitar uma catástrofe global e ficam muito aquém do corte de 30% considerado viável e necessário.“
Mapped: Big Food’s Routes to Influence at COP30 (DeSmog, 10/11/2025) – “Neste ano, as atenções da indústria se concentram nos ‘Grupos de Ativação’ da COP30 — cerca de 30 coalizões multissetoriais convocadas pela presidência brasileira para formular políticas sobre temas como sistemas alimentares, restauração de terras e eliminação gradual dos combustíveis fósseis. A Global Meat Alliance (GMA), uma iniciativa de grupos de produtores industriais do Reino Unido, América do Norte e Austrália, descreveu esses grupos como uma oportunidade para ‘influenciar políticas’. Em comunicado à DeSmog, a GMA afirmou que essa influência ‘reflete o princípio de que todo ator — incluindo agricultores, cientistas, comunidades indígenas e a indústria — deve ter um assento à mesa’.“