Entre a vigilância e a alucinação

A curadoria sobre Tecnologia desta semana foca na vigilância estatal (Protei), no colapso ético da IA (anúncios no ChatGPT, necromancia, vazamentos) e na exploração do consumo digital.

Cibersegurança Leonardo Fontes de Sales 4 min

A curadoria sobre Tecnologia desta semana destaca, entre outros temas, aspectos sombrios da infraestrutura digital e da Inteligência Artificial. Enquanto um ataque hacker à provedora Protei expõe as entranhas do SORM — o sistema de vigilância estatal russo —, observamos um movimento preocupante no setor de IA generativa, mais especificamente pela OpenAI: a transição de “ferramentas de inteligência” para plataformas de publicidade. Como debatido em artigo de Alberto Romero, a inserção de anúncios no ChatGPT ameaça a neutralidade das respostas, inaugurando uma nova era de “enshittification”.

No campo da ética e da privacidade, relatos sobre startups que vendem conversas com parentes falecidos (“necromancia digital”) e vazamentos massivos de chatbots eróticos — revelando o uso de IA para criar pornografia não consensual — mostram como a tecnologia avança mais rápido que muitos limites morais. Essas ferramentas, muitas vezes inseguras, transformam dados pessoais e a própria imagem humana em commodities vulneráveis.

Por fim, trazemos uma reflexão de Slavoj Žižek sobre o “Capitalismo Digital”, onde o nosso simples consumo — clicar, assistir, interagir — torna-se uma forma de trabalho produtivo para as corporações. Boa leitura.

Cibersegurança

Surveillance tech provider Protei was hacked, its data stolen and its website deface (TechCrunch, 17/11/2025) – “O SORM é o principal sistema de interceptação legal usado em toda a Rússia, além de em vários outros países que utilizam tecnologia russa. Operadoras de telefonia e internet instalam equipamentos do SORM em suas redes, o que permite que os governos desses países obtenham o conteúdo de chamadas, mensagens de texto e dados de navegação na web dos usuários dessas redes.

Inteligência Artificial

Why Ads on ChatGPT Are More Terrifying Than You Think (The Algorithmic Bridge, 02/12/2025) – “A principal utilidade de um LLM (Grande Modelo de Linguagem) é a capacidade de comprimir vastas quantidades de dados em uma resposta única e coerente (isto é, quando ele não alucina). Valorizamos essa síntese porque assumimos que ela deriva de uma ponderação ‘neutra’ dos fatos disponíveis: o ChatGPT vai à busca do Google e fornece uma resposta baseada, presumivelmente, em uma boa combinação de fontes. A publicidade introduz um incentivo perverso que mina diretamente essa utilidade. Diferentemente de um mecanismo de busca, que apresenta opções pagas ao lado de resultados orgânicos (o que já prejudica a experiência do usuário no que é comumente conhecido como ‘enshittification’ ou degradação de plataformas), um LLM integrará os anúncios na própria resposta.

WHY WE REMAIN ALIVE ALSO IN A DEAD INTERNET (ŽIŽEK GOADS AND PRODS, 19/11/2025) – “A maneira usual de explicar esse problema é apontar que a lacuna entre produção e consumo desaparece com a digitalização. No capitalismo pré-digital, a produção (trabalho produtivo — a fonte de valor, para Marx) é de onde provém o lucro, e o consumo não agrega valor algum.

No entanto, no capitalismo digital, o nosso consumo (uso do espaço digital: clicar em buscas, assistir a podcasts, trocar mensagens, fazer o ChatGPT realizar o nosso trabalho, etc.) é, em si, produtivo do ponto de vista das corporações que possuem o espaço digital: isso lhes fornece dados sobre nós, para que saibam mais a nosso respeito do que nós mesmos, e elas usam esse conhecimento para vender para nós e nos manipular.

Nesse sentido, o capitalismo digital ainda precisa de humanos. Contudo, a necessidade de humanos é mais profunda — como costuma acontecer, o cinema fornece uma chave para entender isso.

Massive Leak Shows Erotic Chatbot Users Turned Women’s Yearbook Pictures Into AI Porn (404 Media, 19/11/2025) – “A plataforma estava armazenando links para imagens e vídeos em contêineres Blob do Microsoft Azure desprotegidos, onde qualquer pessoa podia acessar arquivos XML contendo links para as imagens e examinar os dados internos.

Um contêiner rotulado como ‘removed images’ (imagens removidas) continha cerca de 930.000 imagens, muitas de celebridades reconhecíveis e mulheres de aparência muito jovem; um contêiner chamado ‘faceswap’ continha 50.000 imagens; e um chamado ‘live photos’, referindo-se a vídeos curtos gerados por IA, continha 220.000 vídeos.

Várias imagens são duplicatas com nomes de arquivo diferentes, ou são da mesma pessoa em ângulos ou recortes diferentes, mas, no total, havia quase 1,8 milhão de arquivos individuais nos contêineres visualizados pela 404 Media.

AI startup lets you chat with dead relatives for monthly fee (BoingBoing, 17/11/2025) – “Com a bolha da IA continuando a inchar e os “tech bros” financiados por capital de risco seguindo na tática de jogar qualquer coisa na parede para ver o que cola, na esperança vã de evitar um colapso econômico completo, estou genuinamente surpreso que tenha levado tanto tempo para alguém ressuscitar a ideia de necromancia digital. Infelizmente, porém, esse dia finalmente chegou.

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